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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Dos frades em geral. — O frade moralmente considerado, socialmente e artisticamente. — Prova-se que é muito mais poético o frade que o barão. — Outra vez D. Quixote e Sancho Pança. — Do que seja o barão, sua classificação e descrição lineana. — História do Castelo do Chucherumelo. — Erro palmar de Eugênio Sue; mostra-se que os jesuítas não são a cólera-morbo, e que é preciso refazer o Judeu Errante. — De como o frade não entendeu o nosso século nem o nosso século ao frade. — De como o barão ficou em lugar do frade, e do muito que nisso perdemos. — Única voz que se ouve no atual deserto da sociedade; os barões a gritar contos de réis. — Como se contam e como se pagam os tais contos. — Predileção artística do A. pelo frade: confessa-se e explica-se esta predileção.

Frades... Frades... Eu não gosto e frades. Como nós os vimos ainda os deste século, como nós os entendemos hoje, não gosto deles, não os quero para nada, moral e socialmente falando.

No ponto de vista artístico porém o frade faz muita falta.

Nas cidades, aquela figuras graves e sérias com os seus hábitos talares, quase todos pitorescos e alguns elegantes, atravessando as multidões de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de alcatruz que distinguem a peralvilha raça européia — cortavam a monotonia do ridículo e davam fisionomia à população.

Nos campos o efeito era ainda muito maior; eles caracterizavam a paisagem, poetizavam a situação mais prosaica de monte ou de vale; e tão necessárias, tão obrigadas figuras eram em muito desses quadros, que sem elas o painel não é já o mesmo.

Além disso o convento no povoado e o mosteiro no ermo animavam, amenizavam, davam alma e grandeza a tudo; eles protegiam as árvores, santificavam as fontes, enchiam a terra de poesia e de solenidade.

O que não sabem nem podem fazer os agiotas barões que os substituíram.

É muito mais poético o frade que o barão.

O frade era, até certo ponto, o Dom Quixote da sociedade velha.

O barão é, em quase todos os pontos, o Sancho Pança da sociedade nova.

Menos na graça...

Porque o barão é o mais desgracioso e estúpido animal da criação.

Sem excetuar a família asinina que se ilustra com individualidades tão distintas como o Ruço do nosso amigo Sancho, o asno da Pucela de Orleans e outros.

O barão (onagrus-baronis de Linn, l’âne baron de Buf.) é uma variedade monstruosa engendrada na burra de Balaão, pela parte essencialmente judaica e usurária de sua natureza, em coito danado com o urso Martinho do Jardim das Plantas, pela parte franquinótica sordidamente revolucionária de seu caráter.

O barão é pois usualmente revolucionário, e revolucionamente usurário.

Por isso é zebrado de riscas monárquico-democráticas por todo o pêlo.

Este é o barão verdadeiro e puro-sangue; o que não tem estes caracteres é espécie diferente, de que aqui não se trata.

Ora, sem sair dos barões e tornando aos frades eu digo: que nem eles compreenderam o nosso século, nem nós o compreendemos a eles...

Por isso brigamos muito tempo, afinal vencemos nós, e mandamos os barões a expulsá-los da terra. No que fizemos uma sandice como nunca se fez outra. O barão mordeu no frade, devorou-o ... e escouceou-nos a nós depois.

Como havemos agora de matar o barão?

Porque este mundo e a sua história é a história do “castelo de Churumelo”. Aqui está o cão que mordeu no gato, que matou o rato, que roeu a corda, etc. etc.: vai sempre assim seguindo...

Mas o frade não nos compreendeu a nós, por isso morreu, e nós não compreendemos o frade, por isso fizemos os barões de que havemos de morrer.

São a moléstia deste século; são eles, não os jesuítas, a cólera morbo da sociedade atual, os barões. O nosso amigo Eugênio Sue errou de meio a meio no Judeu Errante que precisa refeito.

Ora o frade foi quem errou primeiro em nos não compreender a nós, ao nosso século, às nossas inspirações e aspirações: com o que falsificou sua posição, isolou-se da vida social, fez da sua morte uma necessidade, uma coisa infalível e sem remédio. Assustou-se com a liberdade que era sua amiga, mas que o havia de reformar, e uniu-se ao despotismo que o não amava senão relaxado e vicioso, porque de outro modo não lhe servia nem o servia.

Nós também erramos em não entender o desculpável erro do frade, em lhe não dar outra direção social, e evitar assim os barões, que é muito mais daninho bicho e mais roedor.

Porque, desenganem-se, o mundo sempre assim foi e há de ser. Por mais belas teorias que se façam, por mais constituições que se comece, o status in statu forma-se logo: ou com frades ou com barões ou com pedreiros-livres, se vai pouco a pouco organizando uma influência distinta, quando não contrária, às influências manifestas e aparentes do grande corpo social. Esta é a oposição natural do Progresso, o qual tem a sua oposição como todas as coisas sublunares; esta corrige saudavelmente, às vezes, e modera sua velocidade, outras a empece com demasia e abuso, mas enfim é uma necessidade.

Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a oposição dos frades que a dos barões. O caso estava em saber conter e aproveitar.

O Progresso e a liberdade perdeu, não ganhou.

Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ruínas, os egressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos fardes — não dos frades que foram, mas dos que podiam ser.

E sei que me não enganam poesias; que eu reajo fortemente com uma lógica inflexível contra as ilusões poéticas em se tratando de coisas graves.

E sei que me não namoro de paradoxos, nem sou destes espíritos de contradição desinquieta que suspiram sempre pelo que foi, e nunca estão contentes com o que é.

Não, senhor: o frade, que é patriota e liberal na Irlanda, na Polônia, no Brasil, podia e devia sê-lo entre nós; e nós ficávamos muito melhor do que estamos com meia dúzia de clérigos de requiem para nos dizer missas; e com duas grosas de barões, não para a tal oposição salutar, mas para exercer toda a influência moral e intelectual da sociedade — porque não há de outra cá.

E senão digam-me: onde estão as universidades, e o que faz essa que há, senão dar o seu grauzito de bacharel em leis e em medicina? O que escreve ela, o que discute, que princípios tem, que doutrinas professa, quem sabe ou ouve dela senão algum eco tímido e acanhado do que noutra parte se faz ou diz?

Onde estão as academias?

Que palavra poderosa retine nos púlpitos?

Onde esta a força da tribuna?

Que poeta canta tão alto que o oiçam as pedras brutas e os robres duros desta selva materialista a que os utilitários nos reduziram?

Se excetuarmos o débil clamor da imprensa liberal já meio esganada da polícia, não se ouve no vasto silêncio deste ermo senão a voz dos barões gritando contos de réis.

Dez contos de réis por um eleitor!

Mais duzentos contos pelo tabaco!

Três mil contos para a conversão de um anfiguri!

Cinco mil contos para as estradas dos aeronautas!

Seis mil contos para isto, dez mil contos para aquilo!

Não tardam a contar por centenas de milhares.

Contar a eles não lhes custa nada.

A quem custa é a quem paga para todos esses balões de papel — a terra e a indústria

Este capítulo deve ser considerado como introdução ao capítulo seguinte, em que entra em cena Frei Dinis, o guardião de S. Francisco de Santarém.

Já me disseram que eu tinha o gênio frade, que não podia fazer conto, drama. romance sem lhe meter o meu fradinho.

O Camões tem um frade: Frei José Índio;

A Dona Branca três, Frei Soeiro, Frei Lopo e S. Frei Gil — faz quatro.

A Adosinda tem um ermitão, espécie de frade — cinco;

Gil Vicente tem outro — isto é, verdadeiramente não tem senão meio frade, que é André de Resende, de mais a mais, pessoa muda — cinco e meio;

O Alfageme três quartos de frade, Froilão Dias, chibato da Ordem de Malta — seis frades e um quarto;

Em Frei Luís de Souza, tudo são frades; vale bem nesta computação, os seus três, quatro, meia dúzia de frades — são já doze e quarto;

Alguns, não eu, querem meter nesta conta o Arco de Santana, em que há bem dois fardes e um leigo;

E aqui tenho eu às costas nada menos que quinze frades e quarto.

Com este Frei Dinis é um convento inteiro.

Pois senhores, não sei que lhes faça; a culpa não é minha. Desde mil cento e tantos que começou Portugal, até mil oitocentos trinta e tantos que uns dizem que ele se restaurou, outros que o levou a breca, não sei o que se passasse ou pudesse passar nesta terra, coisa alguma pública ou particular, em que o frade não entrasse.

Para evitar isto, não há senão usar da receita que vem formulada no capítulo 5 desta obra.

Faça-o quem gostar; eu não, que não quero nem sei.

XIV
Emendado enfim de suas distrações e divagações, prossegue o A. diretamente com a história prometida. — De como Frei Dinis deu a manga a beijar à avó e à neta, e do mais que entre eles se passou. — Ralha o frade com a velha, e começa a descobrir-se onde a história vai ter.

Este capítulo não tem divagações, nem reflexões, nem considerações de nenhuma espécie, vai direto e sem se distrair, pela sua história adiante.

Frei Dinis chegava ao pé das duas mulheres, e disse:

— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Joana adiantou-se alguns passos a beijar-lhe a manga. Ele acrescentou:

— A benção de Deus te cubra, filha, e a de nosso padre S. Francisco!

— Benedicite, padre guardião! — disse a velha inclinando-se, meia levantada da cadeira.

Em nome do Senhor! amém — respondeu o frade aproximando-se, e chegando o braço ao alcance de lho ela beijar; — Ora aqui estou, minha irmã; que me quer? E como vai isto por cá? Vamo-nos confortando, tendo paciência, e sofrendo com os olhos no Senhor.

— Já os não tenho senão para ele, padre.

— Ah, ah! irmão Francisca, sempre esse pensamento, sempre essa queixa! Tenho-a repreendido tanta vez e não se emenda.

— Eu não me queixei, meu padre. Deus sabe que não me queixo... ao menos não por mim.

— Pois por quem?

— Ó padre!

— Irmã Francisca, tenho medo de a entender. Eu não conheço as afeições da carne nem lido com os fracos pensamentos do mundo. Sou frade, minha irmã, sou um que já não é do número dos vivos, que vesti esta mortalha para não ser deles, que a vesti num tempo em que a mofa e o desprezo são o único patrimônio do frade, em que o escárnio, a derrisão, o insulto — o pior e o mais cruel de todos os martírios — são a nossa púnica esperança. Eu quis ser frade, fiz-me frade no meio e tudo isto; já velho e experimentado no mundo, farto de o conhecer, e certo do que me espera — a mim e à profissão que abracei. Que quer de um homem que assim se resolveu a cortar por quanto prende a humanidade a esta miserável vida da terra, para não viver senão das esperanças da outra? Eu vesti este hábito para isto. O seu irmão, o seu para que o vestiu? É um divertimento, é um capricho, é uma comédia com Deus? Rasgue-o depressa, vista-se das galas do mundo, não aperte com a paciência divina, trajando por fora o saco da penitência e trazendo o coração por entro desapertado de todo o cilício e mortificação.

A velha com as mãos postas, a face alevantada e os apagados olhos para o céu, oferecia a Deus todo o amargor daquela austeridade que não cuidava merecer nem lhe parecia entender. Joaninha, que insensivelmente se fora aproximando da avó e a tinha como amparada por trás com um dos seus braços, firmava a outra mão nas costas da cadeira e cravava fita no frade a vista penetrante e cheia de luz. A expressão do seu rosto era indefinível: irisava-lho, distinta mas promiscuamente, um misto inextricável de entusiasmo e desanimação, de fé e de incredulidade, de simpatia e aversão.

Dissera que naqueles olhos verdes e naquele rosto mal corado estava o tipo e o símbolo das vacilações do século.

— Padre! — tornou a velha com sincera humildade na voz e no gesto: — se o mereci, castigai-me. Deus, que me vê e me ouve, bem sabe que o digo em toda a verdade do meu coração, e há de perdoar-me porque sou fraca e mulher.

— Pois aos fracos não é que Ele disse: Toma a tu cruz e segue-me? Quem a obrigou a fazer os votos que fez?

— É verdade, padre, é verdade: bem sei o que prometi, que me voltei a Deus de alma e corpo, que me não pertenço, que nem das minhas afeições posso dispor, mas...

— Mas o quê? Irmã Francisca, a Deus não se engana. Os seus votos não foram feitos num mosteiro, nem proferidos num altar no meio das solenidades da igreja, mas já lho tenho dito, no foro da consciência, na presença de Deus, ligam-na tanto ou mais do se o fossem . Abjure-os se quiser; nenhuma lei, nenhuma força humana a constrange. Diga-mo por uma vez, desengane-me, e eu não torno aqui.

— Oh, por compaixão, padre! pelas chagas de Cristo! Mas um pergunta só, uma só, e eu prometo não pensar, não falar mais em... Onde está ele?

— Joana, retire-se.

Joaninha apertou a avó com ambos os braços; e sem dizer uma palavra, sem fazer um só gesto, lentamente e silenciosamente se retirou para dentro de casa.

—E esta, padre? — disse a velha, sem esperar a resposta à primeira pergunta que com tanta ânsia fizera — e esta, também dela me hei de separar, também hei de renunciar a ela?

— Esta é uma inocente, e enquanto o for...

— Enquanto o for! A minha Joana é um anjo.

— Blasfêmia, blasfêmia! E o Senhor a não castigue por ela. Joana é boa e temente a Deus: esperemos que ele a conserve da sua mão. O outro...

— Que é feito dele, padre? Oh, diga-mo, e eu prometo...

— Não prometa senão o que pode cumprir. Seu neto está com esses desgraçados que vieram das ilhas, é dos que desembarcaram no Porto.

— Ó filho da minha alma! que não torno a abraçar-te...

— Não decerto; vencedores ou vencidos, toda a comunhão, toda a possibilidade de união acabou entre nós e estes homens. Nós temos obrigação de os destruir, eles o seu único desejo é exterminar-nos.

— Meu Deus! meu Deus! pois a isto somos chegados? Pois já não há misericórdia no céu nem na terra!

— A misericórdia de Deus cansou-se; a da terra não sei onde está nem onde esteve nunca. Os fracos dão sacrilegamente este nome à sua relaxação.

— Pois é relaxação desejar a paz, querer a união, suplicar a indulgência? Não nos manda Deus perdoar todas as nossa dívidas, amar os nossos inimigos?

— Os nossos sim, os d’Ele não.

— Tende compaixão de mim, Senhor!

— Se as suas aflições são as da carne e do sangue, se são pensamentos da terra, como desgraçadamente vejo que são, mulher fraca e de pouco ânimo, console-se, que para mim é claro e seguro que estes homens hão de vencer.

— Quais homens?

— Esses inimigos do altar e da verdade, esses homens desvairados pelas especiosas doutrinas do século. Esperam muito, prometem muito, estão em todo o vigor das suas ilusões. E nós, nós carregamos com o desengano de muitos séculos, com os pecados de trinta gerações que passaram, e com a inaudita corrupção do presente... nós havemos de sucumbir. Os templos hão de ser destruídos, os seus ministros proscritos, o nome de Deus blasfemado à vontade nesta terra maldita.

— Pois tão perdidos, tão abandonados da mão de Deus são eles todos... todos?

— Todos. E que cuida, irmã? que são melhores os nossos, esses que se dizem nossos? que há mais fé na sua crença, mais verdade na sua religião? Ó santo Deus!

— Faz-me tremer, padre!

— E para tremer é. A impiedade e a cobiça entraram em todos os corações. Duvidar é o único princípio, enriquecer o único objeto de toda essa gente. Liberais e realistas, nenhum tem fé: os liberais ainda têm esperança; não lhe há de durar muito. Deixem-nos vencer e verão.

— E hão de vencer eles?

— Decerto.

— Ninguém mais diz isso.

— Digo-o eu.

— Tantos mil soldados que o governo tem por si!

— E tantos milhões de pecados contra. Não pode ser, não pode ser: a misericórdia divina está exausta, e o dia desejado dos ímpios vai chegar. A sua missão é fácil e pronta; não sabem, não podem senão destruir. Edificar não é para eles, não têm com quê, não crêem em nada. O símbolo cristão não é s[ó uma verdade religiosa, é um princípio eterno e universal. Fé, esperança e caridade. Sem crer, sem esperar...

—E sem amar!

— Mulher, mulher! o amor é a última virtude...

— Mas por ela, por ela se chega às outras.

— Não, mulher fraca, não. E de uma vez para sempre, irmã Francisca, desenganemo-nos. Entre mim, entre o Deus que eu sirvo, não há uma transação com os seus inimigos. Indulgência nesse ponto não sei o que é. Vejo a sorte que me espera neste mundo, e não tremo diante dela. Quem teme, siga outro caminho; eu nunca.

— Padre, eu não temo nem receio por mim. Sou fraca e mulher, e em toda a tribulação e desgraça hei de glorificar o meu Deus e dar testemunho da minha fé. Mas... mas o meu neto é o meu sangue, a minha vida, é o filho querido da minha única e tão amada filha, ele não conheceu outra mãe, senão a mim, quero-lhe por ele e por ela. Abandoná-lo não posso, tirar dele o pensamento não sei. A vontade de Deus...

— A vontade de Deus é que o justo se aparte do ímpio, é que os cordeiros da benção vão para um lado, e o cabritos da maldição para outro. Esse rapaz... oh! minha irmã, eu não sou de pedra, não, não sou, e também o coração me parte de o dizer... mas esse rapaz é maldito, e entre nós e ele está o abismo de todo o inferno.

— Misericórdia, meu Deus!

Pálido, enfiado, mais descorado e mais amarelo do que era sempre aquele rosto, Frei Dinis pronunciou, tremendo mas com força, as suas últimas e terríveis palavras. Os olhos habitualmente sumidos e cavos, recuaram-lhe ainda mais para dentro das órbitas descarnadas; o bordão tremia-lhe na esquerda; e a direita, suspensa no ar, parecia intimar ao culpado a terrível imprecação que lhe saía dos lábios.

— Maldito! maldito sejas tu! — prosseguiu o frade — filho ingrato, coração derrancado e perverso!

— Meu Deus, não o escuteis! — bradou a velha caindo de joelhos no chão e prostrando-se na terra dura. — Meu Deus, não confirmais aquelas palavras tremendas. Não o ouçais, Senhor, e valha o sangue precioso de vosso filho, as dores benditas de sua mãe, ó meu Deus! para arredar da cabeça do meu pobre filho as cruéis palavras deste homem sem piedade, sem amor...

A velha queria dizer mais; as angústias que se tinham estado juntando naquela alma, que por fim não podia mais e transbordava, queriam sair todas, queriam derramar-se ali em lágrimas e soluços nas presenças do seu Deus que ela via sempre no trono das misericórdias, que não podia acabar consigo que visse o inflexível, o terrível Deus das vinganças que lhe anunciava o frade. Mas a carne não pode com o espírito, as forças do corpo cederam: tomou-a um mortal delíquio, emudeceu, e ... suspendeu-se-lhe a vida.

Frei Dinis contemplou-a alguns momentos nesse estado e pareceu comover-se; mas aqueles nervos eram de fios de ferro temperado que não vibrava a nenhuma suave percussão: deu dous passos para a porta da casa, bateu com o bordão e disse com voz firme e segura:

— Joana, acuda a sua avó que não está boa.

Daí tornou por onde viera, e, sem voltar uma vez a cabeça, caminhou apressado; breve se escondeu para lá das oliveiras da estrada.

XV
Retrato de um frade franciscano que não foi para o depósito da Terra Santa, nem consta que esteja na Academia das Belas Artes. — Vê-se que a lógica de Frei Dinis se não parecia nada coma de Condilac. — Suas opiniões sobre o liberalismo e os liberais. — Que o poder vem de Deus, mas como e para quê. — Que os liberais não entendem o que é liberdade e igualdade; e o para que eram os frades, se fossem.— Prova-se, pelo texto, que o homem não vive só de pão, e pergunta-se o de que vivia então Frei Dinis.

Quem era Frei Dinis?

Disse-o ele: — um homem que se fizera frade, já velho e cansado do mundo, que vestira o hábito num tempo em que a mofa, o escárnio e o desprezo seguiam aquela profissão; que o sabia, que o conhecia e por isso mesmo o afrontara.

Destes raros e fortes caracteres aparece sempre na agonia das grandes instituições para que nenhuma pereça sem protesto, para que de nenhum pensamento durável e consagrado pelo0 tempo se possa dizer que lhe faltou quem o honrasse na hora derradeira por uma devoção nobre, gloriosa e digna do alto espírito do homem: — que o homem é uma grande e sublime criatura por mais que digam filósofos.

Tal era frei Dinis, homem de princípios austeros, de crenças rígidas, e de uma lógica inflexível e teimosa: lógica porém que rejeitava toda a análise, e que, forte nas grandes verdades intelectuais e morais em que fixara o seu espírito, descia delas com o tremendo peso de uma síntese aspérrima e opressora que esmagava todo o argumento, destruía todo o raciocínio que se lhe punha diante.

Condilac chamou à síntese método de trevas: Frei Dinis ria-se de Condilac... e eu parece-me que tenho vontade de fazer o mesmo.

O despotismo, detestava-o como nenhum liberal é capaz de o aborrecer; mas as teorias filosóficas dos liberais, escarnecia-as como absurdas, rejeitava-as como perversoras de toda a idéia sã, de todo o sentimento justo, de toda a bondade praticável. Para o homem em qualquer estado, para a sociedade em qualquer forma não havia mais leis que as do Decálogo, nem se precisavam mais constituições que o Evangelho: dizia ele. Reforça-las é supérfluo, melhorá-las impossível, desviar delas monstruoso. Desde o mais alto da perfeição evangélica, que é o estado monástico, há regras para todos ali; e não falta senão observá-las.

Não sei se esta doutrina não tem o que quer que seja de um sabor independente e livre, se não cheira o seu tanto à confiança herética dos reformistas evangélicos. O que sei é que Frei Dinis a professava de boa fé, que era católico sincero , e frade no coração.

Segundo os seus princípios, poder de homem sobre homem era usurpação sempre e de qualquer modo que fosse constituído. Todo poder estava em Deus — que o delegava ao pai sobre o filho, daí ao chefe da família sobre a família, daí a um desses sobre todo o Estado, mas para reger segundo o Evangelho e em toda a austeridade republicana dos primitivos princípios cristãos.

Assim fora ungido Saul, e nele todos os reis da terra — sem o que não eram reis.

Tudo o mais, anarquia, usurpação, tirania, pecado, — absurdo insustentável e impossível.

E sobre isto também não disputava, que não concebia como: era dogma.

Nas aplicações, sim, questionava ou, antes, argüía com sua lógica de ferro. As antigas leis, os antigos usos, os antigos homens, não os poupava mais do que aos novos. A tirania dos reis, a cobiça e a soberba dos grandes, a corrupção e a ignorância dos sacerdotes, nunca houve tribuno popular que as açoitasse mais sem dó nem caridade.

O princípio porém da monarquia antiga, defendia-o, já se vê, por verdadeira, embora fossem mentirosos e hipócritas os que o invocavam.

Quanto às doutrinas constitucionais, não as entendia, e protestava que os seus mais zelosos apóstolos as não entediam tampouco: não tinham senso comum, eram abstrações de escola.

Agora, do frade é que me eu queria rir... mas não sei como.

O chamado liberalismo, esse entendia ele: “Reduz-se, dizia, a duas coisas, duvidar e destruir por princípio, adquirir e enriquecer por fim; é uma seita toda material em que a carne domina e o espírito serve; tem muita força para o mal; bem verdadeiro, real e perdurável, não o pode fazer. Curar com uma revolução liberal um país estragado, como são todos os da Europa, é sangrar um tísico: a falta de sangue diminui as ânsias do pulmão por algum tempo, mas as forças vão-se e a morte é a mais certa.”

Dos grandes princípios da Igualdade e da Liberdade dizia: “Em eles os praticando deveras, os liberais, faço-me eu liberal também. Mas não há perigo: se os não entendem! Para entender a liberdade é preciso crer em Deus, para acreditar na igualdade é preciso ter o Evangelho no coração.”

As instituições monásticas eram, no seu entender e no seu sistema, condição essencial de existência para a sociedade civil — para uma sociedade normal. Não paliava os abusos dos conventos, não cobria os defeitos dos monges, acusava mais severamente que ninguém a sua relaxação; mas sustentava que, removido aquele tipo da perfeição evangélica, toda a vida cristã ficava sem norma, toda a harmonia se destruía, e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remédio, precipitar-se no golfão do materialismo estúpido e brutal em que todos os vínculos sociais apodreciam e caíam e em que mais e mais se isolava e estreitava o individualismo egoísta — última fase da civilização exagerada que vai tocar no outro extremo da vida selvagem.

Tais eram os princípios deste homem extraordinário, que juntava a uma erudição imensa o profundo conhecimento dos homens e do mundo em que tinha vivido até a idade de cinqüenta anos.

Como e por que deixara ele o mundo? Como e por que um espírito tão ativo e superior se ocupava apenas do obscuro encargo de guardião do seu convento — cargo que aceitara por obediência — e quase que limitava as suas relações fora do claustro àquela casa do vale onde não havia senão aquela velha e aquela criança?

Apesar de sua rigidez ascética, prendia esse espírito por alguma coisa a este mundo? Aquele coração macerado do cilício dos pensamentos austeros e terríveis do eterno futuro, consumindo na abstinência de todo o gozo, de todo o desejo no presente, teria acaso viva ainda bastante alguma fibra que vibrasse com recordações, com saudades, com remorsos do passado?

No seu convento ele não tinha senão uma cela nua com um crucifixo por todo adorno, um breviário por único livro. Naquela só família que conversava, havia, já o disse, a velha cega e decrépita, Joaninha com quem apenas falava, e um ausente, um rapaz que quem há dous anos quase que se não sabia. Em intrigas políticas, em negócios eclesiásticos, em coisa mais nenhuma deste mundo não tinha parte. De que vivia pois aquele homem — homem que certo não era daqueles que viviam só e pão?

E este era um dos poucos textos latinos que ele repetia, este o tema predileto dos raros sermões que pregava: Non in solo pane vivit homo. Nem só de pão vive o homem.

Vivia então de alguma outra coisa este homem; e a meditação e a oração não lhe bastavam, porque ele saía do seu convento e não ia pregar nem rezar... todas às sextas feiras era certo na casa do vale à mesma hora, do mesmo modo...

Ali estava pois alguma parte da vida do frade que de todo se não desprendera da terra, e que, por mais que ele diga, lhe faltava castrar ainda por amor do céu.

É que meio século de viver no mundo deixa muita raiz, que não morre assim. E talvez é uma só a raiz, mas funda, e rija de fevra e de selva, que as folhas morrem, os ramos secam, o tronco apodrece, e ela teima a viver.
Saibamos da vida do frade.— Era franciscano por quê?— Dos antigos e dos novos mártires. — Alguns particulares do frei Dinis antes e depois de ser frade. — Emigração. — Explicação incompleta. — De como a velha tinha perdido a vista e Joaninha o riso. — Sexta feira de aziago.

Saibamos alguma coisa da vida do frade, na sua vida no século, porque a do claustro era nua e nula, monótona e singela como a temos visto.

Chamava-se ele no século Dinis de Ataíde, e seguira a carreira das armas primeiro, depois a das letras. Com distinção, e quase com paixão, tomara parte na campanha da Península e a fizera quase toda; mas desgostoso do serviço ou despreocupado da glória militar, entrou na magistratura para que estava habilitado, e em 1825, do lugar de corregedor do Ribatejo, em que já fora reconduzido, devia passar à casa do Porto.

Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou a mão à el-rei, e dai tomou um dia o caminho de Santarém, chegou àquela vila, deixou criados e cavalos na estalagem, e foi tocar à campa da portaria de S. Francisco.

Os criados esperaram em vão muitos dias e ele não voltou.

Desapareceu do mundo Dinis de Ataíde, e dali a dois anos apareceu Frei Dinis da Cruz, o frade mais austero e o pregador mais eloqüente daquele tempo. Raro pregava, e só de doutrina; mas era uma torrente de veemência, uma unção, uma força...

Dos institutos monásticos já então bem decaídos todos de esplendor e reputação, a Ordem de S. Francisco era talvez a que mais descera no conceito público. Quanto mais austera é a regra, tanto mais se nota qualquer relaxação nos que a professam: a dos franciscanos tinha-se feito proverbial e popular. Eles eram tantos por toda a parte, e tão conversantes com todas as classes, familiarizara-se por tal modo o povo com aquelas mortalhas negras — aspecto já não severo, e apenas deixou de o ser... ridículo — e elas apareciam em tais lugares, a tais horas, por tal modo...que todo o respeito, toda a estima, toda a consideração, se lhe perdera. Escritores, já os não tinham, pregadores poucos e sem reputação, era em todo o sentido a religião mais humilhada na geral decadência das Ordens.

Frei Dinis procurou-a por isso mesmo. Queria ser frade, o frade desprezado e apupado do século dezenove.

Em certos ânimos é preciso muito mais valor e entusiasmo para afrontar este martírio, do que fora nos antigos tempos para ir ao encontro das nobres perseguições do sangue e do fogo.

Lutava-se com honra então, cala-se com glória, vencia-se muitas vezes morrendo...

Agora é sofrer só.

O mundo aplaudia aqueles grandes sacrifícios, e assistia com interesse, com admiração, com espanto àqueles combates gigantescos. E o tirano tremia diante de sua vitima... quando não lhe caía aos pés, vencido, convertido e penitente...

Hoje o povo passa e ri, os reis cuidam de outra coisa, e a mesma Igreja não sabe que tem mártires.

— Pois tem-nos — dizia Frei Dinis — e precisa mais deles para a regenerar, do que já precisou para fundar-se.

Eis aqui porque Frei Dinis de Ataíde não quis ser bento, nem jerônimo, nem cartuxo, e se foi meter padre franciscano.

De todos os seus bem, que eram consideráveis, tirou apenas módica soma de dinheiro que era necessária para pagar o dote e piso de sua entrada no convento. Do resto fez doação inteira a D. Francisca Joana — a velha hoje cega e decrépita, que no princípio desta história encontramos dobrando à sua porta na casa do vale.

A velha não tinha mais família que um neto e uma neta.

A neta era Joaninha, filha única de seu único filho varão, e já órfã de pai e de mãe.

O neto, órfão também, nascera póstumo, e custara a vida a sua mãe, filha querida e predileta da velha.

Antes a esplêndida doação de Frei Dinis a família, que era de boa e honrada descendência, podia dizer-se pobre; depois, viviam remediadamente. Mas a velha não quis nunca sair do modesto estado em que até ali vivera. Tinham fartura de pão, azeite e vinho de suas lavras, corria-lhe com elas um criado velho de confiança, trajavam e tratavam-se como gente meã mas independente.

Em tempos mais antigos e em vida dos dois filhos de D. Francisca, Frei Dinis, então Dinis de Ataíde e corregedor da comarca, freqüentara bastante aquela casa. Desde a morte do filho e do genro, que ambos pereceram desastradamente num dia cruzando o Tejo num saveiro em ocasião de grande cheia, ele nunca mais lá tornara.

Até que se meteu frade, e que passaram anos e que o fizeram guardião do seu convento.

Já a nora e a filha da velha tinham morrido também.

E foi notável que na mesma hora em que Frei Dinis professava em S. Francisco de Santarém, vestia D. Francisca aquela túnica roxa que nunca mais largou.

Mas um dia, chegou Frei Dinis à porta da casa do vale e disse:

— Deus seja nesta casa!

A velha estremeceu, mas tornou logo a si, fez sair as crianças que brincavam ao pé dela, fechou-se com o frade, e falaram baixo um dia inteiro. Rezaram e choraram, que tudo se ouviu, mas o que disseram e conversaram nunca se soube.

O frade foi-se ao anoitecer, a velha ficou rezando e chorando, e rezou e chorou toda a noite.

Isto fora numa sexta-feira; daí por diante em todas as sextas-feiras de cada semana, Frei Dinis vinha passar algumas horas com a velha.

Não era seu confessor, mas dirigia-se como se o fosse, em tudo e por tudo, menos no que respeitava a Joaninha.

Havia no frade uma afetação visível, um sistema premeditado e inalterável de se abster completamente de tudo o que pudesse intervir, por mais remotamente que fosse, com aquela interessante criança.

Joaninha não lhe tinha medo, mas o respeito que lhe ele inspirava era misturado de uma aversão instintiva que, por contradição inaudita e inexplicável, a deixava simpatizar com tudo quanto ele dizia e professava: doutrinas, opiniões, sentimentos, tudo lhe agradava no frade, menos a pessoa.

Não assim Carlos, o primo, o companheiro, o único amigo do nossa Joaninha, o outro neto da velha por sua filha. Andava ele já no último ano de Coimbra e ia formar-se em leis, quando Frei Dinis da Cruz começou de novo a freqüentar a casa que Dinis de Ataíde tinha abandonado.

Sobre esse a inspeção do frade era minuciosa, vigilante, inquieta. Os livros que ele lia, os amigos com quem vivia, as idéias que abraçava, as inclinações para que pendia — de tudo se ocupava Frei Dinis, tudo lhe dava cuidado. A ele diretamente pouco lhe dizia, mas com a avó tinha longas conferências a esse respeito.

Ultimamente parecia satisfazer-se com o jeito que o mancebo indicava tomar.

— É temente a Deus, não tem o ânimo cobiçoso e servil, não é hipócrita, a mania do liberalismo não o mordeu ainda... há de ser um homem de préstimo — dizia o frade a D. Francisca com verdadeira satisfação e interesse.

Passara porém do seu meio o memorável ano de 1830, e Carlos, que se formara no princípio daquele verão, tinha ficado por Coimbra e Lisboa, e só por fins de agosto voltara para a sua família. E veio triste, melancólico, pensativo, inteiramente outro do que sempre fora, porque era de gênio alegre e naturalmente amigo de folgar o mancebo.

O dia em que ele chegou era uma sexta feira, dia de Frei Dinis vir ao vale.

Passaram as primeiras saudações e abraços, ficaram sós os dois.

— Não gosto de te ver — disse o frade.

— Pois quê? que tenho eu?

— Tens que vens outro do que foste, Carlos.

— Outro venho, é verdade; mas não se enfadem de me ver, que o enfado há de durar pouco.

— Que queres tu dizer?

— Que estou resolvido a emigrar.

— A emigrar, tu!... Por que? para quê? Que loucura é essa?

— Nunca estive tanto em meu juízo.

— Carlos, Carlos! nem mais uma palavra a semelhante respeito. Em que más companhias andaste tu, que maus livros leste, tu que eras um rapaz?... Carlos, proíbo-te de pensar nestes desvarios.

— Proíbe-me ... a mim... de pensar!... Ora, senhor...

— Proíbo-te de pensar, sim. Lê no seu Horácio se estás cansado das pandectas . Vai para a eira com o teu Vírgilio... ou passeia, caça, monta a cavalo, faze o que quiseres, mas não penses. Cá estou eu para pensar por ti.

—Por quê? eu hei de ser sempre criança? A minha vida há de ser esta? Horácio! Tenho bom ânimo para ler Horácio agora... e é bela ocupação para um homem de vinte e um anos, escandar jambos e troqueus!

— Pois lê na tua Bíblia, que é poesia medida na alma e que renasce o espírito e o coração..

— Eu não quero ser frade, sabe?

— Nem te quero para frade.

— Graças a Deus. Cuidei que... Mas enfim no século em que estamos...

— O século em que estamos é o da presunção e o da imoralidade, e eu quero-te livrar de uma e de outra, Carlos. Tua avó sabe das minhas intenções a teu respeito. aprova-as.

— Minha avó... aprova muita coisa que eu reprovo.

— Como assim, Carlos? Que queres tu dizer?

— Isto esmo, Senhor, e que amanhã vou para Lisboa, embarcar para Inglaterra.

— Carlos!

— É uma resolução meditada e inalterável. Não quero nada com esta terra nem com esta...

— Com esta o quê, Carlos?

— Pois quer ouvi-lo, digo-lho: com esta casa.

O frade sufocava, e balbuciou entre colérico e irritado:

— Dir-me-ás por quê

— Porque me aborrece e me humilha este mando de um estranho aqui... porque sempre desconfiei, porque sei enfim...

— Sabes o quê?

— Sei padre Frei Dinis, ,as não me pergunte o que eu sei.

Amarelo, roxo, pálido, negro, o frade tremia; sumiram-se-lhe mais os olhos e faiscavam lá de dentro como duas brasas, fez um esforço sobre si para falar e disse com uma voz cavernosa como de sepulcro:

— Pois pergunto, sim; e permita Deus!...

— Padre, não jure nem pragueje — interrompeu Carlos com firmeza e serenidade — as suas intenções serão boas talvez, creio que são boas, filhas de um remorso salutar...

— Que dizes tu, Carlos... que disseste?... Ó meu Deus!

As cenas tinham mudado: Frei Dinis parecia o pupilo, a sua voz tinha o tom da súplica, já não tremia de ira, mas de ansiedade; Carlos, pelo contrário, falava no tom austero e grave de um homem que está forte na sua razão e que é generoso com a sua ofensa. As palavras do mancebo eram agras, via-se que ele o sentia e que procurava adoça-las na inflexão, que lhes dava.

— O que eu digo, Padre Frei Dinis, o que eu sou obrigado a dizer-lhe é isto. Minha avó consentiu, por fraqueza de mulher, no que eu não posso nem devo consentir. O que há nesta casa não é... não é meu; o pão que aqui se come... é comprado por um preço... Padre! já vê que não podemos mais falar neste assunto. Eu parto amanhã para Lisboa. Minha avó! — acrescentou Carlos, mudando de voz e chamando para dentro — minha avó!

A velha acudiu, ele disse-lhe sua tenção, motivou-a em opiniões políticas, declamou contra D. Miguel, mostrou-se entusiasta da causa liberal, e protestou que, naquele ano, de tal modo se tinha pronunciado em Coimbra e ainda em Lisboa que só uma pronta fuga o podia salvar.

A velha chorou, pediu, rogou... inutilmente, em vão.

Frei Dinis assistiu a tudo isto sem dizer palavra.

E aquela tarde voltou cedo para o convento.

No outro dia de manhã muito cedo, abraçado com a avó e com a priminha que se desfaziam em lágrimas, Carlos dizia o último adeus àquela querida casa, àquele amado vale em que fora criado... nessa noite estava em Lisboa, daí a poucos dias em Inglaterra, e daí a alguns meses na ilha Terceira.

Na sexta feira depois da partida de Carlos, Frei Dinis veio ao vale teve larga conferência com a avó.

Os três dias seguintes a velha levou fechada no seu quarto a chorar... no fim do terceiro dia estava cega.

Joaninha era uma criança a esse tempo, parecia não entender nada do que se passava. Mas quem a observasse com atenção veria que ela dobrou de carinho e de amo com a avó, e que se não tornou a rir para o frade.

Ele, o frade, envelheceu de dez anos naquele dia. Os olhos sumidos, que era a feição dominante daquele rosto ascético, sumiram-se mais e mais, a estatura alta e ereta curvou-se-lhe; o tremor nervoso, que o tomava por acessos, tornou-se-lhe habitual, os tendões enrijaram-lhe, os músculos da cara descarnaram-se, e a pele, já sulcada de fundos cuidados, arrugou-se e franziu-se toda em rugas cruzadas e confusas como que se lha tornassem uma grelha.

Nunca mais houve um dia de alegria no vale. A sexta-feira porém era o dia fatal e aziago. Frei Dinis já não vinha senão no fim da tarde e demorava-se pouco; mas tanto bastava. Suspirava-se por aquela hora e tremia-se dela. As notícias que consolavam, e os terrores que matavam o frade é que os trazia. O resto da semana levava-se a chorar e a esperar.

E assim se tinham passados dois anos até a sexta feira em que primeiro vimos juntos à porta da casa aquelas três criaturas, assim se passou até daí a oito dias que a nossa história volta a encontrá-los.

XVII
DE como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a neta à espera do frade, este lhe apareceu contra o seu costume, da banda de Lisboa. — Por que razão muitas vezes a mais animada conversação é a que mais facilmente para e quebra de repente. — Nova demonstração de dois grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito não faz o monge; e que ralhando as comadres se descobrem as verdades. — No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma ponta do véu que cobre os mistérios da nossa história.

Passaram-se aqueles oito dias no vale, não já como se tinham passado tantas outras semanas em vagas de tristeza, em desconsolação e desconforto, mas em positiva ansiedade e aguda aflição pela certeza que trouxera o frade de se achar Carlos no Porto fazendo parte do pequeno exército de D. Pedro.

Incertos rumores, daqueles que percorrem um país em tempos semelhantes e que aumentam e exageram, confundem todo o sucesso, tinham chegado até as pacíficas solidões do vale com as notícias de combates sanguinários, de comoções violentas, de desacatos sacrílegos, de vinganças e represálias atrozes tomadas pelos agressores, retribuídas pelos que se defendiam.

Chegou a sexta-feira; e as horas desse dia, sempre desejado e sempre temido, foram contadas minuto a minuto — o qual mais longo, o qual mais pesado e lento de volver, quanto mais se aproximava o derradeiro.

O sol declinava já... e Frei Dinis sem aparecer!

No seu poiso ordinário ao pé da porta da casa, Joaninha com os olhos estendidos, a velha com os ouvidos alerta, devoravam o espaço na direção do nascente, esperando a cada momento, temendo a cada instante ver aparecer o conhecido vulto, ouvir o som familiar dos passos do frade.

E tão atentas, tão absortas estavam ainda neste cuidado, que não deram fé dum religioso que pelo lado oposto, isto é, da banda de Lisboa para ali se encaminhava a passos arrastados mas pressurosos.

Chegou rente a elas sem o sentirem; e uma voz conhecida, porém mais cava e funda do que nunca a ouviram, pronunciou a fórmula de saudação costumada:

— Deus seja nesta casa!

— Amém! — responderam ambas maquinalmente, com um estremeção involuntário, e voltando de repente a cara para o lado donde vinha a voz.

— Jesus! — disse depois a velha tornando a si, — Padre Frei Dinis, de onde vem tão tarde?

— Chego de Lisboa.

— De Lisboa? Deus lho pague!... Foi saber?...

— Fui, fui saber novas desta horrível guerra, desta tremenda visitação do Senhor à condenada terra de Portugal...

—E então, diga...

— Boas novas, boas novas trago!

— Sente-se, padre, sente-se. Joaninha chegue uma cadeira: descanse

— Não é tempo de descansar este, mas de vigiar e de orar.

— Pois que sucedeu, Padre? Não me tenha nessa horrível suspensão. Diga: onde está ele? Alguma desgraça grande lhe aconteceu, ó meu Deus!...

— E que me importa a mim o que aconteceu ou podia acontecer a mais um de tantos perdidos? Encherá a sua medida, irá após dos outros... caminha nas trevas com eles, e como eles só há de parar no abismo.

A estas derradeiras palavras do frade asperamente pronunciadas e em tom de indiferença e desprezo, seguiu-se aquele silêncio comprimido, aquela pausa de toda a conversação grave e íntima em que os pensamentos são tantos que se atropelam e não acham saída na voz.

Frei Dinis mentia....na dureza daquelas expressões mentia ao seu coração — não mentia ao seu espírito. Como o cáustico se aplica à epiderme para deslocar a inflamação interior, ele roçava o peito com as asperidões de sua doutrina e de seus princípios rígidos para amortecer dentro a viva dor d’alma que o consumia.

O frade estava por fora, o homem por dentro.

O observador vulgar não via senão o burel e a corda que amortalhavam o cadáver. O que atentasse bem naqueles olhos, o que reparasse bem nas inflexões daquela voz, diria: “Frade, tu mentes; mentes sem saberes que mentes: és sincero na tua fé, na tua austeridade, na tua abnegação: mas o teu sacrifício é como o de Abraão na montanha, e Deus sabe que tu não tens força para o cumprir.”

Não o percebeu assim a pobre velha, a quem os rigores de Frei Dinis faziam tremer, e que para toda a afeição, para todo o sentimento humano julgava morto o coração do cenobita.

Ela que no silêncio das suas noites sempre veladas, na perpétua escuridão de seus dias sempre triste lutava há tanto tempo, lutava debalde para desprender das afeições do mundo aquele seu pobre coração, que queria imolar ao Senhor, ela via com santa inveja e admiração as sobre-humanas forças que imaginava no frade; e desanimada de o poder seguir nessas alturas da perfeição evangélica, recaía, mais desalentada e mais miserável que nunca, em toda sua fraqueza de mulher e de mãe.

Oh! não sabe o que é tormento, o que é inferno neste mundo, o que não sofreu destas angústias!

Mas permite Deus que as padeça quem não tem grandes culpas, grandes e irreparáveis erros que expiar neste mundo?

Eu creio firmemente que não.

Cansada e exausta já de tão porfiada luta, a velha perdeu de todo a razão com as derradeiras palavras do frade, e num paroxismo de choro exclamou:

— Dinis!... Frei Dinis, por aquele penhor sagrado que eu tenho em meu poder, por aquela preciosa cruz sobre a qual se derramaram as últimas lágrimas da minha desgraçada filha, Dinis!...

— Silêncio! — bradou o frade, arrancando um brado de dentro do peito que fez gemer os ecos todos do vale: — Silêncio, mulher! Não conjure o demônio que eu trago encarcerado neste seio, que à força de penitência mal pude domar ainda... que só a morte poderá talvez expelir. Mulher, mulher! este cadáver que já morreu, que já apodreceu em tudo o mais, que já o comem sem ele sentir, os bichos todos da destruição... este cadáver tem um único ponto vivo no coração... e o dedo do teu egoísmo aí foi tocar, ó mulher!... Pecado que estás sempre contra mim! Justiça eterna de Deus, quando serás satisfeita?

Rompera na maior violência a voz do frade, mas descaiu num tom baixo e medonho ao fazer esta última imprecação misteriosa. As derradeiras sílabas quase lhe morreram nos beiços convulsos, e ao balbuciá-las deixou-se cair, exausto e como quem mais não podia, na cadeira que Joaninha lhe chegara.

A velha, aterrada e confusa, tremia do que fizera, como diante do espírito imundo que seus malefícios evocaram, treme a maga assustada do seu próprio poder.

Passaram alguns segundos que nenhumas palavras podem descrever.

O frade levantou o rosto, olhou para ela, olhou para Joaninha... e como quem emerge, por grande esforço, de um peso enorme de águas que o submergiam, sacudiu a cabeça, sorveu um longo trago de ar, e disse na sua voz ordinária, só mais débil.

— Carlos, Senhora... minha irmã, Carlos está vivo; e eis aqui, vinda pelo cônsul de França, uma carta dele.

Tirou uma carta da manga e entregou a Joaninha.

XVIII
Descobre-se que há grandes e espantosos segredos entre o frade e a velha. — Piedosa fraude de Joaninha. — Luta ente o hábito e o monge.

O frade entregou a carta a Joaninha, que, lançando os olhos ao sobrescrito, ficou inquieta e indecisa como quem receia e deseja e teme de saber alguma coisa. Ele com voz trêmula e sobressaltada acrescentou:

— Adeus, que são horas!... Leiam, e sexta feira que vem... me dirão...

Pois quê — disse timidamente a velha — não quer ouvir o que ele nos escreve?

— Sexta feira que vem — continuou Frei Dinis, sem ouvir ou sem entender a pergunta; — sexta feira que vem eu tomarei conta da resposta, e lha farei chegar pela mesma via... Só uma coisa! Nem palavra a meu respeito: eu para Carlos... morri.

— Dinis! — exclamou a velha fora de si —Dinis!...

O frade tornou de repente ao seu tom austero, e respondendo gravemente: — O quê, minha irmã?

— Era — disse ela tímida e submissa outra vez — era se, era que... Pois não há de ouvir ler a carta dele?

Frei Dinis não respondeu, mas ficou sentado: descaiu-lhe a cabeça sobre o peito, e abraçando-se com o bordão, não deu mais sinal de si.

A velha escutou em silêncio alguns segundos, e com aquele ouvido agudíssimo — penetrante vista dos cegos — percebeu sem dúvida o que se passava, e com mais conforto e serenidade na voz disse:

— Abra, Joana, lê, minha filha.

Joaninha abriu a carta, e percorreu com avidez as poucas linhas que ela encerrava.

— Não lês? — acudiu a avó com impaciência : — Lê, lê alto, Joaninha.

— É para mim só a carta — disse ela friamente,

— Para ti só, como? — tornou a outra.

— É para mim só esta carta... não diz nada que...

— Não diz nada! — replicou a avó. — Pois!... Lê, lê alto: seja como for, lê, e oiçamos.

Joaninha parecia hesitar ainda lançou os olhos ao frade, achou-o na mesma atitude impassível; voltou-se para a avó, viu-a ansiada e ansiosa... leu.

A carta era com efeito para ela só, e carta bem singela não continha senão as ingênuas expressões de um amor fraterno nunca esquecido, longas saudades do passado, poucas esperanças no futuro, quase nenhuma de se tornarem a ver tão cedo. Tudo isto porém era com a prima; para a desconsolada avó, para ninguém mais... nem uma palavra.

Joaninha ia lendo, lendo... e a voz a descair-lhe: no fim ajuntou uns abraços, umas saudosas lembranças, e não sei que frase incompleta e mal articulada em que se pedia a benção da avó.

A velha abanou a cabeça tristemente e disse:

— Ora pois... bendito, seja Deus!

Joaninha corou até o branco dos olhos... Inda bem que a não podia ver a avó! Mas viu-a Frei Dinis, e com a mão trêmula e os olhos arrasados de água lhe fez um mudo e expressivo sinal de aprovação e agradecimento. Joaninha corou outra vez, e logo se fez pálida como a morte; era a primeira vez que mentia ... e Frei Dinis, o austero Frei Dinis, aprová-la!

O frade levantou-se, e sem dizer palavra, tomou o caminho de Santarém.

Ouvia-se ao longe o arquejar de uns soluços sufocados... Seriam dele?

A avó e a neta abraçaram-se chorando.

Nenhuma delas disse palavra sobre a carta: a velha tinha percebido a piedosa fraude de Joaninha.

Oh! que existências que eram aquelas quatro! Esse frade, essa velha, essas duas crianças! E a maior parte da gente que é gente, vive assim... E querem, querem-na assim mesmo, a vida, têm-lhe apego! Oh, que enigma é o homem!

Tornou a passar outra semana, e o frade tornou a vir no prazo costumado, e levou a resposta da carta — resposta que Joaninha só escreveu e só viu — e dirigiu-a em Lisboa pela via segura que indicara.

Soube0-se que fora entregue; mas semanas e semanas decorreram , os meses passaram de ano... e outra carta não veio.

No entretanto a guerra civil progredia; e depois das suas tremendas peripécias, o grande drama da Restauração chegava rapidamente ao fim. Eram meados do ano de 33, a operação de Algarve sucedera milagrosamente aos constitucionais, a esquadra de D. Miguel fora tomada, Lisboa estava em poder deles. Os tardios e inúteis esforços dos realistas para retomar a capital tinham ocupado o resto do verão. Já outubro se descoroava de seus últimos frutos, e as folhas começavam a empalidecer e a cair, quando uma sexta-feira, ao pôr do sol, Frei Dinis aparecia no vale mais curvado e mais trêmulo que nunca. Vinha do exército realista que então cercava Lisboa.

Joaninha não era ali, a velha estava só.

— Que nos traz, padre? — clamou ela mal o sentiu: — Soube dele? Tem escapado a estas desgraças, a esses combates mortais?

— Não sei nada, minha irmã; há três dias que de Lisboa se não pode obter a menor informação. As linhas estão fechadas e guarnecidas como nunca: tudo indica havermos de ter cedo algum combate decisivo.

— Deus seja com...

— Com quem, minha irmã?

— Com quem tiver justiça.

— Nenhum a tem. De um lado e de outro está a ambição e a cobiça, de um lado e de outro a imoralidade, a perdição e o desprezo da palavra de Deus. Por isso, vença quem vencer, nenhum há de triunfar.

— Ai, o meu pobre filho, o meu Carlos!

— Isso, irmã Francisca, isso! Peça a Deus que dê a vitória a seu neto e à impiedade por que ele combate. peça a Deus que vençam os inimigos declarados do seu nome, os destruidores dos seus altares, os profanadores de seus templos... Oh! que dia belo e grande não há de ser esse, quando Carlos... o seu Carlos vier expulsar às baionetas do pobre convento de S. Francisco, o velho guardião — que lhe não há de fugir, minha irmã!... dele menos que nenhum outro... que ajoelhado diante do altar inclinará a cabeça como os antigos mártires para cair na presença do seu Deus às mãos do seu...

— Dinis!... Padre!... Padre Frei Dinis, que horrorosas palavras saem da sua boca!... Meu neto, o meu Carlos não é capaz... ó meu Deus!...

— Seu neto detesta-me... e tem... tem razão.

— Não sabe a verdade ele... Carlos esta enganado, cuida... não sabe senão meia verdade: e eu, eu hei de — custe o que me custar — eu hei de...

— Há de o quê?

— Hei de desenganá-lo, hei de lhe dizer a verdade toda. Hei de prostrar-me na sua presença, hei de humilhar-me diante do filho da minha filha, hei de arrastar na poeira de seus pés estas cãs e estas rugas... morrerei de vergonha e de remorsos diante de meu filho, mas ele há de saber a verdade.

Saiam com tal ímpeto e com tão desacostumada energia estas misteriosas e tremendas palavras da boca da velha, que Frei Dinis não ousou contê-la; ouviu até ao fim, deixou quebrar o ímpeto da torrente, e erguendo então a sua voz austera mas pausada, disse naquele tom friamente decisivo que tanto se impõe aos ânimos apaixonados.

— Se tal fizesse, mulher, a minha maldição, a maldição eterna de Deus cairia sobre sua cabeça para sempre!... Ó mulher, pois não basta que ele me aborreça — não lhe basta que seu neto lhe perdesse o amor... quer... quer também que nos despreze?

A velha gemeu profundamente e, por um jeito de antiga reminiscência, levou as mãos aos olhos como se os tapasse para não ver. Então disse com desconsoladas lágrimas na voz:

— A vontade de Deus seja feita!

XIX
Guerra de postos avançados. Joaninha no bivaque. — De como os rouxinóis do vale se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a retreta. — Quem era a “menina dos rouxinóis” e por que lhe puseram este nome. — A sentinela perdida e achada.

A velha disse aquelas últimas palavras com uma expressão de dor tão resignada mas tão desconsolada, que o frade olhou para ela comovido, e sentiu as lágrimas escurecem-lhe avista.

Nesse momento Joaninha, que passeava a alguma distância da casa na direção de Lisboa, acudiu sobressaltada brandando:

— Avó, avó!... tanta gente que aí vem! soldados e povo... homens e mulheres... tanta gente!

Era a retirada de 11 de outubro.

— Deus tenha compaixão de nós! — disse a velha. — O que será, padre?

— O que há de ser! — respondeu Frei Dinis. — O meu pressentimento que se verifica; o combate foi decisivo, os constitucionais vencem.

Com efeito foram aparecendo as tropas que se retiravam, as gentes que fugiam, e todo aquele confuso e doloroso espetáculo de uma retirada em guerra civil...

Alguns feridos, que não podiam mais, ficavam na casa do vale entregues à piedosa guarda e cuidado de Joaninha; dos outros tomou conta Frei Dinis e os acompanhou a Santarém.

As tropas constitucionais vinham em seguimento dos realistas, e dali a pouco dias tinham seu quartel-general no Cartaxo; D. Miguel fortificava-se em Santarém, e a casa da velha era o último posto militar ocupado pelo seu exército.

Não tardou muito que a força toda, todo o interesse da guerra se não concentrasse naquele, já tão pacífico e ameno, agora tão desolado e turbulento vale.

Eram os derradeiros dias do outono, a natureza parecia tomar dó pelo homem — dar triste e lúgubre de cena ao sangrento drama de destruição e de miséria que ali se ia concluir. As últimas folhas das árvores caíam, o céu nublado e negro vertia sobre a terra apaulada torrentes grossas de água, a cheia alagava os baixios, as terras altas cobriam-se de ervas daninhas maninhas, os trabalhos da lavoura cessavam, o gado e os pastores fugiam, e os soldados de um de outro campo cortavam as oliveiras seculares...

Tudo estava feio e torpe, tudo era ruína, desolação e morte em torno da casa do vale, agora transformada em quartel e reduto militar.

E que era feito, no meio desta desordem, que era feito da nossa pobre velha, da nossa interessante Joaninha?

Apenas se estabeleceu a posição dos dous exércitos, Frei Dinis queria levá-las para Santarém; mas não foi possível. Instâncias, rogos, ordem positiva, tudo foi em vão. Pela primeira vez na sua vida, aquela mulher tímida, fraca e irresoluta, soube ter vontade firme e própria.

— Aqui nasci — dizia ela — aqui vivi, aqui hei de morrer. Que importa como?... Aqui as curtas alegrias, aqui as longas dores da minha vida têm passado: onde hei de eu ir que possa viver ou comer senão aqui? Esta casa sei-a de cor, estas árvores conhecem-me, estes sítios são os últimos que vi, os únicos de que me lembra: como hei de eu, velha e cega, ir fazer conhecimentos com outros para viver neles?...

— E Joaninha nesta idade... no meio dessa soldadesca! — sugeria o frade.

Joaninha — tornava ela — Joaninha é uma criança, e tem mais juízo, mais energia d’alma, mais saúde e mais força do que — mulheres não falemos — do que a maior parte dos homens. Ficaremos aqui, Padre, ficaremos aqui melhor do que em Santarém podemos estar. Deus nos defenderá...

Frei Dinis cedeu: a mesma vaga e indeterminada esperança que animava a velha, e que a prendia tão fortemente ali, não era estranha ao coração do frade. Ela não ousava nem aludir de longe a essa esperança, mas sentia-se que lá a tinha aninhada e escondida a um canto d’alma... Aquele neto, aquele filho da filha querida havia de vir ter à Casa em que nascera... por ali havia de passar, e mais dia menos dia... A velha, repito, nem aludia a tal esperança, mas sentia-se que a tinha: percebeu-lha Frei Dinis, e ou a partilhasse também ou não se atrevesse a contrariar razões que lhe não davam, cedeu e calou-se.

O seu principal temor era a licenciosa soltura dos costumes militares; mas estava Joaninha menos exposta por se acolher a uma praça de guerra como Santarém era agora?

Brevemente se viu que a avó tinha acertado. A franca e ingênua dignidade de Joaninha, o ar grave, a melancolia serena e bondosa da velha impuseram tal respeito aos soldados que — graças também à cooperação eficaz do comandante do posto, um bom e honrado cavalheiro transmontano — elas viviam tão seguras e quietas na pequena porção de casa que para si reservaram, quanto em tais circunstâncias era possível viver. Frei Dinis vinha regularmente ao vale todas as sextas-feiras, e nenhum outro hábito de suas vidas se interrompeu.

E pouco a pouco, os combates, as escaramuças, o som e a vista do fogo, o aspecto do sangue, os ais os feridos, o semblante desfigurado dos mortos — a guerra enfim em todas as suas formas, com todo o seu palpitante interesse, com todos os terrores, com todas as esperanças que a acompanham, se lhes tornou uma cosa familiar, ordinária...

A tudo se habitua o homem, a todo o estado se afaz; e não há vida, por mais estranha, que o tempo e a repetição dos atos lhe não faça natural.

Todavia de Carlos nem mais uma linha... Pobre velha!

Assim passaram meses, assim correu o inverno quase todo, e já as amendoeiras se toucavam de suas alvíssimas flores de esperança, já uma depois da outra iam renascendo as plantas, iam abrolhando as árvores; logo vieram as aves trinando seus amores pelos ramos... Insensivelmente era chegado o mês de abril, estávamos em plena e bela primavera.

A guerra parecia cansada, o furor dos combatentes quebrado; rumores de intentadas transações giravam por toda a parte.

No nosso vale as sentinelas dos dois campos opostos, costumadas já a verem-se todos os dias, começavam a ver-se sem ódio; principiaram por se dizer dos pesados gracejos da guerra, acabaram por conversar quase amigavelmente. Muita vez foi curioso ouvi-los, os soldados, discorrer sobre as altas questões de Estado que dividiam o reino e o traziam revolto há tantos anos. Se as tratavam melhor os do conselho em seus gabinetes!

Joaninha que, pouco a pouco, se habituara àquele viver de perigos e incertezas, de dia par dia lhe ia crescendo o ânimo, aguerrindo-se. Tudo se afazia àquele estado: até os rouxinóis tinham voltado ao loureiros de ao pé da casa, e como que disciplinados obedeciam aos toques de alvorada e de retreta, acompanhando-os de seu cantar animado e vibrante.

A essas horas Joaninha era certa em sua janela — naquela antiga e elegante janela renascença de que primeiro nos namoramos, leitor amigo, ainda antes de a conhecer a ela. Ali a viam as vedetas de ambos os exércitos, ali se acostumaram a vê-la com o nascer e o pôr do sol: ali, muda e quedas horas esquecidas, escutava ela o vago cantar dos seus rouxinóis, talvez absorta em mais vagos pensamentos ainda...

E dali lhe puseram o nome de “menina dos rouxinóis”, pelo qual era conhecida em ambos os campos; significante e poético apelido com que a saudavam os soldados de ambas as bandeiras.

E uns e outros respeitavam e adoravam a menina dos rouxinóis. Entre uns e outros por tácita convenção parecia estipulado que aquela suave e angélica figura pudesse andar livremente no meio das armas inimigas, como a pomba doméstica e valida que nenhum caçador se lembrou e mirar.

Os costumes da guerra são menos soltos do que se cuida; no ânimo do soldado há mais sentimentos delicados, nas suas formas há menos rudeza do que se pensa. A farda é sim vaidosa e presumida, crê muito nos seus poderes de sedução, mas não é brutal senão no primeiro ímpeto.

Joaninha pensava os feridos, velava os enfermos, tinha palavras de consolação para todos, e em tudo quanto dizia e fazia era tão senhora, tinha tão grave gentileza, um donaire tão nobre, que a amavam todos muito, mas respeitavam-na ainda mais.

Fiada já neste respeito e estima geral, Joaninha fora estendendo, de dia a dia, as suas excursões pelo vale. Ultimamente costumava ir, pelo fim da tarde, até um pequeno grupo de álamos e oliveiras que ficavam mais para o sul e perto do lugar donde, à noite, se colocavam as derradeiras vedetas dos constitucionais.

Um dia, já quase posto o sol, a tarde quente e serena, — ou fosse que adormeceu ou que suas meditações a distraíram — o certo é que os rouxinóis gorjeavam há muito tempo nos loureiros da janela, e Joaninha não voltava.

Estabeleceram-se as vedetas de lado e outro, deram-se todas as disposições costumadas para a noite.

O oficial dos constitucionais, que andava colocando as sentinelas, tinha vindo essa mesma tarde de Lisboa com um reforço de tropas. Pôs-se em marcha com a sua gente, foi-a dispondo nos lugares convenientes, e chegava enfim ao pé daquele grupo de árvores.

— Silêncio! — disse ele. — Alto! Ali está um vulto.

— Não é ninguém — respondeu um soldado que era dos antigos no posto; — ninguém que importe; é a menina dos rouxinóis. Estou vendo que adormeceu ao seu poiso costumado.

— A menina dos rouxinóis! Que cantiga é essa que cantas tu de lá?

O soldado deu a explicação popular do seu dito, mostrou a casa do vale, e continuava enaltecendo os méritos e virtudes de Joaninha...

O oficial não o deixou acabar:

— Para a retaguarda, e silêncio!

Foi rapidamente postar a alguma distância dali, as duas sentinelas que lhe faltavam; e ele entrou só no pequeno grupo de árvores.

Era Joaninha que estava ali, Joaninha que efetivamente dormia a sono solto.
Joaninha adormecida. — O demi-jour da coquette. — Poesia de Flos Sanctorum —De como os rouxinóis acompanhavam sempre a menina do seu nome; e do bem que um deles cantava no bosque. — Retrato esquiçado à pressa para satisfazer às amáveis leitoras. — Pondera-se o triste e péssimo gosto dos nossos governantes em tirarem as honras militares ao mais elegante e mais nacional uniforme do exército português. — Em que se parece o autor da presente obra com um pintor da Idade Média. — De como os abraços, por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais intermináveis que pareçam, sempre têm de acabar por fim.

Sobre uma espécie de banco rústico de verdura, tapeçado de gramas e de macela brava, Joaninha, meio recostada, meio deitada, dormia profundamente.

A luz baça do crepúsculo, coada ainda pelos ramos das árvores, iluminava tibiamente as expressivas feições da donzela; e as formas graciosas do seu corpo se desenhavam mole e voluptuosamente no fundo vaporoso e vago das exalações da terra, com uma incerteza e indecisão de contornos que redobrava o encanto do quadro, e permite à imaginação exaltada percorrer toda a escala de harmonia das graças femininas.

Era um ideal de demi-jour da coquette parisiense: sem arte nem estudo, lho preparara a natureza em seu boudoir de folhagem perfumado da brisa recendente dos prados.

Com nessas poéticas e populares legendas de um dos mais poéticos livros que se tem escrito, o Flos Sanctorum, em que a ave querida e fadada acompanha sempre a amável santa de sua afeição — Joaninha não estava ali sem o seu mavioso companheiro. Do mais espesso da ramagem, que fazia sobrecéu àquele leito de verdura, saía uma torrente de melodias, que vagas e ondulantes como a selva com o vento; fortes, bravas, e admiráveis de irregularidade e invenção como as bárbaras endechas de um poeta selvagem das montanhas... Era um rouxinol, um dos queridos rouxinóis do vale que ali ficara de vela e companhia à sua protetora, à menina do seu nome.

Com o aproximar dos soldados, e o cochichar do curto diálogo que no fim do último capítulo se referiu, cessara por alguns momentos o delicioso canto da avezinha; mas quando o oficial, postadas as sentinelas a distância, voltou pé ante pé e entrou cautelosamente para debaixo das árvores, já o rouxinol tinha tornado ao seu canto, e não o suspendeu outra vez agora, antes redobrou de trilos e gorjeios, e do amais alto de sua voz agudíssima veio descaindo depois em uns suspiros tão magoados, tão sentidos, que não dissera senão que a preludiava a mais terna e maviosa cena de amor que este vale tivesse visto.

O oficial... — Mas certo que as amáveis leitoras querem saber com quem tratam, e exigem, pelo menos, uma esquiça rápida e a largos traços do novo ator que lhe vou apresentar em cena.

Têm razão as amáveis leitoras, é um dever de romancista a que se não pode faltar.

O oficial era moço, talvez não tinha trinta anos, posto que o trato das armas, o rigor das estações, e o selo visível dos cuidados que trazia estampado no rosto, acentuassem já mais fortemente, em feições de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude.

A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo e forte como precisa um coração de homem para pulsar livre; seu porte gentil e decidido de homem de guerra desenhava-se perfeitamente sob o espesso e largo sobretudo militar — espécie de great-coat inglês, que a imitação das modas britânicas tinha tornado familiar dos nossos bivaques. Trazia-o desabotoado e descaído para trás, porque a noite não era fria; e via-se por baixo elegantemente cingida ao seu corpo a fardeta parda dos caçadores, realçada de seus característicos alamares pretos e avivada de encarnado...

Uniforme tão militar, tão nacional, tão caro a nossas recordações — que essas gentes, prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado nesta terra, proscreveram do exército... por muito português demais talvez! deram-lhe baixa para os beleguins da alfândega, reformaram-no em uniforme da bicha!

Não pude resistir a esta reflexão: as amáveis leitoras me perdoem por interromper com ela o meu retrato.

Mas quando pinto, quando vou riscando e colorindo as minhas figuras, sou como aqueles pintores da Idade Média que entrelaçavam nos seus painéis dísticos de sentenças, fitas lavradas de moralidade e conceitos... talvez porque não saibam dar aos gestos e atitudes expressão bastante para dizer por eles o que assim escreviam, e servia a pena de suplemento e ilustração ao pincel... Talvez e talvez pelo mesmo motivo caio eu no mesmo defeito.

Será; mas em mim é irremediável, não sei pintar de outro modo.

Voltemos ao nosso retrato.

Os olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza imensa, denunciavam o talento, a mobilidade do espírito — talvez a irreflexão... mas também a nobre singeleza de um caráter franco, leal e generoso, fácil na ira, fácil no perdão, incapaz de se ofender de leve, mas impossível de esquecer uma injúria verdadeira.

A boca, pequena e desdenhosa, não indicava contudo soberba, e muito menos vaidade, mas sorria na consciência de uma superioridade inquestionável e não disputada.

O rosto, mais pálido que trigueiro, parecia comprido pela barba preta e longa que trazia ao uso do tempo. Também o cabelo era preto; a testa alta e desafogada.

Quando calado e sério, aquela fisionomia podia-se dizer dura; a mais pequena animação, o mais leve sorriso a fazia alegre e prazenteira, porque a mobilidade e a gravidade eram os dois pólos desses caráter pouco vulgar e dificilmente bem entendido.

Daquele busto clássico e verdadeiramente moldado pelos tipos da arte antiga, podia o estatutário fazer um filósofo, um poeta, um homem de Estado, ou um homem do mundo, segundo as leves inflexões de expressão que lhe desse.

Neste momento agora, e ao entrar na pequena espessura daquelas árvores, animava-o uma viva e inquieta expressão de interesse — quebrado contudo, sustido e, por assim dizer, sofreado, de um temor oculto, de um pensamento reservado e doloroso que lhe ia e vinha ressumbrando na face, como a antiga e desbotada cor de um estofo que se tingiu e novo — que é outro agora, mas que não deixou e ser inteiramente o que era...

Alegra-se assim um triste dia de novembro com o raio do sol transiente e inesperado que lhe rompeu a cerração num canto do céu.

Tal era, e tal estava diante de Joaninha adormecida, o que não direi mancebo porque o não parecia — o homem singular a quem o nome, a história e as circunstâncias da donzela pareciam ter feito tamanha impressão.

— Joaninha! — murmurou ele apenas a viu à luz ainda bastante do crepúsculo, — Joaninha! — disse outra vez, contendo a violência da exclamação: — É ela sem dúvida. Mas que diferente!... Quem tal diria! Que graça! que gentileza! Será possível que a criança que há dois anos?...

Dizendo isto, por um movimento quase involuntário lhe tomou a mão adormecida e a levou aos lábios.

Joaninha estremeceu e acordou.

— Carlos, Carlos! — balbuciou ela, com os olhos ainda meio fechados. — Carlos, meu primo... meu irmão! Era falso, dize: era falso? Foi um sonho, não foi, meu Carlos?...

E progressivamente abria os olhos mais e mais até se lhe espantarem e os cravar nele arregalados de pasmo e de alegria.

— Foi, foi — continuou ela; — foi sonho, foi um sonho mau que tive. Tu não morreste... Fala à tua irmã, à tua Joana: dize-lhe que estás vivo, que não és a sombra dele... Não és, não, que eu sinto a tua mão quente na minha que queima, sinto-a estremecer como a minha... Carlos! meu Carlos! dize, fala-me: tu estás vivo e são? E és... és... o meu Carlos? Tu próprio, não é já o sonho, és tu?...

— Pois tu sonhavas? tu Joana, tu sonhavas comigo?

— Sonhava como sonho sempre que durmo... e o mais do tempo que estou acordada... sonhava com aquilo em que só penso... em ti.

— Joana... prima... minha irmã!

E caiu nos braços dela; e abraçaram-se num longo, longo abraço — com um longo, interminável beijo... longo, longo e interminável como um primeiro beijo de amantes...

O abraço desfez-se, e o beijo terminou enfim, porque os reflexos do céu na terra são limitados e imperfeitos como as incompletas existências que a habitam.

Senão... invejariam os anjos a vida na terra.

Joaninha, tornada a si daquele paroxismo, abria e fechava os olhos para se afirmar se estava bem acordada, tocava as mãos, o rosto, e o peito, os braços do primo, palpava-se depois a si mesma como quem duvidava de sua própria existência, e dizia em palavras cortadas e sem nexo:

— É Carlos... Carlos foi falso. É meu primo... Minha avó também sonhou o mesmo sonho, mas foi falso. Frei Dinis não é que o disse, nem ninguém: eu e a avó é que o sonhamos. Mas ele aqui está, vivo... vivo! é nosso, nosso todo outra vez... Mas como vieste tu aqui, Carlos? Como estava eu aqui contigo?... E sós, sozinhos aqui a esta hora! Não deve ser isto.. Valha-me Deus! E que dirão? E Jesus! Lá isso não me importa; deixá-los dizer; mas não deve ser. Vamos, Carlos, vamos ter com ela, vamos para a avó!.. Que nisto não há mal nenhum... Meu primo!... um primo com que eu fui criada!.. Mas quem não souber, pode dizer... Vamos, Carlos. — Oh! minha avó morre de alegria , coitada!... É verdade: vou adiante preveni-la, prepará-la... hei de lhe ir assim dizendo pouco a pouco... Segue-me tu, Carlos, e vamos. Mas, ó meu Deus! não é preciso; para quê? Ela é cega, coitadinha, não sabes?

— Cega, que dizes? Minha avó está cega?

— Pois não sabias? Ai! É verdade, não sabias. Tantas coisas que tu não sabes, meu Carlos! Mas eu te contarei tudo, tudo. Olha: cegou quando... Mas não falemos agora nestas tristezas que já lá se vão. Em ela te sentindo ao pé de si, é o mesmo que tornar-lhe a vista. Tem-mo ela dito muitas vezes, eu bem sei que é assim. Mas ouve: um dia havemos de falar —nós dois sós — à vontade: tenho tanto que te dizer... nem tu sabes... Agora vamos, Carlos.

E falando assim, tomou-o pela mão e saiu para o vale aberto, froixamente aclarado já de miríades de estrelas cintilantes no céu azul.

XXI
Quem vem lá? — Como entre dois litigantes nem sempre goza o terceiro. — Carlos e Joaninha numa espécie de situação ordeira, a mais perigosa e falsa das situações.

As estrelas luziam no céu azul e diáfano, a brisa temperada da primavera suspirava brandamente; na larga solidão e no vasto silêncio do vale distintamente se ouvia o doce murmúrio da voz de Joaninha, claramente si via o vulto da sua figura e da do companheiro que ela levava pela mão e que maquinalmente a seguia como sem vontade própria, obedecendo ao poder de um magnetismo superior e irresistível.

Passavam, sem ver e sem refletir onde estavam, por entre as vedetas de ambos os campos... e ao mesmo tempo de umas e outras lhe bradou a voz breve e estridente das sentinelas: — Quem vem lá?

Estremeceram involuntariamente ambos com o som repentino da guerra e de alarma que os chamava à esquecida realidade do sítio, da hora, das circunstâncias em que se achavam... Daquele sonho encantado que os transportara ao Éden querido de sua infância , acordaram sobressaltados... viram-se na terra erma e bruta, viram a espada flamejante da guerra civil que os perseguia, que os desunia, que os expulsava pára sempre do paraíso de delícias em que tinham nascido...

Oh! que imagem eram esses dois, no meio daquele vale nu e aberto, à luz das estrelas cintilantes, entre duas linhas de vultos negros, aqui e ali dispersos e luzindo acaso do transiente reflexo que fazia brilhar uma baioneta, um fuzil!... que imagem não eram dos verdadeiros e mais santos sentimentos da natureza expostos e sacrificados sempre no meio das lutas bárbaras e estúpidas, no conflito de falsos princípios em que se estorce continuamente o que os homens chamaram sociedade!

Joaninha abraçou-se com o primo; ele parou de repente e com a mão ao punho da espada.

— Quem vem lá? — tornaram a bradar as sentinelas.

— Ouves, Joana? — disse Carlos em voz baixa e sentida: — Ouves estes brados? É o grito da guerra que nos manda separar; é o clamor cioso e vigilante dos partidos que não tolera a nossa intimidade, que separa o irmão da irmã, o pai do filho!...

Quem vem lá? — bradaram ainda mais forte as sentinelas e ouviu-se aquele estridor baço e breve que de tão froixo é e tão forte impressão faz nos mais bravos ânimos... era o som dos gatilhos que se aramavam nas espingardas.

O momento era supremo, o perigo iminente e já inevitável... ali podiam ficar ambos, traspassados opostas dos dois campos contendores.

Como esses que, fiados em sua inocência e abnegação, cuidam poder passar por entre as discórdias civis sem tomar parte nelas, e que são, por isso mesmo, objeto de todas as desconfianças, alvo de todos os tiros — assim estavam ali os dois primos na mais arriscada e falsa posição que têm as revoluções.

Joaninha conheceu o perigo que os ameaçava; e com aquela rapidez de resolução que a mulher tem mais pronta e segura nas grandes ocasiões, disse para Carlos:

— Fala aos teus, faze-te conhecer e põe-te a salvo. Amanhã nos tornaremos a ver: eu te avisarei! Adeus!

— E tu, tu?... E as sentinelas dos realistas?...

— Não tenhas cuidado em mim. Desta banda todos me conhecem.

Deu alguns passos para o lado de sua casa e levantou a voz:

— Joaninha! Sou eu, camaradas, sou eu!

Imediatamente se ouviu o som retinido das coronhas no chão, e o riso contente dos soldados que reconheciam a benquista e bem-vinda voz de Joaninha... da “menina dos rouxinóis”.

— Vês, Carlos?... Adeus! até amanhã — disse ela baixo.

— Até amanhã, se...

— Se!... Pois tu?...

— Ouve: não digas a tua avó que me viste, que estou aqui: é forçoso, é indispensável, exijo-o de ti...

— E amanhã me dirás?...

— Sim.

— Prometo: não direi nada... Mas, oh! Carlos...

— Adeus!

Carlos deu dois passos para a banda das suas vedetas. Joana correu para o lado oposto. Mas ele parou e não tirou os olhos daquela forma gentil que deslizava como uma sombra pelo horizonte do vale, até que desapareceu e todo.

E ele imóvel ainda!

Faiscaram de repente como relâmpago um, dois, três... e a detonações que os seguiram, e o assovio das balas que vinham de após elas... Eram as sentinelas constitucionais que faziam fogo sobre o seu comandante que não conheciam, cujo silêncio e imobilidade o fazia suspeito.

Uma das balas ainda o feriu levemente no braço esquerdo.

— Bem, camaradas! — bradou Carlos caminhando rapidamente para eles, e erguendo a voz forte e cheia que tão conhecida era nas fileiras: — Bem! Fizeram a sua obrigação. Um de vocês que me aperte aqui o braço com este lenço.

— Carlos! — gritou ao longe uma voz fina, aguda, vibrante de terror pelo espaço; — Carlos! fala-me, responde: não te sucedeu nada?

— Nada, nada! Sossega.

E tornou a cair tudo no silêncio. Carlos retirou-se ao seu quartel numa choupana próxima. Os soldados olharam-se ente si e sorriram.

Um mais doutro disse para os outros:

— O nosso capitão não se descuida: ainda hoje chegou, e já nós lá vamos, hein?

— O nosso capitão é daqui, não sabes?

— Hum! tenho percebido. E ainda lhe dura? O homem é capaz!...

— Silêncio! Eu te direi logo a história toda: é uma prima.

— Ah! prima. Então não há nada que dizer.

— É a que eles chamam aqui...

— A menina dos rouxinóis? Essa é maluca.

— Gosta delas assim, que ele também o é.

— Pois a freira de S. Gonçalo, na Terceira?

— Maluca.

— E a Lady inglesa, que?...

— Maluquíssima essa! Não me há de admirar se a vir cair do ar um dia por aí como bomba. E não há de dar mau estalo!

— Pudera! E encontrando-se com a prima então!...

— Mas ela é prima ou é irmã?

— É uma tal parentela enrevezada a dessa gente da casa do vale!... dizem coisas por aí, que se eu as entendo!... E há um frade no caso, já se sabe...

— Oh!, ele há frade no caso?

— Há, e que frade! Um apostólico às direitas! Tão feio, tão magro! aparece por aí às vezes. Eu já o lobriguei um dia: e que famoso tiro que era! Quase que me arrependo de não ter...

— Isso! hoje íamos matando o nosso capitão por instantes. Ora agora se lhe matas o tio, ou pai, ou o que quer que é ...

— Um frade!

— Um frade não é gente?

— Não senhor.

— Está bom: basta de conversar por hoje. O que me parece é que nós temos cedo muita pancada rija.

— Venha ela, que isto já me aborrece.

Acenderam os cigarros e fumaram.

Com o mesmo sossego de espírito... santo Deus! acendem os homens a guerra civil, que altera e confunde por este modo todas as idéias, todos os sentimentos da natureza.

XXII
Bilhete de manhã da prima ao primo. Enganam a pobre da velha. — Noite maldormida. — Da conversa que teve Carlos com seus botões. — A Joaninha que ele deixara, e a Joaninha que achou. — Obrigações de amor, triste palavra. — A mulher que ele amava, e se ele amava ainda. — Quesitos do A. aos seus benévolos leitores. Declara que com hipócritas não fala. — Quem há de levantar a primeira pedra? — Dous modos diferentes de acudir uma coisa ao pensamento.

No dia seguinte, mal rompia a manhã, um paisano que dizia trazer comunicações importantes para o comandante do posto avançado, foi conduzido à presença de Carlos e lhe entregou uma carta: era de Joaninha.

Fiel à sua promessa, ela não tinha dito nada do encontro da véspera: dizia a carta. E que a avó estava doente e aflita; que para a animar consolar, lhe dera notícias do primo, como vindas por pessoa que o vira e estivera com ele. Que ficava mais contente e sossegada: mas que aquele estado de ansiedade não podia prolongar-se. Que a saúde da pobre velha declinava de dia a dia; que se lhe ia a vida, que era matá-la não lhe dizer a verdade... Joaninha concluía com mil afetos e saudades e aprazava por fim o mesmo sítio da véspera para se tornarem a ver, e para concertarem o que haviam de fazer. Todas as precauções estavam tomadas, e o consentimento dado pelo comandante do posto contrário, para haver toda a segurança naquela entrevista.

Carlos tinha velado toda a noite; uma excitação extraordinária lhe amotinara o sangue, lhe desafinara os nervos. Bem tinha desejado vir para aquele posto, bem contava, bem esperava ele, estando ali, saber de mais perto de sua família, vê-los talvez, mais dia menos dia, encontrar-se com algum deles... e de todos eles, a inocente e graciosa criança com quem vivera como irmão desde os seus primeiros anos, era quem ele mais esperava, mais desejava ver decerto.

Mas uma criança era a que ele tinha deixado, uma criança a brincar, a colher as boninas, a correr atrás das borboletas do vale... uma criança que, sim, o amava ternamente, cuja suave imagem o não tinha deixado nunca em sua longa peregrinação, cuja saudade o acompanhara sempre, de quem se não esquecera um momento, nem nos mais alegres, nem nos mais ocupados, nem nos mais difíceis, nem nos mais perigosos da sua vida...

Mas era uma criança!... era a imagem de uma criança.

É certo, sim; e nas batalhas, em presença da morte... no longo cerco do Porto entre os flagelos da cólera e da fome, nas horas de mais viva esperança, no descoroçoamento dos mais tristes dias, a doce imagem de Joaninha, daquela Joaninha com quem ele andava ao colo, que levantava em seus ombros para ela chegar aos ninhos dos pássaros no verão, aos medronhos maduros no outono, que ele suspendia nos braços para passar no inverno os alagadiços do vale, — essa querida imagem não o abandonara nunca.

— Nunca!... nem quando as penas de amor, nem quando as suas glórias — mais esquecidiças ainda — pareciam absorver-lhe todos os sentidos e todo o sentimento do seu coração.

A saudade, a memória de Joaninha, suavemente impressa no mais puro e no mais santo da sua alma, resplandecia no meio de todas as sombras que lha obscurecessem, sobreluzia no meio de qualquer fogo que lhe alumiasse.

Uma luz quieta, límpida, serena como a tocha na mão do anjo que ajoelha em inocência e piedade diante do trono do Eterno!

Mas, no mesmo dia em que chegou ao vale, quase na mesma hora, cheio daquela luz mais viva e animada agora pela proximidade do foco donde saía... nessa mesma hora, ir encontrar ali, naquela solidão, entre aquelas árvores, à tíbia e sedutora claridade do crepúsculo... a quem, santo deus! Não já a mesma Joaninha de há três anos, não a mesma imagem que ele trazia, como a levara, no coração; mas uma gentil e airosa donzela, uma mulher feita e perfeita, e que nada perdera, contudo, da graça, do encanto, do suave e delicioso perfume da inocência infantil em que a deixara!

Não esperava, não estava preparado para a impressão que recebeu, foi uma surpresa, um choque, um reviramento confuso de todas as suas idéias e sentimentos.

Qual fosse porém a precisa e verdadeira impressão que recebeu, nem ele a si próprio a pudera explicar: era de um gênero novo, único, na a história de suas sensações: não a conhecia, estranhava-a e quase que tinha medo de a analisar.

Seria anúncio de amor?

Mas ele tinha amado, muito e deveras... e cuidava amar ainda, e devia amar; por quanto há sagrado e santo nos deveres do coração, era obrigado a amar ainda.

Ó obrigações de amor, obrigações de amor! se vós não sopis senão obrigações!...

Não o pensava Carlos, não cria ele assim: leal e sincero tinha entregue o seu coração à mulher que o amava, que tantas provas lhe dera de amor e devoção, que descansava em sua fé, que não existia senão para ele: mulher moça, bela, cheia de prendas e encantos, mulher de um espírito, de uma educação superior, que atravessara, desprezando-as, turbas de adoradores nobres, ricos, poderosos, para descer até ele, para se entregar ao foragido, pobre, estrangeiro, desprezado.

Quem era essa mulher?

Aonde, como obtivera ele a posse dessa jóia, desse talismã com o qual se tinha por tão seguro para não ver na graciosa prima senão?...

Senão o que?

A inocente criança que ali deixara?

Mas não é verdade isso: outra era a impressão que Joaninha lhe fizera, fosse ela qual fosse.

O que era então?

E sobretudo, quem era essoutra mulher que ele amava?

E amava-a ele ainda?

Amava.

E Joaninha?

Joaninha era... nem sei o que lhe era Joaninha... o que lhe estava sendo naquele momento.

O que lhe era fora, assaz to tenho explicado, leitor amigo e benévolo: o que ela será... Podes tu, leitor cândido e sincero — aos hipócritas não falo eu — podes tu dizer-me o que há de ser amanhã no teu coração a mulher que hoje somente achas bela, ou gentil, ou interessante?

Podes responder-me da parte que tomará amanhã na tua existência a imagem da donzela que hoje contemplas apenas com os olhos de artista e lhe estás notando, como em quadro gracioso, os finos contornos, a pureza das linhas, a expressão verdadeira e animada?

E quando vier, se vier, esse fatal dia de amanhã, responder-me-ás também da tua parte que ficará tendo em tua alma essa outra imagem que lá estava dantes e que, ao reflexo desta agora, daqui observo que vai empalidecendo, descorando... já lhe não vejo senão os lineamentos vagos... já é uma sombra do que foi... Ai! o que será ela amanhã?

Leitor amigo e benévolo, caro leitor meu indulgente, não acuses, não julgues à pressa o meu pobre Carlos; e lembra-te daquela pedra que o Filho de deus mandou levantar à primeira mão que se achasse inocente... A adúltera foi-se em paz, e ninguém a apedrejou.

Pois é verdade; Carlos tinha amado, amado muito, e amava ainda a mulher a quem prometera, a quem estava resolvido a guardar fé. E essa mulher era bela, nobre, rica, admirada, ocupava uma alta posição no mundo... e tudo lhe sacrificara e ele exilado, desconhecido.

E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o havia de amar como ela, que os longos e ondados anéis de loiro cendrado, que os lânguidos olhos de gazela que o ar majestoso e altivo, que a fez duma alvura celeste, que o espírito, o talento, a delicadeza de Georgina... Chamava-se Georgina; e é tudo quanto por agora pode dizer-vos, ó curiosas leitoras, o discreto historiador deste mui verídico sucesso; não lhe pergunteis mais, por quem sois. Carlos estava seguro, dizia eu, que todas essas perfeições que o seu amor sem limites, que a sua confiança sem reserva, não podiam ter rival, nem haviam de ter.

Mas aquele beijo, aquele abraço de Joaninha... oh! que lhe tinha ele feito? Como o sentira ela? Como lhe guardara seu talismã o coração e a alma?...

Não, Carlos estava certo de si, certo do seu antigo amor, lembrado de quanto lhe devia: e nisso refletiu toda aquela noite que se fora em claro.

A imagem de Joaninha lá aparecia, de vez em quando, como um raio de luz transiente e mágica, no meio dessas outras visões do passado que a reflexão lhe acordava. Ai! essa era a reflexão que as acordava... aquela vinha espontânea; era repelida, e tornava, e tornava...

Há sua notável diferença nestes dois modos de acudir ao pensamento.

A manhã veio enfim; Carlos respirou o ar puro e vivo da madrugada, sentiu-se outro.

Quando chegou a carta de Joaninha, leu-a e refletiu nela sem sobressalto. Certo e seguro e si, resolveu ir ao prazo dado para a tarde.

XXIII
Continua a acudir muita coisa vaga e encontrada ao pensamento de Carlos —. — Dança de fadas e duendes. — Frei Dinis o fado-mau da família. — Veremos, é a grande resolução nas grandes dificuldades. — Carlos poeta romântico. —Olhos verdes. — Desafio a todos os poetas moyen-àge do nosso tempo.

Não há nada como tomar uma resolução.

Mas há de tomar-se e executar-se; aliás, se o caso é difícil e complicado, pouco a pouco as dúvidas surgidas começam a enlear-se outra vez, a enredar-se... a surgir outras novas, a apresentarem-se as faces ainda não vistas da questão... enfim, se o intervalo é largo, quando a resolução tomada chega a executar-se, a maior parte das vezes já não é por força de razão e de convicção que se faz, mas por capricho, ponto de honra, teima.

Carlos tinha resolvido ir ao prazo dado, no fim do dia. Mas o dia era longo, custou-lhe a passar. Todas as ponderações da noite lhe ocorreram ao pensamento, todas as imagens que lhe tinham flutuado no espírito se avivaram, se animaram, e lhe começaram a dançar na alma aquela dança de fadas e duendes que faz a delícia e o tormento destes sonhadores acordados que andam pelo mundo e a quem a douta faculdade chama nervosos; em estilo de romance sensíveis, na frase popular malucos.

Carlos era tudo isso; para que o hei de eu negar?

Entre aquelas imagens que assim lhe bailavam no pensamento, vinha uma agora... talvez a que ele via mais distinta entre todas, a da avó que tanto amara, em cujo maternal coração ele bem sabia que tinha a primeira, a maior parte... da avó que tão carinhosa mãe lhe tinha sido! Pobre velhinha, hoje decrépita e cega... Cega, coitada! Como e porque cegaria ela?

Havia aí mistério, que Joaninha indicara, mas que não explicou.

Atrás da paciência e humilhada figura daquela mulher de dores e desgraças, se erguia um vulto austero e duro, um homem armado da cabeça aos pés de ascética insensibilidade, um homem que parecia o fado-mau daquela velha, de toda a sua família... o cúmplice e o verdugo de um grande crime... um ser de mistério e de terror.

Era Frei Dinis aquele homem; homem que ele desejava, que ele cuidava detestar, mas por quem, no fundo da alma, lhe clamava urna voz mística e íntima, uma voz que lhe dizia: “Assim será tudo, mas tu não podes aborrecer esse homem”.

Sim, mas sobre Frei Dinis pesava uma acusação tremenda, que o fizera, a ele Carlos, abandonar a casa de seus pais! Acusação horrível que também compreendia a pobre velha, aquela avó que o adorava, e que ele, ainda criminosa como a supunha, não podia deixar de amar...

E destes medonhos segredos sabia Joaninha alguma coisa?

Esperava em Deus que não.

Desconfiaria alguma coisa?... O quê?

E iria ele poluir o pensamento, desflorar os ouvidos, corromper os lábios da inocente criança com o esclarecimento de tais horrores?

Havia de lhe falar na infâmia dos seus? Havia de lhe explicar o motivo por que fugira da casa paterna?

Havia de?...

Não.— Se Joaninha tivesse suspeitas, havia de destrui-las, antes; se ela soubesse alguma coisa, negar-lha.

Mentiria, juraria falso se fosse preciso.

E não havia de ir ver a avó, não havia de entrar na casa dos seus a consolar a infeliz que só vivia duma esperança, a de ver o filho de sua filha?

Não, nunca... O limiar daquela porta, que ele julgava contaminado, infame, manchado de sangue e cuspido de opróbrios e desonras, tinha-o passado sacudindo o pó de seus sapatos, prometendo a Deus e a sua honra de o não tornar a cruzar mais.

Mas que diria então ele a Joaninha? Como havia de explicar-lhe um proceder tão estranho, e aparentemente tão cruel, tão ingrato?

Por enquanto as impossibilidades materiais da guerra serviriam de desculpa, depois o tempo daria conselho.

Veremos! — é a grande resolução que se toma nas grandes dificul­dades da vida, sempre que é possível espaçá-las.

Carlos disse: Veremos!

Tomou todas as disposições para poder estar seguro e sossegado no sítio onde ia encontrar a prima: e o resto do dia, ansioso mas con­tente, ocupou-se de seus deveres militares, fatigou o corpo para descan­sar o espírito, e em parte e por bastantes horas o conseguiu.

Mas um dia de abril é imenso; interminável. E as últimas horas pareciam as mais compridas. Nunca houve horas tamanhas! Carlos já não tinha que inventar para fazer: pôs-se a pensar.

Que remédio!

Pensou nisto, pensou naquilo... uma idéia lhe vinha, outra se lhe ia. A imaginação, tanto tempo comprimida, tomava o freio nos dentes e corria à rédea solta pelo espaço...

Anéis dourados, tranças de ébano, faces de leite e rosas como de querubins, outras pálidas, transparentes, diáfanas como de princesas encantadas, olhos pretos, azuis, verdes... os de Joaninha enfim... todas estas feições, confusas e indistintas mas de estremada beleza todas, lhe passavam diante da vista, e todas o enfeitiçavam. O desgraçado...Por que não hei de eu dizer a verdade? — o desgraçado era poeta..

Inda assim! não me esconjurem já o rapaz... Poeta, entendamo­-nos; não é que fizesse versos: nessa não caiu ele nunca, mas tinha aquele fino sentimento de arte, aquele sexto sentido do belo, do ideal que só têm certas organizações privilegiadas de que se fazem os poetas e os artistas,

Eis aqui um fragmento de suas aspirações poéticas. Vejam as amáveis leitoras que não têm metro, nem rima — nem razão... Mas enfim versos não são.

"Olhos verdes!...

"Joaninha tem os olhos verdes.

"Não se reflete neles a pura luz do céu, como nos olhos azuis.

"Nem o fogo — e o fumo das paixões, como nos pretos.

"Mas o viço do prado, a frescura e animação do bosque a flutuação e a transparência do mar...

"Tudo está naqueles olhos verdes.

"Joaninha, por que tens tu os olhos verdes?

"Nos olhos azuis de Georgina arde, em sereno e modesto brilho, a luz tranqüila de um amor provado. seguro, que deu quanto havia de dar, quanto tinha que dar.

"Os olhos azuis de Georgina não dizem senão uma só frase de amor, sempre a mesma e sempre bela: Amo-te, sou tua!

"Nos olhos negros e inquietos de Soledade nunca li mais que estas palavras: Amo-me, que és meu!

"Os olhos de Joaninha são um livro imenso, escrito em caracteres móveis, cujas combinações infinitas excedem a minha compreensão.

"Que querem dizer os teus olhos, Joaninha?

"Que língua falam eles?

"Oh! para que tens tu os olhos verdes, Joaninha?

"A açucena e o jasmim são brancos, a rosa vermelha, o alecrim azul...

"Roxa é a violeta, e o junquilho cor de ouro.

"Mas todas as cores da natureza vêm de uma só, o verde.

"No verde está a origem e o primeiro tipo de toda a beleza.

"As outras cores são parte dela; no verde esta o todo, a unidade da formosura criada.

"Os olhos do primeiro homem deviam ser verdes.

"O céu é azul...

"A noite é negra...

"A terra e o mar são verdes...

"A noite é negra mas bela, e os teus olhos, Soledade, eram negros e belos como a noite.

"Nas trevas da noite luzem as estrelas que são tão lindas... mas no fim de uma longa noite quem não suspira pelo dia?

"E que se vão... oh que se vão enfim as estrelas!...

"Vem o dia.. — o céu é azul e formoso: mas a vista fatiga-se de olhar para ele.

"Oh! o céu é azul como os teus olhos, Georgina...

"Mas a terra é verde: e a vista repousa-se nela, e não se cansa na variedade infinita de seus matizes tão suaves.

"O mar é verde e flutuante... Mas oh! esse é triste como a terra é alegre.

"A vida compõe-se de alegrias e tristezas...

"O verde é triste e alegre como as felicidades da vida!

"Joaninha, Joaninha, por que tens tu os olhos verdes?

Já se vê que o nosso doutor de bivaque, o soldado que lhe cha­mou maluco ao pensador de tais extravagâncias, tinha razão e sabia o que dizia.

Infelizmente não se formulavam em palavras estes pensamentos poéticos tão sublimes. Por um processo milagroso de fotografia mental, apenas se pôde obter o fragmento que deixo transcrito.

Que honra e glória para a escola romântica se pudéssemos ter a coleção completa!

Fazia-lhe um prefácio incisivo, palpitante, britante...

Punha-se-lhe um título vaporoso, fosforescente... por exemplo: — Ecos surdos do coração — ou Reflexos d'alma — ou — Hinos invisíveis — ou — Pesadelos poéticos — ou qualquer outro deste gênero, que se não soubesse bem o que era, nem tivesse senso comum.

E que viesse cá algum menestrel de fraque e chapéu redondo, al­gum trovador renascença de colete à Joinvilie, lutar com o meu Carlos em pontos de romantismo vago, descabelado, vaporoso e nebuloso!

Se algum deles era capaz de escrever com menos lógica, — (com menos gramática, sim) e com mais triunfante desprezo das absurdas e escravizantes regras dessa pateta dessa escola clássica que não produziu nunca senão Homero e Virgílio, Sófocles e Horácio, Camões e o Tasso, Corneille e Racine, Pope e Moliére. e mais algumas dúzias de outros nomes tão obscuros como estes?