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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O ARCO DE SANTANA:A Conversa das Vizinhas: O Senhor Estudante: Os Paços do Bispo: Vasco: Palestra de Moral: O Alazão

Mal pensa o voluntário acadêmico, quando descendo rua de Sant’Ana abaixo, o braço no armão da peça, e os olhos na alta janela donde, entre o festivo azul e branco, lhe sorri constitucional beldade; e ele vai misturando, no alvoroçado pensamento, conquistas bélicas e amorosas, as damas que há de render e as guerrilhas que há de espatifar, - e mais que tudo, as histórias que sobre isso se hão de contar à noite no refeitório dos Grilos hoje, oh impiedade! Convertido em casa de tripudio e bambochata de maganos estudantes – mal pensa ele que terreno clássico vai pisando, por que veneráveis padrões históricos vai passando sem os conhecer, que interessantíssima cena romântica é essa em que, depois de tantos séculos, novo e não menos interessante ator, lhe coube vir figurar.

Falte-te, é verdade, ó nobre e histórica rua de Sant’Ana, falta-te já aquele teu respeitável e devoto arco, precioso monumento da religião de nossos antepassados, e que, certo é, mais te vedava a pouca luz do céu “material” que tuas augustas dimensões deixam penetrar, mas era ele em sim mesmo, foco da espiritual luz de devoção que ardia no bendito nicho consagrado à gloriosa santa do teu nome.

Caíste pois tu, ó arco de Sant’Ana, como, em nossos tristes e minguados dias, vai caindo quando aí há nobre e antigo às mãos de inovadores plebeus, para quem nobiliarquias são quimeras, e os veneráveis caracteres heráldicos de rei-d’armas-Portugal língua morta e esquecida que nossa ignorância despreza, hieroglíficos da terra dos Faraós antes de descoberta a inscrição Damieta! – Assentaram os miseráveis reformadores que uma pouca de luz mais e uma pouca de imundície menos, em rua já de si tão escura e mal enxuta, era preferível à conservação daquele monumento em todos os sentidos respeitável!

Com que “desapontamento” deste meu coração, depois de tantos anos de ausência, não andei eu procurando, em vão!... Na rua de Sant’Ana, uma das primeiras que a minha infância conheceu, as góticas feições daquele arco?... E a alâmpada que lhe ardia contínua, e os milagres de cera que lhe pendiam à roda, e toda aquela associação de coisas que me trazia à memória os felizes dias de minha descuidada meninice! – Meninice que passou, sem mocidade, a esta tão trabalhosa, tão árida, tão despegada virilidade, em que não tardam as cãs e as rugas a visitar-me com mais precoce velhice ainda!

Ai, rua de Sant’Ana! Que é do teu arco e da tua festa, quando se lhe armava aquele palanque com que ficava uma igreja improvisada, e um coreto e um púlpito, aonde grasnava a música, berrava o frade, e toda a vizinhança tinha um dia de folgar?... E muito se rezava e muito se namorava e muito se comia, e todos iam para o céu – Ora que o façam hoje!

Foi o célebre fracasso de José U que acabou com a devota festa e com o meu querido arco também.

José U, para ilustração da presente história seja dito, era um curioso figurão da minha terra, uma das notabilidades, - como se dizia em França, e hoje por cá se diz também já nos botequins – umas das notabilidades desta nobre e sempre leal cidade. Insigne mestre de capela, trazia arrematadas todas as festas e oragos menores do Porto e seus subúrbios, sem excetuar os três São Joões rivais; a saber, São João o velho ou o republicano, de Cedofeita, - São João o malhado, da Lapa – São João o realista, do Bonfim.

Com efeito, São João que da fama de pedreiro se não livra!... Não me faltava ver mais nada.

Era o Sr. José U homem bem apessoado, e de tal capacidade e rotundidade nas formas posteriores, que, por elegante e popular metonímia, lhe chamaram a parte pelo todo, e foi apelidado José U, ou José outra coisa que a gravidade da minha história me não deixa por aqui mais clara.

Andava, entre outras, de imemorial posse, na sua correição e jurisdição harmônica, a parte música instrumental e vocal da festa de Sant’Ana do arco. Corria o ano de 182..., Chegou o dia da santa, armou-se o palanque, treparam os menestréis ao coreto, saíram os padres detrás duma janela, principiou a missa cantada, sobre garraio capucho ao púlpito, começa José U com a sua gente o moteto de rigor... E eis senão quando, o travejamento de toda aquela caranguejola que dá de si, rende, casca - e zás por ali abaixo desanda tudo à rua. José U com o rolo de solfa na mão – o cetro, o bastão de general Colcheia! Cai com todo o peso do seu nome num rabecão já estatelado.

Foram dentro com tremendo som os tampos do bojudo instrumento; e foi tremendo o diapasão que no violento contato se fez...

Em tal estado e posição ficou o bem-aventurado, que, à primeira sensação de desgosto e terror geral, sucedeu o riso e turbulenta cachinada. Acabou-se a festa da santa, poupou-se ao capuchio muita berraria e muita sandice, e os festeiros jantaram mais cedo.

E assim terminou a última função da senhora Sant’Ana do arco. E o arco foi demolido daí a pouco tempo para minha eterna saudade e de todos os amadores e veneradores de arcos antigos e de semelhantes preciosidades.

Fora fatídica, fora fatal ao bendito arco a agourenta queda de José U!

II

A Conversa das Vizinhas

Pois bons quinhentos anos antes deste fatal acontecimento, fora esse arco de Sant’Ana testemunha e próprio lugar de cena, da interessantíssima história que vou relatar, e que extraí, com escrupulosa fidelidade, do precioso manuscrito achado na livraria reservada do reverendo Prior dos Grilos, a quem Deus perdoe não ter deixado na sua cela, quando fugiu, nem uma caixa de doce, nem uma garrafa de vinho potável, nem gulosice de nenhuma espécie, das que eram de esperar naquele devoto aposento, e que bem contávamos achar nele os pobres estudantes quando ali chegamos mortos de sede e de cansaço. Por mim, bem contente fiquei com esta única parte do espólio que me coube, e – salvo o doce, que a esse não perdoava eu – não tomaria outra, apesar da legislação e prática então vigente, e que não sei se ainda hoje vige e viça, mas conheço muita gente que viçou, floreou e frutificou por ela e com ela. – Vamos adiante! Eu, se por leis de guerra, não estou em boa posse do que assim houve e hoje dou por meu na presente crônica, sincera e publicamente me acuso, e farei plena restituição a quem competir. Não é costume entre os nossos irmãos escrevedores de histórias, contos e semelhantes; mas não importa.

Seriam dez horas da noite, horas mortas para aquela boas eras em que nossos temporãos avoengos jantavam de dia às dez para as onze, e ceavam quase com dia, ao por do sol. A noite era de luar, mas o estreito da rua e a proximidade das muralhas da cidade, que então corriam pouco além daquelas imediações, mal deixavam penetrar um baço reflexo de seu clarão pela obscuridade permanente. Apenas a alâmpada do arco dava tênue e raro vislumbre de claridade, tão frouxo e tíbio que mal indicava o sítio em que jazia, mas em que nada quebrava as trevas circunstantes. Era a estar horas e neste lugar, que de uma gelosia à esquerda do arco surdiu uma voz baixa e como de quem teme e deseja ao mesmo tempo que a ouçam. Dizia a voz:

_ Aninhas, mana, Aninhas!... – Menina, mana, ouves? Sou eu: ouves?

Cada uma dessas palavras era dita com grandes intervalos uma da outra, e crescendo progressivamente de tem, por modo que a última já se devia de ouvir sem dificuldade em pequena distância. Mas, se alguém ouviu, ninguém respondeu.

Seguiu-se um bom minuto de silêncio.

Logo, da mesma gelosia donde pareceu sair a voz, saiu também uma mãozinha delicada e alva que, de tão alva, resplandeceu com a pequena luz da alâmpada que toda refletia sobre ela. A mãozinha bateu mansinho nos vidros do arco, repetindo outra vez:

_ Aninhas, psiu! Ouves?

Não tardou a escutar-se o pé ante pé de quem acudia àquele chamado; foi um vulto escuro e, ao parecer, feminino, que, pelo postigo que da casa fronteira abria para o interior do arco, entrou daquele modo cauteloso e sorrateiro. Encaminhou-se até ao extremo canto oposto, onde o arco pegava com as casas da esquerda, e resvés com a janela donde surdira a primeira voz.

Sentiu-se então algum rumor debaixo do arco, e um murmurar de voz masculina que dizia:

_ Bem digo eu que a moça é um anjo! É a santa que lhe vem falar: querem ver?

_ Mana, mana! Exclamou de cima do arco o vulto que aí tinha aparecido: não ouviste uma voz de homem aqui por baixo?

_ Não. E, daqui onde eu estou, até lhe veria a sombra, se aí estivesse alguém. Não tenhas medo: toda a vizinhança dorme já; e, a não ser o bispo ou Pêro Cão, não creio que ninguém mais vele em toda a cidade.

_ Logo te lembraram esses fariseus... Que a virgem Maria os confunda, mais a senhora Sant’Ana!

_ Amém! E justiça Del-rei D. Pedro que sobre eles caia!

_ Ai Gertrudinhas! Que se Deus e seus santos me não valem, não sei que será de mim. Justiça Del-rei D. Pedro, dizes tu. E donde há de ela vir a esta terra, onde nem rei nem povo nunca puderam nada contra seus tiranos e opressores?... El-rei, filha, tão longe, e tão fora de eu nunca o poder ver... E os meus inimigos tão poderosos e tão perto... El-rei D. Pedro! O caso que eles fazem dele, e o que lha eles importa com sua justiça e suas leis! Eles sim!... Que nesta cidade mais reis são eles que nenhum rei: dizem os traidores; e dizem-no e fazem-no; e que outro rei farão, em vez dele, se lhe não catar seus privilégios como já fizeram ao bisavô que se chamava...

_ Ao irmão de seu bisavô, queres dizer; el-rei D. Sancho.

_ Pois sim, será; que disso nada sei, nem sou lida e sabida como tu... Também não tenho tio físico que traz anel no dedo e gualdrapa na mula, e anda atrás de el-rei cos alforjes cheios de drogas. Cá eu, sou a pobre mulher de um ourives, que não sei senão governar a minha casa, deitar as minhas teias...

_ E ser o exemplo das mulheres honradas. Que assim foram todas, e já estes clérigos de má morte, mais estes frades trapaceiros não fariam o que fazem.

A resposta de Gertrudes produziu o seu efeito, abrandando o tem picado que visivelmente transparecia na fala antecedente da que, já agora claro se vê, era a sua íntima amiga, a boa Ana, Anicas, ou Aninhas, como ela, pelo engraçado diminutivo minhoto, lhe chamava.

Tornou-lhe a sincera Ana com a primeira suavidade e mavioso acento:

_ Minha querida Gertrudinhas, olha que to digo hoje aqui, na presença da senhora Sant’Ana que nos ouve... E eu que lhe acendo todos os dias a sua alâmpada, que é legado de meu pai, que bem dito o deixou no seu testamento, “que antes faltasse o unto no caldo de sua filha única, do que o azeite na alâmpada do arco da Santa”. E assim vê lá se eu lha acenderei todos os dias ou não! E quando estou doente é meu marido... Coitado! O que será feito dele? Quem no mandou ir lá para Lisboa, a troco de arrecadar essas dívidas que Deus sabe se ele nunca as haverá? Mas para lá foi, e por lá anda; e, com mal um ano da casada, eu cá fiquei só, com o meu Fernando, que já diz “Pai”, a pobre criança!... Mas nunca o pai lho ouviu dizer, nem Deus sabe se ouvirá! Diz-me cá uma coisa negra no coração que não...

E as lágrimas, fio a fio, a correr pelas faces da pobre noiva, que mais interessante e linda a faziam.

E deve de saber o leitor que ela era linda, como eu seguramente creio, e em poucas linhas se verá por quê.

As lágrimas porém da boa Ana, com serem mui sentidas e sinceras, não lhe interromperam o discurso nem por meio segundo; continuou logo:

_ Sim, sim; e bem no digo eu. Tenho coisa cá dentro que me agoura grande mal a mim e aos meus: e não me vem senão daquele bispo, que é a perdição e ruína desta cidade, ele e os seus cônegos e os seus portageiros e os seus archeiros e toda essa gente da Sé.

_ E mete na conta o reverendo padre Fr. João da Arrifana, que é boa peça. Mas não há de ser assim, Aninhas, que Deus nos há de acudir, e a justiça Del-rei D. Pedro.

_ E donde há de ela vir, menina? Não sabes que desde o interdito grande e das excomunhões que houve nesta terra por causa do alvoroto do povo contra a tirania do bispo D. Pedro, e que depois se acordou tudo com el-rei e o papa, nunca mais as justiças Del-rei se quiseram meter com a nossa terra, nem catar-nos foros, nem ser por nós, e nos deixaram à mercê do bispo e da sua gente? Como há de el-rei D. Pedro agora?...

_ Sei tudo isso, sei; mas olha que há de vir quando eles menos o esperarem, com aquela espada na sua real mão, que Deus temperou para destruição de tiranos e avexadores do povo.

_ Que cedo faça Deus esse milagre, Gertrudinhas. Senão, mal estou; que ainda hoje aqui veio o almudeiro do bispo, aquele esconjurado leva-e-traz, que de manhã rouba o povo na casinha da portagem e de tarde faz o ofício do demônio tentador, a desinquietar quanto rapariga e mulher honesta tem o Porto...

_ Para serviço e aumento da igreja de Deus!... Dizem eles.

_ Não, filha, quem tal bispo nos deu... Também!

_ Foi el-rei defunto que cá o pôs. No fim da sua vida faziam dele quanto queriam, principalmente frades e clérigos e gente de guerra, a quem parece que Deus deu este reino por seu... Deus não, que é pecado tal dizer: deu-lho o demo por nossas culpas. Mas que te disse o almudeiro?

_ Esconjurado seja ele! Veio com os mesmos recados do costume: “Que tivesse eu mais juízo e prudência; que fosse onde me diziam, ou desse hora em que o bispo cá viesse; que não escorraçasse a fortuna que à porta me batia... Que meu marido, se eu teimasse, nunca mais o veria; que nas covas dos paços da Sé mo haviam de enterrar vivo, donde sol nem lua veria, e pão e água comeria como um forçado das galés Del-rei”. E trazia-me presentes de ricas pedras e de ouro fino que me lançou no regaço, e teimou tanto até que...

_ Até o que, menina?...

_ Que lhas arremessei à cara com quanta força tinha. E bem arranhada lhe ficou: inda bem!

_ Inda bem, querida Aninhas! E o ladrão do almudeiro?...

_ Fez-se negro de raiva com o insulto; e, sem dizer palavra, começou a ajuntar o que estava pelo chão, pérolas, ouro... Jóias bem lindas eram elas! E meteu tudo nos golpes de saio, e foi-se sem mais Deus te salve do que um sumido Tu mo pagarás, que ia rosnando pela escada abaixo.

_ Tens razão para ter medo, filha; agora o vejo eu: mas ainda lhe havemos de dar remédio.

_ Quem?

_ Eu... Nós, se Deus quiser; nós e a nossa boa fortuna.

_ Nós! Tu com dezesseis anos e eu com vinte, teu tio na corte, meu marido em Lisboa, que havemos nós de fazer, mulheres, sós e sem ninguém?

_ Sem ninguém!

_ Sem ninguém não, que aqui tenho a minha madrinha e padroeira, a minha senhora Sant’Ana.

_ E eu o meu Vasco, que há de fazer o milagre sem ser santo.

_ O teu Vasco! Que se há de ele atrever contra o bispo cujo é?

_ Do bispo ele como eu sou do mouro de Granada. É estudante, mas não quer ser clérigo; e, em tendo idade que lhe não possa pegar o tio, há de ir para Salamanca.

_ As covas de Salamanca! Apelo eu, filha! Bruxo queres o moço?

_ Bruxo! Que bruxo é meu tio, que tantos anos lá esteve, e saiu curando de toda a moléstia e enfermidade com suas drogas e mezinhas? Que por isso anda na corte com el-rei D. Pedro que Deus guarde, e nunca d’ao pé de si fora o quer, que outro físico o não trata!

_ E que há de fazer o teu Vasco no meu apertado caso?

_ Há de partir logo para onde está el-rei D. Pedro, e dar-lhe de tudo parte, que nos valha com a sua justiça, e venha açoitar este malvado bispo, e enforcar os seus cônegos, os seus frades e portageiros.

_ Bem simples sou eu; mas não sou tão simples como tu, Gertrudes. Com que el-rei D. Pedro há de atender a duas pobres raparigas, e sobretudo a uma do povo como eu, para castigar fidalgos e senhores que todo lo podem, e sempre, desde que há sempre, fizeram o que quiseram? E clérigos então! Se eu tal via na nossa terra, dizia que andava o mundo às avessas.

_ Pois hás de ver, hás de ver! – replicou a entusiasta Gertrudes, com um acento que nem a mais exaltada malhada ou setembrista dos nossos dias saberia imitar – com uma firmeza e confiança que a fariam admitir sem mais provas na república de... Em qualquer das repúblicas com que nos mimoseia de vez em quando a polícia para maior glória sua e descanso nosso.

_ Hás de ver – disse ela, - e antes de muito; que ainda há Deus no céu, e justiça na terra; nem há de clamar em vão tanto sangue que brada desses patíbulos, tanto suspiro que sobe à presença divina desses calabouços, tanta lágrima que se chora por essa terra com as violências e maldades dos nossos algozes. Hás de ver el-rei D. Pedro nesta cidade, e os malvados a tremer e a fugir diante dele; mas sem lhes valer fugir, que os há de alcançar a espada de sua justiça.

_ São capazes de lhe resistir, filha, de lhe negar a obediência que lhe devem, de se alevantar contra ele, e desnegá-lo de seu rei e senhor que é.

_ São, são; e de o excomungar também, e apelida-lo de herege ou mouro. Mas tanto pior para eles que mais cru será Pedro Cru com quem assim o ofender.

_ Mas dizem que é tão brando e generoso, tão fácil de perdoar a traidores!

_ É sim,é; mas quem perdoa também cansa; e ele já tem cansado muitas vezes, nem há de esperar agora para mais cansar.

_ Deus te ouvira, querida Gertrudes; que eu muito medo tenho de ir parar às covas dos paços do bispo, e nunca mais...

_ Não hás de, não. E agora vai-te deitar Aninhas, que é tarde. Amanhã saberás boas novas, e que não dormi no teu caso.

_ Adeus, Gertrudes, adeus, querida vizinha! Deus te pague as consolações que me dás: que já tinha morrido de puro desalento sem ti, ou algum mau anjo me tentaria a perder-me... Mas isso não! Isso nem sem ti. Adeus!

_ Adeus!

E, pelo mesmo modo e caminho por que viera, se retirou a sincera Aninhas para o interior de sua casa.

Gertrudes, apenas a viu entrar, tirou um lenço branco e acenou com ele para debaixo do arco.

III

O Senhor Estudante

_ Gertrudes! – disse uma voz de homem, mal reluziu nas trevas o lenço da linda entusiasta.

_ Vasco! – lhe responderam da gelosia.

_ Dorme teu pai? Temos ainda um instante para falar?

_ temos; e precisamos muito. Ouviste a minha conversa com Aninhas?

_ Ouvi.

_ Pois vai-te; e corre a bom correr. Não comas nem bebas, nem tua cabeça descanses, até chegares a el-rei D. Pedro e lhe dizeres o aperto em que estamos. Fala com meu tio: por ele entrarás logo a el-rei. E vai-te, que nem mais uma fala te quero ouvir.

_ Gertrudes, Gertrudinhas, pois assim com esse desapego e desamor! Há três dias que te não vejo, e há boas três horas que aqui estou ao relento a esperar que essa interminável conferência acabasse...

_ E nunca mais me verás se já, já não partes.

_ Vou, vou; e custe o que custar, morra eu na empresa, que lá diz a copla:

Morrer por mi dama,

Morrer, morrerei;

Que viver sem ela

Eu viver não sei.

_ Boa escolheste a hora para versos e coplas, estudante!

_ Estudante, estudante,

Que ponte á aquela?

Minha dama bela

Por ela

Passeia;

E eu, longe dela,

Me estou mofinando

Nestes livros velhos,

Velhos, relhos.

Que os leiam francelhos,

Trebelhos;

Não eu que morro, que me estou finando,

Finando!

Finando e matando

Por quem de meu mal, meu mal vai zombando.

_ Ora acabaste de cantar? (à parte) E que linda voz que ele tem! (alto) Em má hora acabaste! Pois vai já e corre.

_ Corro, corro; assim não corresse comigo a pena de te ver cada dia mais ingrata e desabrida.

_ Requebros? Boa estou para tal!

_ Não estás não. A quem o dizes?... O diacho é a moça. Não há senão obedecer-lhe...

Foi rosnando, e foi subindo a rua acima, andando e olhando para trás, até que sentiu fechar-se a gelosia. Parou, afirmou-se, e dizendo – “Foi-se deveras” – começou a caminhar mais depressa.

_ O diacho é a moça! – continuou depois o nosso estudante, como quem atava, em solilóquio, o diálogo interrompido. – Com aquela carinha de alfenim, aquela figurinha de alcorce, tem uma alma, um coração naquele peito, que se fosse mister de uma Judite... Mas cabeças de bispos não se cortam como as de capitães e generais de exércitos. E então sua Reverência que toma umas cautelas, expõe tais vigias em seus paços namorados, que se a metade tivera o pobre lapuz de Holofernes, nunca judia o mandava em pecado mortal para o outro mundo. Mas deixemo-nos de graças, e vamos ao que é sério. Em boa estou eu metido. Se D. Pedro não é o homem que dizem, a troco de uma moça de mais, cedo me vejo com uma cabeça de menos. Quid nunc, Sr. Estudante? Uma moça de mais, disse eu!... Gertrudes não é das que se contam assim num rol de fieira em que muita gente entra. Se há filha de Eva por quem descende de Adão deva arriscar a vida, é a minha Gertrudes. E o ódio que eu tenho àquele maroto de Pêro Cão, e àquele hipócrita daquele bispo!... Estou resolvido. A eles.

E com esta folha
Por minha dama lo juro,

Que não fica mouro vivo

Nem alcaide nesse muro.

_ Mude mouro em bispo, e fica certa a copla por mais que me digam.

Dizendo isto, e tirando meia espada, como para ver se a tinha pronta e corredia na bainha, foi apressando o passo, no trepar em que ia pelas empinadas ruas daquele íngreme bairro, que a essa hora ainda estavam solitárias e quedas como o resto da cidade.

Deixa-lo seguir o seu caminho; não nos metamos a adivinhar o que se ia revolvendo em seu pensamento em que tão opostas idéias combatiam... Ele estudante, ele valido e protegido do bispo, seu senhor... Ele namorado, ele querido de Gertrudinhas sua dama!... Deixa-lo, deixa-lo e transportemo-nos nós, amigo leitor, para mui diverso, posto que não mui apartado lugar. Façamos, com a rapidez com que em um teatro britânico se faz, a nossa mutação de cena; e deixar gemer as unidades de Aristóteles, que ninguém desta vez lhe acode.

Vamos, daqui da beira do rio, donde te estou escrevendo, leitor benévolo, vamos pelas congostas acima, nome que (em parêntesis seja dito) bem pouco tem de poético e romântico. Passemos o venerável são Crispim, que tão solenemente desmentiu o dito do pagão Horácio – ne suttor ultra crepidam - , e encomendando-nos de passagem à sua benta e milagrosa sovela, deixando à direita as hortas em que séculos depois se abriu a bela rua nova de São João – tornemos a passar pelo nosso primeiro lugar de cena, saudemos, de memória, a devota alâmpada que ardia no milagroso arco, e tomemos Banharia acima.

Cá estamos junto á veneranda estátua do velho Porto que, rodeado de assopradas tripas, olha, como de próprio trono, para sobre os domínios de sua jurisdição. Não tinha ainda, naquele tempo, iconoclástica brocha ousado assarapantar de vulgar e rabujenta oca, nem arrebicar de crasso vermelhão aquele primor do cinzel portuense, que então resplandecia em toda a nitidez do primitivo granito. Cometamos pois o desculpável anacronismo, se o é, de saudar o respeitável emblema da nossa ilustre cidade, e vamos direitinhos, sem mais cumprimento nem mesura, aos paços da Sé, ou paços do bispo, como hoje se diz e talvez então se dissesse já. Creio que dizia. O precioso manuscrito donde tiro esta verdadeira história lê “paços do bispo”: na sua fé vá como ele quer.

E bem pudera eu agora, amigo leitor, fazer-te aqui pomposa resenha dos pergaminhos que revolvi no cartório da nossa câmara, do censual do cabido cuja letra quadrada soletrei, e dar-te mil outras provas de fácil erudição com que te secaria de morte, sem nenhum proveito meu nem teu, e o que mais é, da nossa história. Contenta-te pois, assim como eu me contento, com a autoridade irrefragável do nosso manuscrito. E que se livre alguém de o atacar, por que já temos apalavradas para uma tremenda defesa as eruditas colunas de três jornais literários que ninguém lê, e de outros tantos jornais políticos que todos lêem – quando lhes faz conta.

Que não era o paço do bispo do Porto no tempo de el-rei D. Pedro em que isto se passa, o que hoje é no tempo do duque D. Pedro em que se conta, já o leitor está esperando ouvir. E mais esperará ele decerto, que é uma descrição, em todas as regras d’arte, do palácio como ele era, com uma sapiente dissertação sobre os diversos gêneros de arquitetura gótica, a algum dos quais forçosamente havia de pertencer – que é gótico por força todo o palácio de romance ou novela antiga – inda que o construíssem os Abencerrages de Granada ou el-rei a Almansor de Vila-Nova. Mais em questão incidente sobre o florido e o misto, e o canelado das colunas, o lavrado dos capitéis, e outras coisas de igual interesse e aproveitamento...

Mas frustrada, por não dizer desapontada, já que tanto mo criticam, ficará a esperança do amável leitor; porque eu, sem reparar na arquitetura do paço episcopal, vou entrando por ele dentro, tão sem cerimônia e com tanta pressa como por ele fora saiu o outro dia o pobre bispo João, a quem saudades dos seus livros matarão decerto... Coitado do pobre velho! E coitados dos pobres livros!...

Contentando-me pois de dizer que a residência pontifical da Sede portugalense ainda conservava importantes restos da antiga fortaleza sueva que já fora, e que bem lhe cumpria aos bispos manter pelo estado de guerra em que há tantos anos andavam com o povo da sua boa cidade, subamos a escada, entremos na sala vaga ou sala dos homens d’armas... E espreitemos àquela porta donde se ouve um rumor de vozes abafado e indistinto.

IV

Os Paços do Bispo

A porta é no fim da câmara, uma tremenda porta de castanho já quase negro e defumado, toda repregada de cravos de ferro de cabeça pontiaguda, que a ouriçam como de espinhos, e lhe dão um aspecto melancólico e terrível. E mais terrível a faz ainda a atlética figura de um homem de armas, que a está guardando de morrião na cabeça, e na mão a meia lança que diziam ascuma ou azevã: valha a verdade!

Por sobre uns bancos rudemente lavrados de escultura sueva, ou mais bárbara ainda, se é possível conceber coisa mais bárbara, jazem meio dormidos, meio sopitos da pesada fadiga da ociosidade, os beneméritos defensores do trono e do altar... Desse tempo – que são os mesmos de agora – as saias pretas do prête ou padre, e os vermelhos saios do saião-soldado. Mais, um ou dois frades garraios cuja pouca importância os não deixava passar da antecâmara episcopal, e cuja estada ali denotava o que hoje denota a presença de uma ordenança em qualquer antecâmara ou portão; isto é, que se acha dentro a importante personagem a quem está de ordens.

Rumor de passos à entrada... Quem será? É o nosso próprio estudante de inda agora. Por aqui ele a estas horas! Vejamos o que faz.

De uma vista de olhos, Vasco percorreu todo o largo aposento; e, como quem trilhava sítios conhecidos e costumados, foi direito à formidável porta do topo da sala.

_ Boas noites vos dê Deus, Rui Vaz! – disse Vasco ao homem d’armas, que, por esta saudação e pelo ar familiar com que ela foi recebida, mostrava ser conhecido velho.

_ Bem vindo sejais, Sr. Vasco... E mais devia de dizer D. Vasco; mas não tarda que vem.

_ Com essas coisas vindes sempre, Rui. E, por minha vida que não entendo vossos meios dizeres e palavras surdas! Não falareis claro um dia, homem?

_ Assim Deus fale à minha alma como eu falarei claro e alto, e boa verdade, em havendo quem me solte a língua. Mas por ora está mais seca e perra que essa negra porta.

Dizendo isso, apontou com um gesto significativo para a tremenda janua inferi a que estava de guarda, benzeu-se, e continuou:

_ Mas não nos ouçam eles, Sr. Vasco! Estas não são paredes para se lhes contarem segredos. Vindes cedo hoje.

_ Cedo demais sempre eu venho. Quem está cá?

_ Quem há de estar? Vosso tio Frei João, os outros amigos, e aquele grande cachorro de Pêro Cão: os do costume, os do costume.

_ Posso entrar? Não há ordem nenhuma de novo?

_ Nenhuma.

_ Então adeus, Rui Vaz, que tenho pressa: vou-me lá dentro.

_ Olhai, Vasco, mancebo; quereis um conselho? Sabeis que sou vosso amigo deveras, que vos tendes sempre dado bem com os meus avisos... Tomai o que ora vos dou: não vades lá dentro.

_ Por quê?

_ Porque...

E deitando a mão ao estudante, chegou-o ao pé de si o archeiro; e ao ouvido, abaixando a voz, continuou:

_ Porque se faz hoje ali alguma maldade muito grande... Adivinha-mo o coração, leio-lho nas caras, que andam com um sorriso diabólico... E tão aforismados todos! Alguma traça infernal andam tecendo.

_ Bem sei que andam; e por isso cá venho.

_ Vós!

_ Eu... Para lha desfazer.

_ Criança!

_ Nem tão criança que... Adeus, Rui Vaz: até logo, que já volto.

E não esperou mais; e, deixando o bom do homem d’armas à sua porta grande, foi-se, como quem sabia os cantos da casa, a uma portinha pequena que estava meia encoberta a um lado, e que mal distinguiria da parede quem não estivesse na posse e uso das petites entrées do paço episcopal.

V

Vasco

Vasco tinha os seus dezenove anos, e há cinco que estava no Porto – para cônego dizia o tio em cujo poder estava – para ir depois a Salamanca e ser físico, dizia ele. O seu grande desejo, as suas aspirações de glória eram vir a ser o sucessor daquele tipo, como ele o cria, de toda a ciência humana, Mestre Simão, o físico Del-rei.

A sotaina de Mestre Simão, as gualdrapas da mula de Mestre Simão... E a sobrinha de Mestre Simão, a bela e espirituosa Gertrudinhas, eram todos os seus enlevos.

_ Se eu chego a levar com a borla amarela, - dizia ele nos seus sonhos de ambição – estou um homem estabelecido, caso com Gertrudinhas; toma-me o tio para seu ajudante, deito logo mula com gualdrapa, ando atrás Del-rei, porque ando atrás de Mestre Simão... E todos a perguntar logo: Quem é este físico tão moço que vai no cortejo Del-rei? – É Mestre Vasco, o sobrinho de Mestre Simão que casou com a bela Gertrudinhas do arco de Sant’Ana...

Ora o tio – não este tio futuro, porém o tio presente – deitava-lhe outras contas muito diversas: queria-o ordenado, e cônego prebendado da santa Sé episcopal do Porto: e tinha suas boas razões o tio.

Era este não menor pessoa e personagem que Fr. João da Arrifana, um franciscano gordo, espadaúdo, pessoa de grande autoridade e influência na ordem, e fora da ordem, não por suas letras, que eram gordas como ele, mas por tretas, que tais as tinha e tantas que os cronistas modernos da Seráfica lhe chamam o Passarola do século XIV.

Era além disso Fr. João da Arrifana... Mas não cansemos o pincel a retratar nem este nem os outros importantes caracteres da nossa história: deixemo-los daguerreotiparem-se aos olhos mesmos do leitor, e à luz de seus próprios ditos e gestos, segundo lhos vamos contando.

Do nosso estudante falemos um pouco mais. Estudante era ele; e quem dizia estudante naquelas eras, quase que dizia clérigo, que andava pelo mesmo. O seu trajar era meio da igreja, meio de secular, e participava da natureza indecisa ainda de sua profissão. Mais forte em esgrimir, em manejar a besta, em andar à gineta e em todos os exercícios de cavaleiro, não lhe faltava todavia certa instrução, nem desaproveitara inteiramente o tempo que assaz constrangido – confessemos a verdade – tinha dado e continuava a dar à escola de Paio Guterres, o arcediago de Oliveira, famoso escolar daqueles tempos, cujo valido era o diabrete do rapaz, apesar de sua pouca e intermitente aplicação.

Digo intermitente, porque tinha semanas inteiras de ser o melhor estudante e o mais aplicado de quantos entravam nos claustros da Sé, e ora queria ser físico e ser doutor, ora ser cônego e até ser papa, se possível fosse. Mas de repente dava-lhe a veneta e jurava por São Barrabás que ou havia de ganhar as esporas de ouro e o cinto de cavaleiro, ou então queria antes ser homem de ofício, burguês pançudo e massudo – que assim melhor o deixariam casar com Gertrudinhas, que, no fim de contas, era a única idéia fixa ou semifixa de seu móbil espírito.

Como todos os caracteres veementes, em que o sentimento domina muito mais que o pensamento, Vasco não andava senão pelos extremos. A sua ambição saltava em ziguezague das dintições aristocráticas para a ilustração literária, daí para a popularidade; e tão depressa aspirava a ser conde ou rico-homem, bispo, físico ou doutor, como a erguer-se em caudilho das turbas, tribuno de comunais, e a abater com a foice revolucionária todas essas mesmas preeminências que mais o seduziam.

Neste ponto da nossa história a mania dominante era, como disse, a de ser físico, e obter assim a mão de Gertrudinhas. Mas Gertrudinhas era sobretudo patriota, partidária Del-rei D. Pedro, inimiga portanto do bispo; e o pobre Vasco, o melhor coração de rapaz que jamais se viu entalado em tais apertos, era todo ele homem do bispo, seu dependente e seu protegido.

Andava aflito o bom do mancebo, coitado!

Diziam que em seus apuros e dificuldades ele tinha sempre valedor seguro em não sei que misteriosa proteção que sob diferentes formas lhe aparecia.

O que quer que era, era da outra banda do rio, nos tortuosos becos de Gaia que ele o ia buscar.

Mas quem, mas como, mas o que era?

Sigamos por agora ao interior dos paços episcopais, por onde ele se sumiu.

VI

Palestra de Moral

Disse que o nosso estudante se sumira da antecâmara do bispo por uma portinha escusa; mas não disse ainda onde essa portinha ia ter. Vamos a isso. Entrou Vasco pela dita porta, fechou-a cautelosamente, e foi, em pés de lã, por um corredor estreito e escuro, andando sem apalpar, como homem que o conhecia de há muito, e parou ao pé de outra porta de donde se ouviam distintamente vozes claras e como de quem ou não resguardava o segredo, ou estava seguro de não ser ouvido.

Dizia uma delas:

_ Assim nos ajude nosso seráfico padre, e a abundância da colheita nas comarcas do Sul de ânimo à caridade dos fiéis, para nos chegar ao convento alguma coisa melhor que este vinho verde que por cá temos, e que, a dizer a verdade, nem a minha goela franciscana pode com ele...

_ E que dizeis a este, meu padre?

E sentiu-se um som como de vinho que se emborca do pichel no copo.

_ Deste rara vez se bebe nos tinelos dos bispos, que são prelados seculares e príncipes da igreja...Quanto mais no refeitório de pobres frades! Mas, dizia eu que assim me acudisse aquela benção do céu, como é verdade o que vos contava, meu santo e generoso prelado. El-rei saiu de Coimbra há dois dias e vem caminho do Porto.

_ Sabemos o contrário, venerável irmão, por cartas que de lá nos mandaram ainda hoje: el-rei saiu a montear, tomou o caminho do campo, e não virá por agora à nossa boa cidade. Mas que viesse... Pouco se me dava.

_ Inda assim!

_ Pouco se me dava por ele e pelo seu poder. Tão senhor sou em meu feudo como ele em seu reino. Mas verdade seja, melhor é que se deixe estar lá. É assaz mexeriqueiro o nosso senhor e rei e intrometido em vidas alheias... E este rapaz, este Vasco dá-me que entender. Não sei o que ele traz na cabeça; mas boa coisa não é. Já não folga nem brinca tanto, nem quer ir ao monte, nem me estafa quantos cavalos tenho, como dantes fazia... Esta maldita bruxa de Gaia... Se ela lhe terá dito? Mas é impossível. Bem mal fiz não a queimar numa boa fogueira...

_ Vós, senhor, faríeis queimar a bruxa de Gaia?

_ E por que não? Se não fora aquele excomungado de Paio Guterres... Mas tenho medo dele, confesso. Se foi o hipócrita quem me perdeu o rapaz? Ah! Que se tal venho a crer...

_ Vasco não sabe nada, senhor: descansai e deixai o mancebo comigo.

_ Sois o meu braço direito, Fr. João. O esquerdo é este gentil pagem, meu almudeiro. Olá, Pêro Cão, está tudo pronto, homem? Fiel e zeloso rafeiro, entra esta noite no redil a ovelha bravia e alfeira que recusa nossos pastorais afagos e cuidados?

_ Tudo está pronto, meu senhor: e vão sendo horas.

_ Então, primeiro a obrigação que a devoção.

Ouviu-se rumor e tropeada, como de umas poucas de pessoas que ao mesmo tempo se levantam e põem em movimento. Vasco não esperou mais; provavelmente tinha escutado quanto queria: bateu três pancadas à porta por certo modo misterioso que parecia de sinal dado. Imediatamente cessou o reboliço, e uma voz sobressaltada exclamou:

_ Oh! É Vasco.

E abriu-se a porta. Vasco entrou.

_ Seja bem-vindo o Sr. Estudante! Já cuidava que o não veríamos hoje. Faz-se desejado nesta casa o nosso futuro cônego.

E caminhou para ele o bispo, que assim dizia, com uma expressão de contentamento em todo o rosto, que bem mostrava a particular afeição que lhe tinha.

Vasco, segundo usam de fazer rapazes estragados do mimo, deu pouca atenção àquelas demonstrações; e, sem responder à alta personagem eclesiástica que assim se dignava festeja-lo, nem fazer caso dos que o rodeavam, chegando-se à mesa:

_ Oh! A ceia foi esplêndida hoje. Se estarão quentes ainda, que se comam, estes pastéis?

E sentou-se, sem mais cerimônia, em uma das ponderosas cadeiras que estavam à roda da mesa; e começou a tasquinhar naquelas preciosas tortas e covilhetes de picado que ainda hoje são a glória dos pasteleiros da “cidade eterna”, e cuja veneranda origem, por esta mui verídica história se vem agora a descobrir, foi nada menos que de invenção episcopal.

Bem o desconfiava eu: que tão bom bocado – e realmente é uma das melhores e mais saborosas gulosinas que nesta boa terra de Portugal se comem! – devia de ter sido inventada pela sapiência culinária de algum grande homem dos bons tempos da monarquia.

Aqui se hão de rir decerto os nossos estrangeirados, estes viajantes do Palais Royal que diante das vidraças de Mme. Chevet estiveram embasbacados a papar moscas, jurando que não havia mais Índia que aquela... mas, feito o juramento, iam jantar por vinte soldos um arlequim requentado de segunda mão...

Pois saibam, meus desdenhosos e elegantes senhores, que eu já comi jantares feitos por M. Pigeon, o Paracelso de Restauração, que, por sua maravilhosa alquimia, dominou bons seis anos o mundo, de entre os fogões de M. De Villele. Tive sem, a honra de adorar no seu ocaso essa estrela flamejante da gastronomia e da política: admirei o novo Watel, maior e melhor diplomático do que o antigo... E todavia não esteve no poder da sua arte fazer-me esquecer os caseiros e modestos pastéis da minha terra...

Está-me parecendo que sou um grande pateta.

Tornemos à nossa história.

O moço comia desenfastiadamente como naquela feliz idade se come; e o bispo, com o riso na boca e nos olhos, o contemplava em grande complacência.

_ Abusais um tanto, Vasco – disse um frade gordo e vermelho que não parecia ver a familiaridade do mancebo com a mesma indulgência excessiva: - abusais um tanto, Vasco, das bondades do nosso santo prelado para convosco.

_ À vossa saúde, tio Fr. João!

E, com duas gargalaçadas do pichel no copo, o encheu a derramar: daí, empinou o possante vaso a mais de meio, e, dando aquele estalido com a língua no céu da boca, que os ingleses, por mui feliz onomatopéia, chamam smak, disse pausadamente o Sr. Estudante:

_ Bom vinho! Se o haverá tão maduro e tão cereal em Salamanca?

_ Não quero ouvir falar mais em Salamanca – atalhou o bispo de mau humor. – Não irás lá, por minha vida! Que nem eu nem teu tio damos licença. Para um bom e honrado cônego te queremos... que não é para sangrador de mulas e vilões, quem vem do teu sangue.

_ Ah! Com que assim venho eu de um sangue que?... E os rapazes do coro aqui na Sé que me motejam de filho das ervas... de um que se não sabe de donde veio! Bem: saibamos pois, quem é a minha grande fidalga pessoa.

O bispo, que visivelmente se deixara levar da paixão a dizer mais do que queria, cuidou em se retirar com melhor ordem do que avançara:

_ Bem sabeis que vos sofro muitas demasias, Vasco; e que de mim fazeis quanto quereis... Menos numa coisa será: estais para clérigo, clérigo sereis, e cônego prebendado na nossa santa Sé, com a mercê de Deus. Levareis vida folgada e solta, que felizmente já lá vai o tempo da igreja militante... e ainda bem! Nós os de hoje somos de triunfante. É a vontade de vosso tio Fr. João a quem vossa mãe à hora da morte vos encomendou, Vasco... e é a minha, porque vosso pai foi um nobre senhor de Riba Dão... o maior amigo que nunca tive... lá ficou em Tarifa das lançadas dos mouros... e... e...

_ E tudo será assim. Mas, senhor meu tio, e senhor meu bispo, o caso é que eu estou guapamente ceado; e agora, tenho uns mancebos, meus particulares amigos e matalotes, que moram para Val-de-Amores, guapos companheiros que estão à minha espera para irmos de além Douro esperar as rolas bem cedo nos pinhais... E eu não tenho nem maravedi que levar na bolsa, nem cavalo que me leve a mim. E se não hei de pensar mais em Salamanca, ao menos...

_ Pêro Cão, dai três doblas a este mau filho, já que assim o querem não sei que maus feitiços que me ele deu... E dizei que lhe aparelhem os estribeiros aquele alazão que me mandou de Cuenca meu venerável irmão. É a mais linda estampa e os mais seguros quatro pés de cavalo que quero que haja em toda a Espanha.

_ Jube, domine, benedicere! – disse em tom e corda coral, o maganão de Vasco, pondo as mãos e inclinando-se ao prelado com ridícula gravidade, como clérigo em coro antes de ir cantar sua lição.

_ Birbante!

_ viva o meu santo prelado! E venha a benção, que já não falta mais nada. E dois trincos para Salamanca e para as suas covas, que não há mais alquimia que esta. Seráfico tio, encomendo-me às vossas penitentes orações. E vós vinde Pêro Cão, que não posso aguardar mais: vamos.

_ Que cavalos são aqueles?

Que além ouço relinchar?

Vossos são, dom cavaleiro,

Que se enfadam de esperar.

E com esta cantarola, partiu empurrando diante de si a mal-azada figura de Pêro Cão, o almudeiro do bispo, que também cumulava as duas altas dignidades e carregos de seu mordomo ostensivo e de seu mercúrio secreto.

Pêro Cão ria contrafeito, que não queria bem ao rapaz; mas voltava a desdentada boca para o bispo, para que ele o visse rir... Rir daquele alvar riso mau dos tolos velhacos – que é o mais detestável riso que há na natureza.

P pouco austero prelado, esse ria de gosto e deveras; e seguindo com os olhos o mancebo:

_ Dá-lhe rédea ao alazão, rapaz, e não o piques, que é de sangue generoso, não sofre castigo. E espera, Vasco, filho: que te dêem da armaria a melhor besta de garrucha que lá houver... a própria com que eu fui às caçadas Del-rei quando...

Mas já o não ouvia o rapaz, que se fora correndo, se bem correra, com Pêro Cão agarrado, e como quem não podia sofrer mais delongas.

_ Bem se vê o sangue que tem! Montear e cavalgar é o seu deleite. Havemos de fazer dele um bom cônego... E agora, amigos e fiéis meus, cada qual aa seus cuidados!... Inda bem que o rapaz teve esta vontadinha de se ir ao monte tão a propósito e de feição: escusamos de o ter por aqui nesta conjuntura...

_ Parece-me, se me dais liberdade, que o deixais senhorear-se demais de vossa afeição, e que lhe não podereis ir à mão quando quiserdes.

_ Não tenhais medo; a raça é boa, e há de acudir por quem é. Asperezas, nem ele as suportava nem as podíamos nós ter com ele. Cuidais que é possível fingir com aquela criança? Conhece-nos por dentro e por fora... Intus et in cute: creio eu que é o latim da sentença, se ainda bem em lembra do meu pobre latim... Boas noites, reverendo irmão. Amanhã conversaremos mais de espaço.

VII

O Alazão

Com suas doblas na algibeira, boas doblas de D. Pedro, que era o melhor e mais leal dinheiro de ouro que nesta terra se cunhou até aos tempos verdadeiramente dourados das dobras e dobrões de D. João V, chegou Vasco às cavalharices episcopais acompanhado do relutante Pêro Cão:

_ Onde está, aonde está ele, este querido alazão?

E sem esperar resposta, foi, por entre muares e cavalares, procurando o apetecido e gabado ginete que lhe tardava de sentir já entre os joelhos a devorar com ele o espaço...

_ Ei-lo aqui, ei-lo aqui!... – E deitou-se aos peitos do generoso animal que parecia entender e responder aos afagos do mancebo, relinchando com simpática inteligência, como por esse magnetismo animal que estabelece aquela inexplicável, mas inquestionável correspondência entre as afinidades de duas naturezas semelhantes.

Atrevidos, generosos ambos, atuados ambos pelo vago desejo de se lançar ao incomensurável espaço, imprudentes, desprevenidos, o jovem cavaleiro e o jovem cavalo sentiam que eram feitos um para o outro, que a um e a outro os chamava o palpitante interesse de correr impensadas aventuras.

Selaram, embridaram o cavalo, que os cavaleriços pasmavam de ver tão manso. Vasco ficou de um pulo sobre ele, tão consubstanciadas as duas formas e naturezas como se as duas partes de um antigo centauro, que estivessem divididas, se tornassem a reunir para viveram sua vida natural e primitiva.

Partiram trotando largo e seguro por aqueles despenhadeiros escorregadios e mal calçados que nossos avós, de tão bom contento, tinham a indulgência de chamar ruas.

Vasco tomou pelo arco da Vandoma, onde os Gascos e seu bispo Nonego colocaram a milagrosa imagem da Virgem, proteção e armas de nossa cidade; veio sair ao que hoje é de São Sebastião, e daí outra vez rua de Sant’Ana abaixo. Parou junto desse arco, viu erguer-se logo um postigo de gelosia, e ouviu que lhe diziam em voz baixa mas clara:

_ Bem. Correr sempre! Agora nem mais palavra.

E viu um lenço branco que lhe acenava. O lenço deixou-se cair: colheu-o no ar, beijou-o com devoção, e o meteu nas pregas do seio. A gelosia fechou-se, e ele partiu.

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