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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

E Meu Pai?: Conspiração e Programa: Gertrudes: Briolanja

_ O que sou eu?

_ Hoje és um homem: o teu falar é de homem. Ontem eras uma criança. Que revolução se fez no teu espírito! Bendito seja Deus que me deixou ver este dia. Mas vi-o, ouço-te e vejo-te. Inda bem! Estás um homem. Acabaram-se as levezas e as leviandades de rapaz, entraste sério na vida. Já me não importa morrer. Nem morrerei, não... (que-lo Deus assim, bem o sei) enquanto o meu filho, o filho de meu coração...

_ Mulher, mulher, e sou eu teu filho? Sou eu esse filho por quem tanto tens padecido e chorado, por quem tens levado essa vida de martírios, incrível de abnegação e paciência que me tens contado? Prova-mo, prova-mo, e não hesito mais um instante, fecharei os olhos e correrei cegamente aonde me mandas.

_ Oh filho, filho, quem, se não fora mãe, faria o que eu tenho feito, sofreria o que eu tenho sofrido?

Vasco deu um profundo suspiro, os olhos que levantou para o céu, ao arranca-lo do íntimo peito, lhe descaíram desanimadamente no chão tristes e mortais.

_ Tua mãe sou, Vasco. Destas entranhas nascestes, estes peitos te criaram. Olha, olha bem para mim, filho, que para tua mãe olhas! Não te de asco esta miséria, não tenhas vergonha destes farrapos. Eram ricas telas, eram sedas e ouro, eram finas holandas as que me vestiam quando tu vieste ao mundo, filho. E nenhuma dama da corte, das mais soberbas e preciosas, as vestia assim; nem houve infante de Portugal ou Castela que fosse envolvido em tão ricos panos em seu berço, como tu foste, meu Vasco, meu só amor e minha vida, porque outros não os tive, outra vida não a gozei, outro amor não cri nem o quis. Deu-me o demônio em má hora a um homem... a um monstro que me perdeu... Mas não o amei, santo Deus! Não; nem me amou ele. Duas vezes me reputariam a infame e perdida que sou, se o meu coração tivesse sido cúmplice nas vilezas de meu corpo e na desonra de meu nome. Ai filho! A minha pobreza não é falta de ouro, nem a minha velhice sobejidão de anos. Terás ouvido nomear o sábio e opulento rabi de Leiria, Abraão Zacuto. Sua filha sou; e tu és neto do mais rico e venerado homem que houve nas nossas Espanhas pela ciência do grande Avicena, que ele igualou, se não excedeu e aperfeiçoou em muitos pontos. Reis e príncipes lhe requeriam por grande favor sua amizade; e derramavam a seus pés tesouros e mercês para obterem uma visita, uma palavra do grande homem...

_ Judeu sou então?

_ És hebreu por tua mãe: do mais nobre sangue de minha tribo: nobreza já velha e incontestada quando os avós desses fidalguetes que aí vão tão soberbos de seus brasões de há três dias, desse que mais presumem de seu puro sangue godo – seus avós selvagens e brutos andavam meios nus pelas matas e tremedais da Alemanha, comendo estreme a glande de suas enzinhas, devorando crua a carne de seus cavalos, e adorando um cepo ou uma pedra por seu deus. Nobres os miseráveis! Fidalgos, filhos de algo, de alguém! De quem? O derradeiro da minha tribo tem mais nobre sangue que os seus reis.

_ Mas eles reinam, e nós servimos.

_ Nós fingimos servir. Mas reinamos sobre eles pela inteligência, pela indústria, pela riqueza do saber e pela riqueza do haver. A quem vem pedir o ouro que desperdiçam por sua indolência, e por mesquinho orgulho não sabem granjear nem fazer produzir? A nós, aos nossos negociantes. Eles tem a força bruta, porque brutos são: nós a que a domina, a da ciência, a da riqueza, que em séculos e séculos por vir não passará tão cedo para eles que a desconhecem e a desprezam. Assim fora a da beleza! Mas oh! A da beleza... Essa no-la roubam eles, e se apossam dela misturando-se com a nossa raça abençoada... Que, onde vires fuzilar uns olhos, brilhar um rosto, onde vires graça, gentileza e garbo entre as mulheres dessa gente, crê que aí anda sangue nosso, ou de nossos irmãos por Ismael, os mouros que eles perseguem como nos perseguem a nós. O que vale um homem, uma mulher de Espanha, pelo que tem de árabe o vale, ou lhe venha do mouro ou do judeu. E eles dizem – mouro! E – judeu! Com desdém e desprezo, os monstros, os bárbaros... Que ódio tenho a esta gente vil! Ódio, cegueira de rancor profundo, imenso, que todo concentrei sobre uma cabeça votada, execranda, em que hei de descarrega-lo como golpe de raio que a aniquile, e desparza suas torpes cinzas pela superfície das terras. Que passe o viajante e diga: “Já o não vi”. Que o peregrino pergunte: “Onde está ele?” E ninguém lhe saiba responder.

_ Mas esse homem que tanto odeias e em quem concentraste todo o teu rancor à raça cristã, por que é que o detestas? E por que estou eu em seu poder? Como me deixaste criar a seu bafo? Por que sou eu de sua religião? Por que adoro nos altares em que ele ministra? Como me deixaste crer no Deus que é seu Deus, viver em sua lei que para mim é santa? Enfim para que deixaste fazer de mim o homem que hoje sou, se tão diferente, tão estranho me querias, se tão outro me precisavam as tuas vinganças?

_ Assim te queria, e assim te preciso. Como és, devias ser. O neto de Abraão Zacuto, manejando as drogas e os simples, podia, servindo uma obscura vingança, meter nas veias do cruel algoz de tua mãe os mais sutis e enfeitiçados venenos da Frigia. Mas para essa vingança bastava eu, se ela me bastasse a mim. Não a quis. Quero-a nobre, alta e clara, de perpétua desonra e ignomínia para o criminoso, de ostentosa reparação para a vítima. Um nobre infanção, como eles dizem, um jovem fidalgo, segundo a crença deles, vestido assim, assim colocado no mundo, é o que devia ser o meu filho para me vingar. E assim és, e assim me vingarás. Por esse homem me veio todo o mal, toda a desonra: por suas infâmias e violências fui obrigada a fugir da casa de meus pais; a dar-me por morta para que eles não morressem de vergonha sabendo-me viva; a esmolar pelas portas o pão da miséria; a servir, como escrava, nos mais baixos e vis misteres; a separar-me de ti, de ti, meu filho, minha única vida e meu só amor; a ter de seguir-te disfarçada nestes farrapos; a ver-te de longe sem ousar mostrar-me, tremendo sempre que me descobrissem como se eu fora a maior criminosa da terra. Filho, filho, dezoito anos padeci o que ainda ninguém padeceu; e dezoito anos tenho vivido a suspirar, tremendo, por este dia em que te abro meus braços descarnados e te suplico, filho, filho de minhas entranhas, um primeiro – mas que seja o derradeiro – abraço... Ao! Um abraço a tua mãe...

A bruxa, a torpe e asquerosa velha desaparecera: uma mulher bela ainda, no vigor da idade, que não podia passar muito de quarenta anos, descarnada mas fortemente constituída, um perfil de Agar no deserto, os olhos rutilantes, a boca entreaberta, os dentes alvíssimos, a figura ereta e nobre – tal estava a mãe de Vasco, a mãe que o reclamava, que o atraía, o fascinava, e em cujos braços o mancebo se lançou clamando:

_ Mãe, mãe! Oh! Tu és minha mãe, porque eu te quero e o meu coração vai para ti, mãe.

Abraçaram-se, abraçaram-se num longo e estreito abraço.

O céu tinha-se toldado no entanto, a pouca luz que havia na obscura estância desaparecera, o fogo na lareira amortecia.Só os relâmpagos da trovoada, que bramia nos ares, metiam, de vez em quando, por uma estreita fresta de alto, uns clarões amarelos que deixavam depois ainda mais cerradas as trevas feias que ali reinavam. Sem vento, a chuva caía perpendicular, teimosa, esparralhada, sobre o teto mal-escoante da casa, por onde, em pouco, se infiltrava, e caía pinga a pinga, avivando aqui e ali o verde lustroso das ramas de pinheiro que tapeçavam o chão.

XXI

E Meu Pai?

Foi longo o abraço, estreito e longo, acompanhado dos soluços e das lágrimas da pobre mãe, que enfim o tinha li para si todo aquele filho, que o chamava pelo querido nome de filho e se revolvia à vontade na fartura dessas almejadas delícias que ainda lhe parecia impossível serem todas suas.

Não estavam secos os olhos de Vasco, nem batia menos apressado o seu coração; mas nele não era, não podia ser único e exclusivo o sentimento que dominava o da mãe. Tantos pensamentos, tantas recordações encontradas lho combatiam. Aquela mulher era sua mãe: não o duvidava já. Durante anos a vira, a sentira como a sua sombra que por toda a parte o seguia. Em suas pequenas dificuldades da vida de mancebo, ela de repente, e como se bastara o pensamento para a chamar, ela lhe aparecia pronta sempre e fosse onde fosse com o aviso importante, com a informação necessária, com o dinheiro desejado. De onde e como o havia ela? Não sabe. Mas desde o primeiro dia que, pequenino ainda, fora à escola de Paio Guterres, o bom arcediago de Oliveira, lhe aparecera essa velha, e o acariciara, e lhe dera sempre bonitos, prendas, quando ele queria e desejava, recomendando-lhe muito o segredo, que o rapaz guardava de todos escrupulosamente. Queria muito à velha, mas tinha medo e terror dela ao mesmo tempo, porque ela tinha fama de bruxa, era a “Bruxa de Gaia” que todos lhe chamavam: o nome de Guiomar, se esse era o seu deveras, até poucos lho sabiam. Sua mãe será, sua mãe é; não o duvida pois já agora. Fizeram-lhe sempre mistério de seu nascimento os que o criaram; mais fácil lhe foi portanto aceitar esta explicação que achava eco nas simpatias de sua alma, na poderosa voz de seu sangue... Sangue que é judeu... Todos os preconceitos da educação se lhe rebelavam com a idéia. E sofre, e pesa-lhe da mãe que achou... Mas ela quer-lhe, ela ama-o tanto!... Ela é tão feliz de lhe chamar filho!

Que ódio porém tem essa mulher ao bispo que o criou, e como a filho o trata também? Ódio que a seu jovem coração tem sempre querido fazer passar por quantos modos pode, mas em vão sempre. Os erros, os vícios, os crimes do prelado, bem os conhece e os detesta Vasco, mas a ele não pode. Entusiasta na causa popular, que é a da sua Gertrudes, quisera ser o tribuno audaz, o valente caudilho que à frente do povo do Porto triunfasse da tirania sacerdotal, estabelecesse o livre regime da “comuna” na sua querida terra do Porto. Para isso andava em negociações e conspirações com burgueses e populares, para isso tinha ido ter com el-rei e se fizera homem seu. Se com isso se contentassem as vinganças da mãe, estava pronto a dar sangue e vida por elas. O senhorio, o domínio, o direito e poder de oprimir e fazer mal, não hesitava, era justo, era nobre querer tira-lo a esse mau bispo. Mas tocar em um cabelo de sua cabeça... Jamais. Nem o ódio da mãe, nem o empenho da amante, nem o recente desacato de Aninhas – de que já Rui Vaz o informara – nada podia faze-lo detestar o homem que para ele, só para ele, sempre fora bom, generoso, indulgente, carinhoso como um pai.

Chegara a pensar alguma vez se com efeito seria ele seu pai e que lho encobrissem. Mas porque era tão comum naqueles tempos terem e manterem publicamente seus filhos os mais respeitados dignitários eclesiásticos, era tão vulgar e recebido esse costume, que se não podia crer do pouco austero bispo do Porto, - o que furtava, sem cerimônia nem escrúpulo, as mulheres e as filhas aos seus burgueses – lhe desse agora para estar com esses recatos e hipocrisias a respeito de um filho de dezoito anos, que antes de ser bispo, quando ainda secular e cavaleiro, podia ter havido, porque há menos que isso tinha entrado em ordens e fora sagrado bispo.

Que lhe era ele pois? Por que assim lhe queria, e por que assim o detestava a mulher que era sua mãe, e que tamanhas injúrias dizia ter dele?

Esses mistérios confundiam, estas considerações lhe andavam de tropel no espírito; e agora, passada a primeira explosão do afeto filial, o tinham insensivelmente feito cair nem abatimento de tristeza que mal podia dissimular.

Estavam mãe e filho sentados nem escabelo ao pé do lar; a mãe sem tirar os olhos dele, ele com os olhos no lume quase apagado, e nas cinzas brancas raiadas de algum brasido tênue que ainda avermelhava por entre elas.

O tremendo estampido de um trovão que pareceu estalar sobre o teto mesmo da casa, o tirou daquela distração.

_ Que tempestade vai no céu, minha mãe!

_ Maiores me tem esbravejado no coração, filho. Ah! Tu não sabes!...

_ E tu vives neste pardeiro, nestas ruínas?!

_ Vivo. Há quatro anos, desde que me foi impossível habitar dentro dos muros da cidade, para aqui vim; e aqui faço o vil mister de taberneira... E outro mais vil ainda, o de espia Del-rei.

_ Como! Pois el-rei?...

_ Aqui tem vindo aforrado, disfarçado muitas vezes, para saber o que vai pela cidade e pelo Brusgo-novo. Àquelas toscas bancas se tem sentado muita vez, comido da faneca frita, bebido do mau vinho que aqui se aquartilha. Aí tem ajustado suas contas com os estanqueiros do sal, que o roubam, como ele rouba o povo.

_ El-rei D. Pedro, roubar o povo!

_ E o bispo que ele quer defraudar, mas é o povo quem o paga. Entre senhores, a disputa sempre é sobre quem há de receber; pagar nunca é nenhum deles, senão só o povo.

_ Ah! E querem que me eu enrede em suas disputas! Que nos destruamos por suas questões! Que me importa a mim?...

_ Importa-me a mim. Faremos como eles: cobriremos com a capa do público interesse o nosso privado empenho. El-rei invoca a liberdade do povo, e são as suas próprias ganâncias que granjeia. O povo invoca o nome do príncipe, mas não é senão o amor do lucro que o move. Nós invocaremos tudo o que eles quiserem, contanto que me vingue que seja atroz e infame o castigo desse malvado...

_ Educou-me, minha mãe! – interrompeu o mancebo com irresistível ímpeto que lhe vinha de dentro da alma – manteve-me por seu tantos anos, tratou-me como a filho!

_ Filho! – exclamou a bruxa trêmula e roxa de cólera: - filho a ti!

_ Como a filho, sim, e como tal me quer – respondeu Vasco tranqüilamente com aquela serenidade que domina de alto e quebra o ímpeto das mais furiosas paixões.

Guiomar acovardou-se diante dela, abandonou as exclamações, e se deitou a persuadir em tom moderado e quieto.

_ Não o creias – disse ela – meu filho. Esse homem é aleijado do coração; não ama senão os seus vícios.

_ Devo-lhe muito.

_ Nada lhe deves. Nós somos os credores ainda.

_ Foi meu pai quem à hora da morte me encomendou a seu cuidado. Em vez dele está.

_ Teu pai... Ah!

_ E quem era ele, meu pai? Por lá não me dizem senão que era um nobre senhor de Riba Dão que acabou em Tarifa pelejando com os mouros; mas o seu nome nunca o ouvi. Já desconfiei se seria aquele irmão do bispo que lá morreu nessa batalha... Tu calas, e pões os olhos no chão!... Por que não queres, por que não hás de dizer o nome de seu pai a teu filho?

_ Para que queres tu sabe-lo, o nome de teu pai? Os meus lábios não podem proferi-lo: estão selados por um juramento terrível, filho!... Assim era, como te dizem: nobre, rico, poderoso, senhor e cavaleiro era teu pai... Porém foi mais poderoso que ele o bispo, a sua ambição, a sua maldade. Ela me fez a desgraçada que estás vendo; da opulência e da grandeza me precipitou na miséria e na ignomínia. Teu berço de ouro foi embalado no opróbrio e na infâmia. Tua infância tão bela de que eu não gozei... Ah! De que me privaram com indignas ameaças e temores – foi entregue a estranhos... E eu consenti, meu Deus! Eu quase que agradeci ao monstro que te arrancasse de meus braços; tal foi a sua aleivosia, tais os medos que me meteu! Levaram-te, deram-te a frades e a clérigos para viveres em obscura dependência, tu, aonde devias mandar e ser senhor, e...

Guiomar tinha ferido a corda sensível no coração do filho. A ambição, que estava no fundo, ferveu e transbordou. Levantou-se alto e grande, e exclamou com entusiasmo:

_ Tens razão, minha mãe: eu não nasci para esta vida. A cavalo rodeado de minhas lanças, ou em meu castelo defendido por meus homens de armas aí é o meu lugar. Para clérigo não sou: ao diabo o latim! Não quero ser cônego. E também já não quero tão pouco ser físico; as gualdrapas da mula de mestre Simão andam muito baixas para mim. Quero pendão e caldeira e gente da minha beira. E um cavalo que salte, e que me leve à guerra. Queimados sejam os livros, e malditas sejam as horas que tenho perdido a aturar aquele secante de Paio Guterres!

_ Que te fez ele, filho, o santo homem?

_ Latim e mais latim, solfas de clérigos, e todas as suas crendices e pequices, quem teve a habilidade de mas meter na cabeça senão ele? Santo é: só o que me ele tem aturado! Mas é que eu também, a outro não lho sofria. Se não fora aquela bondade, aquela paciência de anjo de arcediago, parece-me que nem ler saberia.

Um suave sorriso, uma expressão de ternura quase Angélica iluminou as duras feições de Guiomar; parou-lhe o faiscar dos olhos, e se lhe converteu em raiar sereno de luz branda e pura, doce como de manhã de abril. E também orvalhada como ela, porque lhe caíam, fio e fio, as lágrimas belas: lágrimas que vem do contentamento da alma, que a gratidão, que os mais puros afetos de nossa natureza fazem correr de um manancial abençoado. Quando cora assim a mulher, é um anjo que chora.

_ Vasco – disse a mãe, com aquele acento que vem do coração, e que vai direito ao coração: - Vasco, meu filho, não cuidei que já tivesse lágrimas senão para ti – ou para as chorar de raiva nos paroxismos do meu ódio; mas a bondade desse homem fê-las rebentar nestes olhos secos. Foi a vara do profeta que feriu a pedra árida do deserto. Nem tu sabes tudo o que é de bom e santo esse homem de Deus. Ele era o anjo bom de tua mãe, filho... e eu perdi-o por culpa do outro demônio... Esse devia ser teu pai. Mas o fatal inimigo de minha vida... Oh! E é então Paio Guterres quem sempre te ensina?

_ Sim, com o mesmo amor sempre, a mesma paciência.

_ Homem admirável! E o bispo sabe, consente que tu vivas tanto com ele?

_ O bispo não gosta dele; mas tem-lhe respeito e medo, porque o arcediago é dos nossos, o homem mais benquisto do povo, e o mais poderosa pela influência que tem na cidade. E daí, sabe que eu me não sujeitava a outro, porque ele é o confessor de Gertrudes...

_ Gertrudes! Quem é Gertrudes?

_ Quem é Gertrudes! (A outra corda no coração do mancebo que vibrava.) Quem é Gertrudes! Mas é a minha Gertrudes. A flor de quantas donzelas tem o Porto, a Gertrudinhas do Arco... E ai, meus pecados! A propósito do Arco, a pobre Aninhas que me esqueci dela, e do que a Gertrudes tanto me encomendou que voltasse cedo e lhe levasse resposta do que passava com el-rei! E eu aqui posto sem tal pensar! Vou-me embora, vou-me, Guiomar. Perdoa, minha mãe; mas se soubesses, a pobre Aninhas o que lhe sucedeu!

_ Sei tudo; e que o povo está indignado e ansioso de vingança. Deves ir; é tempo que vás, filho. Que o Deus de Sansão e de Gedeão cinja os teus rins com a espada vingadora! Eu tomarei em minhas mãos o cutelo de Judite; e na hora do castigo eu tirarei do saco a cabeça de Holofernes e a mostrarei ao povo.

_ Mãe, mãe – exclamou o mancebo horrorizado: - mas que queres tu que eu faça, que esperas tu de mim?

_ O que vais fazer: vingar-me, vingar-nos.

_ Sim, eu prometi a el-rei que lhe faria abrir, esta noite, as portas da cidade e que o castelo de sé ficava por nossa conta. Já não sei se fiz bem ou mal, já não quero sabe-lo: prometi, hei de cumpri-lo. Sejam os seus motivos quais forem, el-rei protege as nossas liberdades, o povo é por ele, e os homens do Porto querem ser homens seus, não do bispo. Esses dois, que daqui foram agora, vão dar aviso a todos os de nossa facção, que não são poucos na cidade. O popular não precisa muito excitado porque o jugo destes padres é insuportável; a sua corrução descarada nem já toma o trabalho de ser hipócrita; é um opróbrio sofre-la. Sem escrúpulo me ponho da parte dos oprimidos. Fiz-me homem de lê-rei, que por seu me tomou; sirvo-o a ele e aos meus comunais. Tudo isto faço, tudo isto farei; mas levantar eu a mão para!... Oh! Jamais. E este Fr. João, este Fr. João de Arrifana, diz-me, tio é meu esse frade? Tio por onde? Irmão teu?

_ Não me é nada, filho; mas não lhe quero mal. Nunca mo fez a mim, e tamlavez algum bem, pode ser.

_ Pois será irmão de meu pai? E serão estes por fim os grandes segredos de minha progênie, que venho da nobre estirpe dos Arrifanas, de algum moço de mulas ou recoveiro mourisco?

_ Oxalá, filho, que o teu sangue não fora do que eles chamam tão nobre!... Fr. João da Arrifana não te é nada tão pouco. Criou-te de pequeno mas... Saberás tudo, meu filho, quando for tempo.

Vasco já não estava em si: excitado, contrariado pelas reticências e mistérios que lhe faziam, exclamou com grande impaciência:

_ O meu nome, o meu nome, Guiomar... O nome de meu pai! Quero sabe-lo. Se tu és em verdade minha mãe, se me tens esse amor que dizes, o nome de meu pai, revela-mo. Guardarei o segredo que quiseres: mas sabe-lo hei de... Ou então...

_ Vasco – lhe respondeu a mãe, abraçando-o com ternura e fazendo-lhe mil carícias: - Vasco, tu estás um homem: e eu renasci, recobrei a vida, e a força e a vontade de viver, desde que te vi tal: mas só de ontem és homem, filho; e eu há dezoito anos que sou mãe. Há dezoito anos que não existo senão por ti e para ti: vê se terei pensado no que te convém. Não é hoje ainda, não chegou ainda a hora em que deves conhecer a nobre, nobilíssima origem de teu sangue segundo os cristãos.

_ Pois bem: fica-te com os teus segredos, eu ficarei com a minhas dúvidas, com os meus pressentimentos. E busca outro instrumento para as tuas vinganças, porque eu...

_ Tu...

_ Eu sou o pobre estudante Vasco, sem família, sem nome... Sem mais proteção nem arrimo neste mundo do que a desse homem que me tem servido de pai. E fosse ele o maior criminoso da terra... É meu pai...

Guiomar saltou de um pulo a pés juntos para o ar, como se lhe caísse de repente uma formidável descarga elétrica. Seu rosto moreno, cujas feições pronunciadas resplandeciam inda agora de um sangue rico e cheio de vida, descomposto subitamente, pálido, amarelo como o de uma defunta, tremia de todos os músculos, e se desencaixava medonhamente, como se a tomasse um repentino ataque de cólera asiática.

_ Que tens tu? Bradou Vasco aterrado e cheio de espanto.

_ Nada – respondeu ela com voz sepulcral.

Depois, falando só consigo, pronunciando com os lábios lívidos os pensamentos que lhe davam pesadelo na alma, começou a murmurar como em tom de prece ou de esconjuro:

_ Os filhos de Deus tomaram para si mulheres dentre as filhas dos homens... Sara, filha de Raquel, sete maridos lhe matou o demônio Asmodeu que se namorou da sua beleza... Por que não há de morrer ele, e viver eu?... Meu não foi o pecado, e minha só tem sido a penitência... Eu tomei tédio à vida... E resignei-me a ela, poupei-a para chegar a ver o meu filho, para chegar a ver este dia em que os meus braços se enlaçassem nos seus braços, os meus beijos se confundissem com os seus beijos, e que eu apertasse a sua cabeça a este seio e lhe dissesse: Filho, vem, vê a miséria de tua mãe, vê a sua vergonha e o se opróbrio. Vê como, tantos anos, foram cuspidas estas faces, escarnecidas estas rugas de sua precoce velhice. Arrastada, corrida, apedrejada tua mãe de bruxa, de judia, de prostituta, de velha torpe e infame!... Vê tudo isto, filho, vê-o escrito nesta cara que dessecou ao vento das injúrias, neste corpo que mirrou com os açoites do vilipêndio... Vê-o, meu filho, e vinga-me, vinga tua mãe, filho!...

_ Serás vingada! – exclamou Vasco arrebatado, dominado pela poderosa influência da bruxa. – Serás vingada. Oh! Eu to juro, mãe. Serás, minha mãe, vingada. Minha infeliz, minha pobre mãe, eu hei de vingar-te. E é ele, ele só o autor das tuas desgraças?

_ Ele só – respondeu Guiomar resplandecente já de esperança e de júbilo.

_ E meu pai, que te abandonou que te traiu!... Como foi, dize-me, e que parte teve nisso o teu inimigo, o homem que?...

_ Dele me vem tudo, dele só. Não me perguntes como, não me obrigues a quebrar o tremendo juramento que dei por Jeová e pelos livros de sua lei. Que morra a morte ele, que o seu nome fique desonrado e infame! Que lhe cuspam na face como a mim me cuspiram! Que assim como eu fui açoitada... Fui; Vasco, tua mãe, filho, foi açoitada pela mão do algoz em público patíbulo... Por bruxa, por meretriz, por mulher de enredos e de infâmias... E esperava-me a fogueira se ma não envolvesse nestes andrajos, se me não chagasse o corpo com estas úlceras asquerosas, e me não arrastasse de porta em porta, de adro em adro de seus templos, fazendo a idolatria de me ajoelhar diante de suas imagens, de rezar suas rezas, e de passar pelos dedos estas ridículas constas de invenção maometana que a supertição dos cristãos adotou... Porque tudo quanto é supertição adotam de todas as religiões – nem o seu culto é mais do que a remendada mistura dos vários cultos da terra.

_ Basta mãe; eu vou. El-rei D. Pedro entrará esta noite na cidade. E tu minha mãe, tu serás vingada! Eu to juro.

_ Que Deus arme de força a tua mão direita, e ponha em tua alma a cólera de suas vinganças! Porque em verdade, filho, tu só podes, e tu só deves ser o instrumento de suas iras, e o braço de sua justiça. Toma, aqui tens ouro, meu filho: gasta, despende, desperdiça, que é teu. Sem ouro não se faz nada no mundo: e tu farás o que quiseres porque tens milhões.

A velha agachou-se, a abrindo um esconderijo que tinha ao pé da lareira, sacou muitas bolsas cheias de dinheiro, com que lhe foi estofando o saio, o corpo do tabardo, e todo ele o recoseu em ouro.

_ Outro abraço, meu filho, e vai. A trovoada passou, apenas chove miúdo e pouco. Esta noite eu serei contigo e te abençoarei, porque tu és bom e forte como a vara de boa estirpe.

XXII

Conspiração e Programa

Vasco abraçou a mãe, deixou-se abraçar, beijar e amimar por ela, e saiu enfim da embruxada taberna. O tempo já estava limpo e quase sereno. Foi-se o jovem estudante a uma espécie de arribana que pegava com o grosseiro e primitivo estabelecimento – ou antes fazia parte dele, porque ali recolhiam os almocreves as suas récuas – a tirou para a rua o impaciente alazão, que pasmado da vilã hospedagem que lhe deram, se devorava de ânsia mal sofrida por voltar às nobres estrebarias de palácio. Falou-lhe Vasco, o generoso e inteligente animal, conhece-lhe a voz, sossegou e amansou logo. Obediente, humilde, mal sentiu a mão na crina e o pé no estribo, se abaixou como dromedário para receber a carga. A trote firme, e admirável de certeza, foi descendo as íngremes ladeiras de Gaia, sem que as pedras que saltavam, os seixos que rolavam por aqueles despenhadeiros, o fizessem vacilar de um pé, escorregar de uma mão.

Em breves minutos estavam em baixo, à margem do rio. Apeou-se o cavaleiro, e tomando da rédea o cavalo, o fez entrar, sem receio nem sobressalto, para o primeiro saveiro que ali achou. Cruzaram as negras correntes do Douro, desembarcaram à Porta Nobre, e, cavalgando outra vez o mancebo, tomou para as alturas da Sé.

O povo quieto, mas animado ainda, andava aos magotes por aquelas Cangostas, Banharia e rua dos Caldeireiros. Vasco, popular e benquisto apesar de suas intimidades no paço, ia tranqüilo pelo meio deles, desbarretando-se aos mais velhos sinais daquela benevolência e quase entusiasmo que as classes inferiores tem sempre por quem as corteja e considera sem se familiarizar com elas; por quem no seu ar e nos seus modos, não parece dizer-lhes, como os nossos modernos demagogos: “Eu sou tão bom, tão liberal, que desço até vós”; - mas antes: “Não vivo convosco, porque a nossa educação, as nossas idéias da vida são muito diferentes. Mas convosco sou de alma e coração, de braço e de cabeça, porque vosso irmão sou diante de Deus e do Evangelho, das leis da natureza e das leis da razão”.

Além disto os dois irmãos, Rui Vaz e Garcia Vaz, tinham precedido o nosso estudante na sua volta para a cidade, e não tinham perdido o seu tempo. Poucas horas lhes haviam bastado para dar à agitada e confusa efervescência do povo a direção que eles queriam, e que os outros aceitavam com ânsia e entusiasmo.

Há um vazio sempre, um oco de incerteza em todas as comoções populares, de que é fácil aproveitar-se qualquer com mediana habilidade, uma vez que esteja de sangue frio, e lhe lance a tempo um nome, uma palavra, uma frase, seja qual for. E não importa a idéia; o que se quer é o símbolo. Da coisa simbolizada não é tempo de tratar agora, não há sossego para a examinar: depois veremos. Toma-se a palavra, o nome, a bandeirola – um chapéu de três ventos que seja, como o outro dia sucedeu em França – e vai-se para diante.

Fica, é verdade, o direito salvo para chorar depois o erro, lamentar a precipitação do momento, e conspirar cada um contra a sua própria obra; mas é tudo o que fica.

E não obstante isso, assim se fez sempre, assim se há de sempre fazer: porque o povo nunca se excita fortemente pelo bom do que há de vir, senão pelo mau e insuportável do que é.

Por outras palavras: nenhum demagogo fez nunca uma revolução com os seus programas, por mais artigos que eles tenham; todas as fazem os governos, todas as concita o poder por seus abusos e insolências.

Nem o tremendo brado das iras de uma nação diz nunca, senão: “Destruam”. A sentença de seu tribunal sem recurso é sempre: “Morra”.

Mas quem há de viver depois? – porque alguém e alguma coisa é preciso que viva; o que se há de edificar sobre essa destruição? – porque ruínas não se habitam. Aí começa o ofício do demagogo: e Deus lhe perdoe, que rara vez começa, e mais rara vez acaba em bem!

Ora os dois irmãos Vaz, como eu ia dizendo, tão ardentes e zelosos agora na causa da liberdade e dos agravos populares, quanto o tinham sido antes em defender os direitos e os tortos do bispo, cujos eram, meteram-se cada um por seu lado, entre os grupos dos artesãos e dos burgueses; e pouco a pouco tinham ido dando direção àquela imensa força, a que só ela faltava, aplicando aquele vapor, que se desperdiçava em gritarias e exclamações, à tremenda máquina da revolução que iam fazer trabalhar.

Dizia-lhe Garcia Vaz em ar de confidência, com a lástima nos olhos, e a compunção na voz:

_ Que nem eles sabiam todo o mau que o bispo era, as atrocidades que fazia, as novas tiranias que meditava. Que era necessário acudir com o remédio e já. Mas que o povo precisava de proteção, de chefes, e que só el-rei podia dar-lhos. Que para fazer justiça inteira e crua, como tantas maldades careciam, só D. Pedro, o justiceiro e o cru, que tanto 1lhe dava mandar enforcar ou queimar um bispo, como a qualquer servo ou malato que lho merecesse. Que para as excomunhões e interditos de Roma, ele rei lá se haveria com eles, que podia.

_ Mas nós queremos matar o bispo por nossas mãos – respondiam os populares: - que nos violenta as filhas e nos rouba as mulheres. Queremos enforca-lo com as tripas de Pêro Cão seu alcoviteiro: e faremos bispo o arcediago de Oliveira, que é um santo homem que nos não há de roubar nem excomungar. Vamos buscar Paio Guterres, o nosso arcediago. Vamos!...

_ Paio Guterres – tornava o agitador – é um santo velho de quem não havereis mais do que sermões e pregações, palavras de paz e de misericórdia. Não é ele que nunca se há de por à vossa frente, que puxe pela espada e vos capitaneie para ir contra o paço, e tomar aquelas torres da Sé, tão fortes como as de um castelo roqueiro. Nada! Precisamos de um homem moço e resoluto, que seja homem de el-rei e homem do povo, mas bastante senhor para se por à nossa frente, ir buscar o estendarte da Virgem aos paços do conselho, e marchar com ele adiante de nós. E a falar a verdade, nesta terra onde não há fidalgos, que o foral os não deixa morar cá, não temos senão um homem para isto, que é... é o nosso estudante.

_ Qual estudante?

_ Um que foi todo do bispo como eu fui, e que hoje o detesta como eu o detesto.

_ Mas quem?

_ A flor do mancebos, a jóia dos escolares, o noivo da nossa Gertrudinhas.

_ Vasco!

_ Esse é.

_ O sobrinho de Fr. João da Arrifana!

_ O próprio.

_ Mas se ele é do bispo!...

_ De Satanás quisera ele antes ser. Mas é de el-rei: de el-rei é, maus amigos. E sabei um grande segredo...

Chegaram-se todos para Garcia Vaz, que, em tom misterioso de secretário de Estado comunicando gravemente uma frioleira à papalva reunião da sua maioria parlamentar, lhes disse:

_ Sabei, honrados amigos, que o nosso Vasco esteve hoje com el-rei o qual veio aforrado a Grijó para lhe falar.

_ El-rei em Grijó! – exclamaram todos em alto brado.

_ Psiu! Que deitam tudo a perder. Está sim, mas chiu! E não lhes digo mais nada, se me não juram todos de guardar segredo.

_ Juramos.

_ Bem. Agora não o digam a ninguém.

_ Eu só o digo à mulher, que lá essa...

_ Eu só se for a meu compadre Bonifácio.

_ Eu...

_ Bonito modo de guardar segredo e juramento! Digo-lhes que deitam tudo a perder assim.

_ É verdade; é verdade; é preciso guardar o segredo. E até quando, Garcia Vaz? A gente também não pode...

_ Até esta noite à meia noite.

_ Vasco é o nosso homem – continuou o orador das turbas: - ele é quem nos traz as ordens de lê-rei, de cuja própria boca as recebeu. Daqui a pouco , em sendo noite bem fechada, que se arme cada um com as melhores armas que tiver, e aqui ao pé do Arco nos juntaremos para ir aos paços do conselho buscar a nossa bandeira. Lá falaremos e acordaremos no que se há de fazer.

_ Eu cá a minha coisa é que morra o bispo, e que nada de sisas nem de portagens.

_ Eu não é tanto por isso; mas que Gil Eanes não seja mais juiz; que é um asno e um tratante.

_ Pois eu não senhor, eu o que quero é que...

_ Para lá, para lá, meus amigos: agora nada mais. Silêncio! E trate cada qual de se preparar para esta noite.

Assim interrompeu Garcia Vaz a torrente de programas que já começava a formar-se, que prometia engrossar, e que em breve se despenharia, como a catarata de Niagara, por cima da intentada revolução, deixando talvez incólume, debaixo da imensa curva de sua projeção, aquelas mesmas coisas que mais pretendia, mais desejava, e porventura mais devera destruir.

O programa é coisa muito antiga, já vêem, não é pecha dos nossos dias.

Ora pois, se assim fazia Garcia Vaz por um lado, outro tanto fazia seu mano Rui por outro lado. De maneira que, quando o nosso Vasco assomou pelas agora tão concorridas ruas da Banharia e de Sant’Ana, não encontrou senão rostos amigos, sinais de inteligência, um como entusiasmo comprimido que não rompia em vivas porque não era ainda tempo, mas que os dava já com os olhos e com a expressão da fisionomia.

Vasco bem percebia o que andava no ar, e posto que o amor-próprio lhe folgava – como era natural na sua idade, e na virginal ignorância em que ainda estava das coisas políticas – todavia sua alma escolhida e superior sentia aquela invencível melancolia que deixam todos os triunfos deste mundo, sejam eles do fórum ou da academia, da tribuna ou do salão.

Vanitas vanitatum, et omnia vanitas!

Vasco não sabia isso, nem o sabe ninguém antes de experimenta-lo; mas sentia-o, pressentia-o, adivinhava-o. Fatal privilégio das organizações belas e elevadas, que em tudo, até neste funesto adivinhar, tão caro pagam sua tão mal invejada superioridade sobre o vulgar dos homens!

Vasco ia triste e pensativo; e o generoso alazão parecia ressentir o estado de ânimo do seu cavaleiro, balançando as orelhas baixas e caídas, enquanto subia, a passo lento e grave, a tortuosa rua de Sant’Ana.

Iam quase chegando ao Arco, quando um estribeiro do bispo, montado em poderosa mula, vinha trotando largo e rasgado na mesma direção. Conheceu-o Vasco ao passar por pé dele, e fazendo-o parar, saltou do cavalo e lhe atirou com as rédeas:

_ Leva-o às cavalhariças; e que o pensem bem, que o precisa.

O estribeiro seguiu seu caminho, levando de rédea o alazão; e Vasco entrou em casa da nossa boa Gertrudinhas, de quem te confesso, amigo leitor, que já tenho saudades. Se te sucederá a ti o mesmo?

A ser assim, perto estamos todos de as matar, as tais saudades, porque no seguinte vamos entrar em sua casa também nós, ou para falar mais corretamente, na de seu pai, mestre Martim Rodrigues, caldeireiro de seu ofício, juiz e magistrado municipal da muito nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto, à qual eu fiz dar e confirmar todos esses títulos, eu que copio esta crônica do Ms. Dos Grilos.

Fiz sim, em um decreto por mim lavrado no mais retumbante estilo de proclamação patriótica, reta pronúncia e frase de brasão. Nesse decreto, que o meu amigo M. P. Propôs à régia aprovação, e a obteve, lhe reformamos as Armas, lhe demos a insígnia da Torre-e-Espada, lhe colocamos, em escudo de honra, no meio, o Coração de D.Pedro... Mas dizem os barões do Porto que nem um nem outro honramos a memória de D.Pedro, que somos demagogos e não sei que mais...

Os barões da minha querida terra parece-me que são como os mais barões de Portugal e ilhas adjacentes: convém a saber...

Isto é, são barões, e tudo está dito.

XXIII

Gertrudes

Era já o fim da tarde quando o Sr. Vasco subia as precipitosas escadas de mestre Martim, e batia as palmas junto à porta do primeiro andar. Uma voz bem conhecida, cujo trêmulo trilo, uma vez ouvido, nunca mais esquecia, perguntou de dentro:

_ Em nome de Deus, amém! _ Quem está aí, e a quem é que procura?

_ De paz é – respondeu o nosso estudante.

_ Paz, paz... Bom dia de paz vai este em que tudo é guerra, alvoroto e perdição; em que se roubam as mulheres a seus marido, às próprias barbas da senhora Sant’Ana e do seu arco milagroso; em que o popular anda tão mexido e altanado, que Deus nos acuda!

_ Tia Briolanja, sou eu.

_ Sou eu... e tia Briolanja!... E tão requebrado que ele fala! ?Má hora, que me eu deixe enganar de teus requebros, meliante, quem quer que tu sejas. A boa porta vens bater. Olha quem, eu! Uma casa de duas donzelas... Pois não? E seu pai fora! Que lá estão nas casas do conselho todos ainda, e lá lhe foi seu jantar a mestre Martim, coitado! Que bem pouco lhe havia de prestar com tantos cuidados que lhe caíram em cima. Jantar, jantar... E pelo que estou vendo, lá lhe tem de ir a ceia também...

_ Mas, tia Briolanja, abri-me por quem sois, que preciso falar com Gertrudinhas.

_ Nem Gertrudinhas fala agora a ninguém, nem Briolanja lhe abre a porta. Estamos em câmara, salvando a pátria; talvez nem dormir venhamos a casa; não falamos a ninguém.

_ Mas por isso mesmo, tia Briolanja, por isso mesmo é que é preciso que eu fale já com Gertrudes. Olhai que sou Vasco.

Mas a velha, surda a rogos e expostulações, surda de seu natural, e mais surda ainda do palrear incessante com que a si mesma se aturdia os ouvidos, a velha Briolanja, doida com a idéia de que a viessem roubar a ela... – E aqui aplicará talvez algum maganão o verso de Bocage:

Doida por vê-lo, e doida por não vê-lo;

Isto é, doida com o susto de que sim e de que não lhe sucedesse a fatal aventura – a velha, digo eu, não queria abrir, não reconhecia a voz de Vasco. O mancebo, despeitado e impaciente, já estava resolvido a empregar os meios extremosl, quando Gertrudes, que no andar de cima pensava e acalentava o filho de Aninhas, adivinhando-lhe o coração que aquele parlamentar de Briolanja podia ser com o seu estudante, desceu rapidamente a escada interior, e chegando-se à velha:

_ E Jesus, Briolanja! Com que medo estais, mulher! Irei eu à porta, que me não temo, seja de quem for.

_ Menina, menina, que estais perdida! São eles, menina, gente do popular que anda por aí de porta em porta roubando matronas e donzelas, fazendo mil desacordos e desaguisados para porem depois boca... Deus me perdoe, que não quero dizer em quem. Não abra, menina...

Mas Gertrudes já tinha destrancado a porta, corrido o ferrolho, e já Vasco estava de um pulo dentro da casa, e nos braços quase da linda caldeireira, quando a velha, persignando-se, e repetindo jaculatórias e abrenúncios, tratava ainda de defender a cidadela... Que já era tomada.

Quando digo “tomada”, inda assim, entenda o conspícuo leitor que quero falar das obras exteriores; porque Gertrudinhas era moça de brio e honra; e o que não é mais decerto, mas faz talvez mais ao caso, Vasco soletrava ainda o inocente a-be-ce dos seus primeiros amores.

Os dois já não viam nem ouviam senão um ou outro.

_ Vasco!

_ Gertrudes!

_ Quanto me tardaste!

_ Sim?

_ E o que por cá tem ido desde que partiste!

_ Já tudo sei.

_ E o remédio?

_ Esta noite.

_ Esta noite! Mas aninhas ainda está em poder do bispo...

_ Que lhe não tocará num cabelo de sua cabeça.

_ Por que?

_ Porque a meteu no aljube; e no aljube quem governa é Paio Guterres, que responde por ela.

_ Ai! Não a dou por segura nem assim: o bispo não tem respeito a nada, e Pêro Cão tem unhas e garras de vivo demônio que é, para a sacar pelas mesmas grades do aljube.

_ Descansa; nenhum mal lhe sucederá desta vez. E nunca mais, se as coisas correrem como eu espero. Ouve.

E começaram a cochichar baixinho numa longa conferência, em que, de vez em quando, lá surdia mais alto uma palavras que outra. Gertrudes principalmente, que era mulher, filha e amante, não podi já conter a voz que se não levantasse:

_ E meu pai, se lhe sucede alguma coisa! E tu... ai! Tu, Vasco, se nesses tumultos... Toma vem cuidado nele e em ti. Jesus! Se te atraiçoa essa gente? Atraiçoar, não; não são dados a isso. Mas são tão sujeitos a desanimar, os populares, e a variar de intento. Tem toda a mesma inconstância de que nos acusam a nós mulheres... Mas reparo numa coisa, Vasco: estás triste, pensativo, tão fora do teu natural! Que tens tu?

_ Não sou feliz, Gertrudes.

_ Por que?

_ Oh! Não. Duvidaria antes do sol que me alumia, da terra que me sustém.

_ E dantes dizias tu que eras tão feliz só com essa segurança! Davas-te por tão venturoso só na idéia de te livrares do poder de Fr. João e do bispo, para não seres cônego, e para que meu pai consentisse... Ai Vasco! Agora que tu tens a el-rei por ti, e a meu tio, e que tudo nos corre como nunca nos atrevemos a imagina-lo, agora estás tu triste, agora me dizes que não és feliz!

_ E para maior desgraça, nem te posso contar minhas tristezas, nem te posso dizer... ao menos por agora, não posso.

Ambos puseram os olhos no chão, ambos caíram no desanimado silêncio da melancolia, que tão fácil se comunica de um coração ao outro, entre dois que se amam.

Por que estará triste, que segredos tem ele para mim? – Dizei-me, leitoras belas, se não há neste só pensamento com que fazer pensativos os mais levianos e adoidados dezesseis anos; descorar as faces de Hebe; por jaças de feia tristeza na mais alegre esmeralda, névoas de melancolia na mais risonha safira que se engastem em pestanas de ouro ou de castanho.

A nossa Gertrudes porém não era loira nem castanha, não eram de safira nem de esmeralda os seus belos olhos, senão tristemente negros, negros e longos, como uma longa noite de inverno, tristes como ela, sujeitos, como ela, a variar de uma intensa e inquieta vivacidade, para a languidez da moleza que a alterna.

Não vão agora pensar por isto que era morena a minha Gertrudes. Eu não sou forte em morenas; professo a regra de que – mulher branca, e homem preto... Enfim, Gertrudes era alva e fina, negra de olhos e negra de cabelos; e pudera chamar-se Isaura, Matilde, Urraca ou Mumadona se vivesse em um castelo com ameias e ponte levadiça, porque tinha fidalguia no corpo, no rosto e na alma para mais do que isso. Chamou-se porém Gertrudinhas, e morava na rua de Sant’Ana, nasceu burguesa porque assim tinha de ser. Não é minha culpa. Todos os dias se vêem maiores desacertos do que este por este mundo.

Já disse lorde Byron que a verdade era muito mais estranha que a ficção. E é. Sei de princesas fregonas que tresandam á lójia de mercearia, e tenho visto silfas aéreas balançar-se vaporosamente num balcão de quinto andar perto de céu.

A aristocracia – não falo aqui do nosso sexo feio, senão do belo somente – a aristocracia era uma instituição admirável, se houvesse todos os anos um júri seleto e imparcial para regular quem havia de entrar para ela e sair dela. Peço para ser vogal do júri... Mas declaro desde já que não voto em gordas, nem tolas, nem beatas – mas devotas sim – nem as donzelonas que afetam quinze anos, nem as invejosas, nem nas mexeriqueiras, nem nas que vão ao banho de calcinhas e josézinho curto... Nem nas que polcam depois dos trinta bem feitos, nas que cantam a Saloia, que lêem o Visconde de Arlincourt ou versos de... Alto! De versos não falo por causa daquele telhado de vidro que todos sabem.

Pobre da minha Gertrudes! Que ali está tão triste, e triste o seu Vasco... E eu a entreter-me em semelhantes frioleiras sem lhe acudir! Bem pudera o sábio Artemidoro, supremo juiz dos andantes historiadores, castigar-me severamente pelo mau croniqueiro que sou, que abandono meus heróis em meio de suas aventuras e me vou flanar por essa perpétua feira das vaidades humanas que tanto me diverte.

Tristes estavam os dois, e nem falavam, nem se olhavam, nem sei se muito pensavam; mas sentiam doer-lhes a alma daquela dor surda e mole que mói, mói e não mata – ou se chega a matar, é já tão depois, que nem se sabe de que morreu esse que dela morre. E os médicos dizem: “moléstias do coração!” ou: “apoplexia fulminante no cérebro, no bofe!” – Morreu de penas, Dr. Tirteafuera, morreu de pesares, Dr. Sangrado , morreu de aflições e desgostos, Dr. Sintaxe; mas vós não pescais disso, não curais disso; e a metade dos que morrem, mal da alma os mata, não do corpo.

Gertrudes, como mulher que era, e com mais elasticidade de ânimo portanto, foi a primeira que sacudiu fortemente o seu espírito daquele torpor doloroso, e levantando-se em pé, disse:

_ Vasco, vai, que são horas. Salvas Aninhas e tomo cuidado em meu pai.

_ Gertrudes, adeus! – disse o estudante ainda melancólico e pensativo. Mas com a súbita revulsão de espírito, que é tão fácil e pronta naquelas idades, e tão natural era a seu gênio alegre, e ao temperamento saltitante de seus nervos, já da porta onde estava com a mão no ferrolho, voltou atrás, e sorrindo-lhe os olhos, desanuviada a face, exclamou:

_ Gertrudes, isto são bruxas más que andam entre nós. Leve a breca feitiços e maus olhados, cachopa! E dois trincos para o demo das tristezas, que eu não posso viver sem ti, e sem te ver risonha e alegre como um céu aberto!

_ Meu Vasco!

_ Minha Gertrudes!

_ Querido!

_ Sabes tu, Gertrudes da minha alma, que me tomara eu ver outra vez o descuidado e insignificante estudantinho que eu era? Que me pesa a minha importante pessoa? Que reis e bispos, senhores e comunais, todos eles juntos não valem a pena de se cortar a gente o coração, viver fora de si, e correr após de fantasmas, a qual mais vão, mais falso, mais enganador? Se a glória é assim, se a grandeza não é mais que isto...

_ Querido Vasco, tens razão: mas é da honra da nossa terra que se trata, da sua liberdade, de salvar uma inocente da vergonha e do opróbrio. Desafrontar os oprimidos, castigar o orgulho dos opressores, esta é a glória que não pode ser falsa nem vã. Ânimo, Vasco, e a eles!

_ A eles me vou, a eles me vou!

E saltando e pulando, e rindo e folgando, pela escada abaixo se foi cantando:

E com esta boa folha,

Por minha dama o juro,

Que não fica mouro vivo

Nem alcaide nesse muro.

Vasco, todo inteiro o nosso estudante Vasco, reverdeceu e reanimou naquele instante, e se foi voando nas descuidadas asas de sua feliz juventude.

Gertrudes foi à janela para o ver sair e lhe dizer ainda mais um adeus com os olhos, vê-lo voltar a esquina, e daí outro adeus ainda... o último: port-scriptum de longa carta de amores, que esperdiçou páginas e páginas inutilmente... – peço perdão, minhas senhoras, inutilmente não, mas em repetir e repisar o já sabido e ressabido – e aproveita agora o derradeiro cantinho do papel para dizer, o que mais queria, o que só queria dizer, e não disse, em todo o estirado corpo do imenso e recruzado cartapácio.

XXIV

Briolanja

Admirado estarás, leitor benévolo, se, com a atenção que ela merece, tens seguido o fio de minha interessante história, admirado e pasmado deves estar de que no precedente diálogo, assaz prolixo e demorado como foi, não viesse intrometer-se nunca terceiro interlocutor, achando-se aí presente em própria pessoa não menos poderosa e palrante criatura do que tia Briolanja Gomes, o vocabulário ambulante, a verdadeira prosódia do bairro e de toda a cidade de Porto. Mas o fato é que aí estava, que não dormia, e que, pela primeira vez, nos sessenta e sete anos de sua palrada existência, consentiu em estar em cena como pessoa muda.

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