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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Revolução: E ANINHAS?: PECADOS VELHOS:

Muda! Como? Impossível. A terra segue a sua rotação ordinária, giram os astros em sua órbita prefixa, os rios correm para o mar, em coisa alguma se transtornou a ordem da natureza, as imortais leis do universo continuam a rege-lo:é inexplicável, impossível a mudez de Briolanja Gomes. Briolanja Gomes respira, Briolanja Gomes fala: a sua língua, os seus lábios, todo o seu aparelho parlatório não podem existir sem funcionar.

É assim era. Com uma enorme almofada de renda no colo, encruzada no estrada ao canto da casa, discriminando bilro de bilro, pregando alfinete contra alfinete, Briolanja fazia renda e rezava:rezava sua interminável série de rezas e jaculatórias, que só ela sabia tantas, tão variadas, e tão eficazes também – porque as havia em seu receituários para todos os casos emergentes, para todos os santos possíveis, para todos os dias do ano, e para todas as horas de cada dia de cada ano.

Naquela espécie de órgão-de-berbeira, havia registros e cilindros para tudo, nem ele podia cessar jamais, senão parando-lhe a manivela por que cessasse a vida.

Briolanja pois vivia e rezava:e o que ela rezava agora era um longo e potente esconjuro contra bruxas, feiticeiras, maus olhados e quebrantos, floreado de seu latim de abrenúncios e vade-retros, não sem algumas pinceladas de grego também em Kyrie Eleisons, Christe Eleisons, Ágios e theos, e outros helenismos de breviário, que a douta Briolanja pronunciava de modo que nem Oxford nem Cambridge são capazes de mais arrepiar a língua de Homero e de Virgílio.

Não tardou Gertrudes em reparar no que nós mesmos estamos reparando, leitor amigo, porque apenas voltou da janela e deu com os olhos na sua dona:

_ Aí estáveis vós, Briolanja?...e sem ninguém vos ouvir a fala! Que sucederia neste mundo?

_ Não falo eu, filha? Não, não falo!...mas com quem devo e posso e mister é que eu fale. Que nos entrou quebranto em casa; e, ou eu não sou quem sou, nem sei o que sei, ou a poder que eu possa, o hei de desfazer. E já ele vai talhado, que esse moço...outro saiu daqui agora do que entrou.

_ Que quereis dizer?

_ Que Vasco, de donde quer que vinha, vinha quebrantado de mau olhar que lhe deram. Renego eu de bruxas e de seus feitiços! São Bento as tolha por maus aranhiços peçonhentos que são, e más teias que tecem! Amém! Mas o rapaz viu a bruxa, isso viu ele; e chupado vinha delas como das carochas. Kyrie Eleison! Deus fale à minha alma!... Vai-te e não tornes, e no tornar te afundas. Olha o inimigo o que havia de enredar! Se lho conhecerá Fr. João da Arrifana, que o benza e vareje logo com boas varas bentas que lhe sacudam o demo bem sacudido!

_ Jesus, Briolanja, que dizeis? Embruxado o meu pobre Vasco!

_ Embruxado vinha; sou eu que vo-lo digo: na cara lho conheci mal que entrou, e no olhar despartido que trzia.Não são meus olhos que em tal se enganem; e por isso lhe pus logo o remédio, que as moí e as ralei aqui as excomungadas.

_ A quem moestes vós, mulher?

_As bruxas, filha, as bruxas, que as martelei a bom martelar. Pudera não! Com três da cova de São Patrício de Irlanda, três do buraco de são Tiago de Compostela, três da Santa Casa Do Loreto, são nove esconjuros que lhe arrumei, a qual mais for te. Vede-me a cara com que se ele daqui foi, e dizei-me se era a mesma com que entrou.

_Verdade é que ele...

_ Outro foi, melhor foi. E se em chegando a casa, Fr. João lhe cumprir com o que deve, grande mal não haverá,porque o rapaz é bom e temente a Deus. Só aquele bem mau sestro que tem, é que...

_ Tem mau sestro! Qual, mulher?

_ Aquela cisma de querer ir às covas de Salamanca. Ai menina! Tirai-lho da cabeça, que é tentação visível de bruxaria, e mostra jeito para as más artes do demônio.

_ Briolanja, Briolanja!..._ exclamou de repente Gertrudes, interrompendo-a: que ruído é este? Tanto tropel de povo! Que teremos agora? Ai; se... Mas já!...

Era na verdade tremendo o estampido que subtamente estalou e foi ecoando pela sinuosa rua, com um rebôo de vozes, de aclamações tumultuárias, que faziam tremer os velhos edifícios.

Acudiram ambas à janela.O tumulto era grande; mas distintamente se ouvia, por entre o confuso alarido das gentes, um brado quase regular de:

_Viva o nosso capitão! Este queremos, e não outro.

Depois outras vozes, que também pareciam concertadas, gritavam:

_ O estendarte da Virgem, o nosso estendarte que o tome ele!

_ Vamos busca-lo. Vamos tirá-lo aquele potrosos dos juízes, aqueles capões sem honra nem vergonha!

_ Que beijaram a mão do bispo!...

_Em vez de o emprazar para que nos fizesse justiça.

_ Abaixo com eles, e viva o nosso capitão!

_ Viva el-rei D. Pedro!

_ Viva, viva, viva!

Aqui os vivas foram estrondosos e furibundos. Bem se via que eram dados a quem tinha poder para os aceitar e retribuir.

Depois dos vivas, os morras:é do ritual.

_ Morra Pero Cão!

_ Morra.

_ E o bispo enforcado.

_ com a cabeça para baixo, por causa dos santos óleos.

_ Isso, rapazes. Respeito à santa madre Igreja,não tocar na cabeça do bispo, que é sagrada.

_ No pescoço, sim. Ah, ah,ah!

Ia crescendo o tumulto, e iam-se ouvindo mais claros e distintos os brados da multidão, porque ela se ia aproximando do Arco da Senhora Sant’Ana, onde parece que todo o movimento daquele dia tinha de concentrar-se: como se a santa, ofendida pelo inaudito desacato que ali se tinha cometido, ali quisesse ver rebentar os tremendos efeitos de sua justa indignação.

_ Ao Arco! _ bradou uma voz de estendor_ AO Arco da santa! Ali o haveremos de alevantar e jurar por nosso caudilho e capitão.

_ Ao Arco! _ respondeu a multidão.

E os arames estridentes dos caldeireiros, que de novo se tinham insurgido, retiniram desacordemente; as padeiras de Avintes e de Valongo traçaram as capas e bateram os socos. E os gaiatos, raça heteróclita de todos os tempos e de todos os países, uivavam, assoviavam e tripudiavam,adiante,atrás, em derredor da bernarda, suas delícias.

A chusma, entalada nas estreitas ruas por onde vinha, redobrava de ímpeto e refervia no aperto; como rio caudaloso que,oprimido em acanhado leito de rochedos, muge e brada turbulento, apressurando sua corrente para o plaino, onde possa espreguiçar as águas à vontade, e folgar desafrontado com as areias da campina.

XXV

Revolução

No intervalo se sossego ou de reflexão que a revolta tinha tido desde que se aquietara às portas da Sé com as promessas de Paio Guterres, era bem visível agora que ela se tinha estado organizável uma revolta_ e que se tinha convertido em revolução.

Nascida, como todas as revoluções verdadeiras e conscienciosas, de uma forte, legítima e justa indignação popular, nascida sem parteiras nem comadres, pelo mero e espontâneo impulso da natureza, _ tinham depois tido tempo as ditas comadres e parteiras de a pensar e enfaixar a seu modo.Não tinha mais força agora do que quando nascera; bem visto, menor seria talvez. Mas então sem objeto distinto, sem direção bem aplicada, as suas forças originais derramavam-se e perdiam-se como as de um grande rio no areal que o serve. Agora, por menores que fossem, vinham concentradas e dirigidas a um ponto dado, o poder de sua presença era imenso, capaz de mover montanhas.

Os irmãos Vaz tinham trabalhado bem; o nome de el-rei valia muito, as suas promessas eram formais e poistivas; enfim, repito, a revolta estava feita revolução.

Já a mesma marcha e compostura da multidão mostrava outro aspecto; os gritos e aclamações tinham certo regulamento; e as próprias vozes do arame agitador, que de manhã retiniam cada uma para seu lado, se misturavam, sem tom nem som, sem compasso nem harmonia, com o vozear do povo, agora tinham seu tal ou qual concertante, tocavam mais fortes nos cheios, nos coros, mais piano quando, para assim dizer, acompanhavam alguma jaculatória revolucionária de poucas vozes; e faziam enfim silêncio, tinham seus compassos de espera, quando algum orador popular executava um solo que devia ser bem distintamente ouvido.

À frente do tumulto marchava uma espécie de São Cristóvão, homem alto e menbrudo, de grenha embaraçada e ruiva, as mangas da camisa arregaçadas e manchadas de sangue, nu de braços e pernas, e o cutelo pendente ao lado. Es te era Brás Marchante, o carniceiro e fressureiro de ao pé da Sé, que levava hasteada em alto poste a cabeça ensangüentada de um enorme dogue ou cão de fila, coroada de uma mitra de cartão bastante bem feita, e daí flutuando em guisa de pendão, muitas varas de assopradas tripas, antigo símbolo de alcunha e de glória, de chacota e de presunção, para a nossa boa terra. O meio horrível, meio burlesco, estendarte, vinha rodeado de uma multidão de gaiatos, que eram como os tiples daquele coro infernal, as requintas daquela orquestra diabólica: todos eles, uns ganiam outros uivavam, outros ladravam e latiam, e logo dirigiam mil injúrias, chufas e vitupérios à mitrada cabeça do dogue. Alguns eram ditos graciosos, não flatos de espírito, e que mereciam nozes e confeitos em um triunfo romano; outros, pragas horríveis que faziam arrepiar as carnes. De vez em quando a solta massa desta ladainha de chufas e maldições se reunia e concentrava numa trova, grosseira sim mas feita de arte, e que bem mostrava não ser inteiramente espontânea aquela demonstração popular, senão que já tinha sua direção e contra-regra.

Ei-la aqui a trova – ou o hino para falar em língua revolucionária moderna:

Béu, béu, béu! Tira o chapéu,

Que aqui vai dom Pêro Cão!

Hão, hão, hão! Só canzarrão!

Tão ladrão é o bispo como o Pêro Cão.

Cain, cain, cain!

Diz-lhe o bispo assim:

_ Por que ganes tu, meu fiel mastim?

São os caldeireiros que vem sobre mim.

_ Deixa-os, deixa-os, Pêro Cão.

Disse o bispo ao mau ladrão:

Que eu te deito esta benção,

E te faço bispo cão.

Se eu sou bispo barregão,

Bispo mouro e mau cristão,

Que importa que o seja um cão?

Hão,hão, hão!

Bispo temos barregão:

Que importa que o seja um cão?

Béu, béu, béu! Tira o chapéu,

Que aqui vem dom Pêro Cão!

Hão, hão, hão, só canzarrão!

Tão ladrão é o bispo como o Pêro Cão.

E aqui um martelar de arames e latões capaz de encher as medidas, de saciar a sede deste metais, bem pouco preciosos, que devora as entranhas do nosso amigo Meyerbeer, cujo tímpano escaldado e gretado creio que nem já o carrilhão de Mafra era capaz de fazer vibrar.

Atrás dos gaiatos, cantores destas loas, marchavam, como de razão, os menestréis caldeireiros. Estes, como digo, acompanhavam e fundamentavam com seus instrumentos a música vocal da revolta.

Bem sabes, amigo leitor, que nós não fazemos revoluções, contra-revoluções ou coisa que o valha, sem hino. Somos uma nação harmônica, essencialmente harmônica, harmônica a ponto que, tanto mais se acha tudo em desarmonia e desacordo entre nós, tanto mais precisamos de nos mover ao compasso de patrióticas cadências.

Nenhum povo do mundo se pode gabar de possuir tão rica e vasta coleção de hinos patrióticos; tão belos todos, tão originais, tão excitantes, que dariam inveja ao próprio Tirteu, ao demagogo Alceu, e cujas palavras – não somenos das notas – deviam passar à posteridade gravadas nas nádegas das sereias do Passeio público de Lisboa, ou na fachada do teatro Agrião, ou embrechadas – que mais seguro era ainda – pela mais be]la das belas artes Eusébias, no mosaico do Rocio. Seja onde for, mas quero vê-las consubstanciadas, associadas por qualquer modo, a um dos grandes monumentos de arte contemporânea que hão de imortalizar o século dos nossos Péricles.

Seguia-se a trubamulta do povo armado; uns de cota e celada, outros só de morrião. Foice este, lança aquele, espada estoutro; de aqui alabarda, de além vinha a escuma ou azevã.

Barbeiro houve que, sem esperar três séculos por D. Quixote, tinha descoberto que a sua bacia era o elmo de Mambrino, e a encaixara na cabeça. Tal taberneiro levava no mesmo sítio um funil; panelas muita gente. Havia um sem-número de tachos servindo de rodelas. O tipo caldeireiro da revolta dominava e predominava em tudo visivelmente. No meio deste labirinto de gente armada, mal armada de suas armas exteriores, fortemente armada da energia interna de sua alma, do seu rancor, e para dizer toda a verdade, da imensa justiça de sua causa – claramente se distinguia um grupo mais saliente e luzido que os outros todos, pela formalidade e elegância do traje em uns, pela regularidade da armadura me outros. Era quase toda a companhia dos alabardeiros do bispo, que Rui Vaz e Garcia Vaz tinham feito desertar para as fileiras populares.

E à frente destes iam os dois irmãos, levando entre si um mancebo guapamente vestido, mas de um traja meio de galã meio de clérigo, o traje de um elegante escolar daqueles tempo – traduzamos em língua de hoje: um estudante leão.

Para logo o conheceu Gertrudes, que estava vendo passar tudo isto da sua janela, e um grande susto a tomou ao ver realizado o concerto de seus planos: como sempre sucede aos maiores entusiastas quando, chegado o momento decisivo, vêem, no perigo até ali buscado e desejado, aqueles a quem mais querem.

Também não tardou a reconhece-lo Briolanja; e acelerando nos dedos o movimento das contas, quase sem interrupção das ave-marias e padre-nossos que ao mesmo tempo rosnava, aia misturando ralhos e rezas, como era seu modo.

_ Que estais no céu, santificado... Não no disse eu, menina? Seja o vosso nome... Ele é, Vasco!... Venha a nós o vosso reino... Gertrudinhas, filha... Seja feita a vossa vontade... Fr. João da Arrifana que o não benzeu... Assim na terra como no céu... Pobre rapaz! Cair no poder dessa gente?... Gloria patri et filio... Ai filho, quem te há de tirar das mãos desses fariseus!...

E assim continuou em seus parêntesis a tia Briolanja, sem quebrar o fio da coroa que rezava, nem deixar as coisas dês-te mundo, que tão fortemente a preocupavam sempre, ape­sar do outro.

Estava a rua toda apinhada de gente. Defronte do arco e para o lado de que está o altar da Santa, os archeiros fize­ram alto e conseguiram arredar a espessura da multidão.

Rui Vaz correu o ferrolho da porta de Aninhas, e subiu com Vasco ao primeiro andar, chegou à janela com êle, e fazendo daí rostrum ou tribuna de suas arengas:

— Aqui — bradou — aqui, meus amigos, diante deste ben­dito arco, na presença da santa mãe da mãe de Deus, aqui onde o agravo foi feito, aqui juremos a vingança dele, e aqui demos preito e homenagem ao caudilho que escolher­mos para nos dirigir e capitanear.

— Bem, bem! isto é falar.

— Bons amigos e vizinhos, juremos obedecer-lhe em tudo e por tudo.

— Isso agora muito é — disse uma voz resmungona dentre as turbas.

— Em tudo, em tudo! — clamou a multidão entusiasmada e sem saber o que clamava.

Enquanto ele fôr por nós — continuou o dos escrúpu­los; — e tratar da nossa fazenda como cumprir...

— Está visto: pudera!

— E se não, não.

— E se não, não.

— Alto lá — acudiu Rui Vaz, que viu começar a sacudi­rem-se pelos ares as ressoantes bexigas da doidice popular:

— Alto lá! Se já começam as desconfianças e ciúmes que sempre danaram e perderam quanto é do povo, e por fim o entregam fraco, dividido e exausto, em mãos dos poderosos, que não precisam mais trabalho para dominar sôbre nós, senão esperar-lhe a vez, que nunca vem tarde... Então deixemo-nos disto. Péro Cão que nos roube quanto quiser, o bispo que nos leve quantas mulheres e filhas se lhe anto­lharem... Aninhas que se deixe estar no paço ou no al­jube ou onde quer que está.., E Afonso de Companhã que se los coma com pan, como diz o castelhano... Ou que os doure e os traga por fora do barrete, como fazem senhores quando el-rei lhos prega... Cada um por si e Deus por todos. Quem lhe comer que se coce; e a quem lhe arma­rem a testa, que marre onde quiser e em quem quiser; que eu, por mim, já me não quero meter em danças que hão de acabar em certo baile de três paus que eu sei, e Pêro Cão batendo o compasso no meu cachaço, para mais sabor lhe dar.

Um murmúrio geral de descontentamento correu pela multidão.

— Nada, meus amigos — continuou o singelo orador, sin­gelo, mas arteiro ou artista bastante para conhecer o efeito que tinha produzido: — Nada, nada, aqui não há senão pe­gar ou largar. Precisamos de quem nos acaudilhe nesta ar­riscada empresa em que nos metemos. Os nossos juizes e vereadores são os que sabeis. Fidalgos nâo os queremos, nem aqui os há. Os nossos não são para isso. Sabeis o que esta tarde vos disse?... O segredo?...

— É verdade, o segredo. Que vem ai...

— Quem é que vem, quem é que vem?

— Silêncio! que ainda não deu meia-noite.

Mas de ouvido em ouvido, e no maior segredo. foi passan­do a grande nova de que el-rei D. Pedro estava em Grijó, e de que aquela noite entraria disfarçado na cidade, se o povo se apoderasse do castelo da Sé.

— Pois bem — continuou Rui Vaz: — minha tenção era que escolhêssemos um mancebo capaz, amigo de el-rei, com ânimo e coração para se pôr à nossa frente, e puxar pela espada ou pela língua, segundo for mister. Mas corno o não querem...

— Queremos, queremos.

— Pois, se o quereis, e se ele nos há de guiar e governar enquanto durar esta pendência, é preciso que tenha poder, e que lhe obedeçamos todos. Juramos, ou não juramos obe­decer-lhe?

— Juramos, sim, juramos.

— E que por dá cá aquela palha, porque se foi assim ou se foi assado, não havemos de entrar em questões e parlamen­tos, e a esgrimir de língua e de parola, quando é preciso es­grimir coa espada?

— Sim, também juramos. Tem razão Rui Vaz! Viva o nosso capitão!

Qual outro Marco Antônio, Rui Vaz vinha preparado pa­ra esta cena da investidura. Mais feliz porem ou mais prudente que o romano orador, ele não ofendeu, com o símbolo do poder que queria conferir, a ciosa majestade das turbas soberanas. Sacou de um pano, em que a trazia envolta, uma formidável espada de cavaleiro, cingiu-a à cintura de Vasco, desembainhou-a depois, pôs-lha na mão; e inclinan­do-se como quem lhe fazia preito disse para ele:

— Tomai esta espada, senhor Vasco, e jurai pela sua benta cruz, pela Virgem padroeira da nossa cidade, e pela bem-aventurada Sant’Ana que nos ouve, jurai de vingar nossa afronta e de punir por nossos direitos.

O que neste momento passava pelo ânimo de Vasco, não é fácil dizê-lo: tantos eram e tanto se lhe atropelavam os pensamentos encontrados de seu espírito! Gertrudes porem, Gertrudes que estava defronte, cujos olhos animados, cuja fisionomia resplandecente diziam o quanto ela triunfava naquela ovação popular do seu amante — Gertrudes domi­nava tudo, seu amor vencia todo outro sentimento.

Ver-se ele, estudantinho sem nome ainda, elevado de re­pente a tanta autoridade e poder na presença daquela mes­ma cujos olhos mais queria brilhar! - - - Esta grande rea­lidade têm os fátuos sonhos da ambição; este é verdadeiro e certo gozo que vale bem a pena descontar depois por dias e anos de cruéis desapontamentos.

O nosso estudante sentiu por todo o seu corpo aquele es­tremeção nervoso que dá a faísca elétrica da ambição, quando é a nobreza, quando é a poesia dos sentimentos elevados que sobre nós a descarrega. Os olhos ardentes, o rosto afo­gueado, o coração batendo-lhe forte na arca do peito, levan­tou o braço da espada e erguendo-a acima da cabeça, pro­nunciou com voz sonora e vibrante:

— Que me ouça Deus e me ajude! Assim juro aqui, on­de a nossa cidade foi desonrada e insultada, diante da santa imagem que nos ouve... Aqui onde está o melhor de meu coração, e onde eu quisera ter mil vidas para asselar com elas a minha fé e o meu juramento — juro que hei de levar a cabo esta empresa, desafrontar os nossos vizinhos e amigos, vingar a nossa injúria, e restituir a liberdade ao povo opri­mido­.

O gesto, o som de voz, o ar inspirado e comovido do jo­vem orador — mais ainda que as suas palavras — entusiasma­ram a multidão. Uma torrente de vivas, de aplausos furio­sos rebentou do seio das turbas, e foi a solene aceitação do juramento com que o tomaram por seu caudilho e capitão.

— Agora ácasa do conselho! — disse Rui Vaz. — Vamos buscar o nosso pendão, o estendarte da Virgem.

— Vamos! — bradaram todos.

— E de caminho, — disse um daqueles salvadores da pátria que nunca faltam para dar alvitres infames quando lhes pa­rece que o podem fazer sem risco de suas pessoas: — de ca­minho deitaremos das janelas abaixo os nossos potrosos juizes.

— Quem foi esse que falou? — bradou Vasco: — quero ver-lhe a cara, e que saia bem a claro com a sua infâmia.

— Este foi, — disseram três robustos caldeireiros que para logo filaram e sacaram a terreiro a ingoiada e mal roupida figura de um alfaiate remendão que todos conheciam por viver das migalhas do tinelo do bispo, e por ser quem mais se curvava a caía de ambos os joelhos no chão para receber a apostólica bênção quando o despótico prelado sucedia de passar. Também logo ali se soube — o que é que se não sabe neste mundo! — que morava numas casinhas de Rio­-de-Vila que lhe dava a caridade de mestre Martim, um dos tais juizes por ele condenados á Rocha Tarpéia, a troco de um mau chapeirão que alguma vez lhe fazia, de algum fer­ragoulo velho que por acaso lhe consertava.

— Que me desarmem esse mau homem — disse Vasco —e mo prendam. O povo não quer tais defensores.

— Bem dito! E viva o nosso capitão!

Se todos os chefes populares soubessem e ousassem repri­mir assim os aduladores das más paixões, os sicofantas do povo — que os há nas praças como nos paços, e onde quer que está o poder, estão eles — há muito que o despotismo nãoexistia na terra. Bem nasce em todos os climas a se­mente da liberdade; mas desde que lhe germinam as folhas seminais, há de haver um Washington que a monde, a am­pare, ou os espinhos são tantos logo, tantos os cardos e abro­lhos, que a afogam.

Gertrudes, a nossa entusiasta Gertrudes, calam-lhe as lá­grimas de satisfação ao ver como o seu Vasco sabia usar ge­neroso de um poder de que tãonatural é sempre abusar-se.

Sorriu-se para ela o amante, e fazendo-lhe um sinal de adeus que só dos dois foi percebido, alçou a voz para as turbas e clamou:

— Marchemos, amigos. Ordem! e que não haja desman­do, nem se faça desaguisado a ninguém.

— Viva, viva! Marchemos! — respondeu a multidão entu­siasmada.

Vasco desceu rapidamente a escada da casa de Aninhas; qual foi a sua admiração, ao chegar à porta da rua, de en­contrar ali aparelhado e pronto, o seu nobre, o seu querido alazão que ainda há pouco entregara ao palafreneiro do bis­po, e que tãolonge estava de o tornar a ver tãocedo!

Não foi por certo maior a alegria de Palmeirim ou de Amadis, ou do próprio Florismarte de Hircânia, quando, ao sair de longo encantamento, ao desembocar de alguma ca­verna de leões, de algum antro de ogres polifemos, davam com seus queridos ginetes que tinham deixado dali umas duas ou três mil léguas, e agora lhes apareciam selados, em­bridados e prontos, batendo o pé de contentamento, e sacu­dindo as flutuantes clinas com o prazer de tornarem ver seus donos.— Como aqui, meu nobre alazão! — dizia Vasco amiman­do-o, correndo-lhe a mão pelo asseado colo: — meu destemi­do, meu valente! Quem te tornou a minhas mãos em tãoboa hora e quando mais te desejava e te preciso?

— Eu, que o não deixei levar para o paço — respondeu Garcia Vaz. — Pudera! Em tempo de guerra, cavalos são muniçôes e bastimento de guerra, não se deixam passar para o inimigo. O nosso capitão não nos havia de comandar a pé; e outro potro como este não o há em toda a cidade, nem talvez em toda a comarca de Entre-Douro-e-Minho. Sabe­mos da afeição que lhe tendes... E assim, boa presa! —Largue-lhe as rédeas, tia.

Vasco, enlevado em mirar o seu querido alazão, não havia até ali atentado no estranho pagem em que lhe tinha a ré­dea. Era uma velha muito velha, mais velha que o seu recosido mantéu, encolhida, corcovada, e com a cabeça to­da envolvida num capuz enorme cuja extremidade lhe caía pelas costas, como capuz de dó; e ela atordoada num cajado retorcido e enverrugado como ela; uma verdadeira bruxa em pele e osso — não possodizer em carne, porque a não tinha.

— Sim, sim — regougou a velha: — as rédeas lhe largo e em bem as solto a quem tão bem as sabe tomar e governar! Benza-o Deus! E que gentil moço que ele é, o nosso capi­tão!

Mal tinha dito a velha as primeiras palavras, que já o bom do estudante, suspenso, tomado como de um assombra­mento repentino, punha nela os olhos espantados, e nem já o alazão, nem mais nada já via de quanto o cercava.

— Tomai, tomai as rédeas — disse a velha com uma certa inflexão significativa na voz, que o advertiu de pôr tento em si: — tomai, e cavalgai, que são horas.

Ninguém mais percebeu esta inteligência que passava en­tre a velha mendiga e o caudilho da revolta. Ele caiu em si com efeito, montou rapidamente a cavalo, e tomando a frente de seu pouco ordenado exército, se pôs em marcha para as antigas casas do Senado portugalense.

— Bendito sejas e bendito vás, — ficou murmurando a velha — que assim enches de luz e de alegria os olhos da mãe que te criou!

E sumindo-se entre a multidão, e por alguma viela bem esconsa se escapou, não sei por onde nem para donde, que ninguém mais a tornou a ver.

CAPITULO XXVI

E ANINHAS?

E Aninhas? E a pobre Aninhas que está no aljube? Que é feito dela, senhor historiador? Deixa-se assim por tanto tempo nas asquerosas enxovias de uma prisão a uma bela ra­pariga tão interessante, tãoboa, a amiga da nossa Gertrudes, a Helena enfim desta Tróia, por cujo roubo arde já ainvicta cidade nas labaredas da revolta, da guerra civil quase? E passam-se s e s — a qual mais peque­no, é verdade, mas são muitos — sem nos dizer o descuidado cronista o que é feito dela?

Contesto, amigo leitor: a culpa não é minha. Cervantes não podia ser responsável dos descuidos e lapsos de Cid Ha­mete Benengeli. Se Dulcinéia está mal-encantada, e tãodepressa a vemos trotando na sua burra pelos campos de To­boso, como passeando com suas donzelas nos deliciosos jar­dins da Cova de Montezinos; se o nosso amigo Sancho apa­rece aqui montado no seu ruço, que duas páginas antes lhe subtraira tão sutilmente dentre os calções o honrado Ginez de Passamonte — é o cronista mouro, não o seu ortodoxo editor, quem tem a culpa desses lapsos.

O mesmo me sucede a mim com esta verídica história do meu Arco. Traduzo umas vezes, copio outras, segundo a vetustade da linguagem o pede, no precioso Ms. que tive a fortuna de achar. E se alguma reflexão ou ponderação mi­nha lhe ajunto em forma de glosa, nunca me meti a alterar a ordem da história, e sigo fielmente o douto Grilo a quem devemos estas incomparáveis memórias que tanto ilustram e engrandecem a nossa cidade e a história do senado e povo portucalense.

Tenha pois paciência a bela Aninhas; por ela e com ela a tenha o leitor benévolo, que antes de corrermos os ferro­lhos e de abrirmos os cadeados do aljube episcopal, temos de subir outra vez as escadas do paço, de atravessar suas longas salas, e de tornar a entrar naquele misterioso e reca­tado gabinete onde, pouco há, vimos revestir-se da púrpura e arminhos, adornar-se de todas as fastosas insígnias da au­toridade eclesiástica e feudal o arrogante senhor da nossa terra.

Antes que, nas vizinhas ruas de Sant’Ana e Banharia, se passassem os estrepitosos acontecimentos que nestes últimos s foram relatados, tinha acabado em Gala, na antiga capela de São Marcos, da outra banda do rio, a solenidade religiosa do dia: e cônegos, capelães, cantores, ministros su­periores e inferiores, cada qual como pôde, e fora de toda a forma de procissão, como é de uso, tinham voltado para a cidade. Nem esperaram pelo costumado jantar que as au­toridades do Burgo-novo eram teúdas de dar, senão por foro escrito, ao menos por usança e vêzo antigo: jantar que lhes valia os três dutos de turíbulo e a jaculatória de Boa gente, boa gente que na primeira parte desta história menciona­mos, e que ainda em nossos dias se davam e rezavam, como aí refiro. Pois desta vez a boa gente de Vila-nova ou Burgo­-novo, lá se comeria as suas fanecas e azevias, porque nem um menino do côro, nem o maceiro do cabido lhe quis fazer honra ao seu jantar das ladainhas: tão assaralhopados anda­vam todos, e tanta pressa tinham de vir meter-se em suas casas.

O bispo fora dos primeiros a retirar-se. Cavalgando sua mula branca, de rica gualdrapa de veludo carmesim com passamanes e franjas de ouro, acompanhado de seu alcaide-mor que trazia à direita, seguido de muitos ovençais, fami­liares as mais pessoas de seu trem e estado secular, todos ar­mados — e ele com todos— entrara senhor temido e podero­so na sua boa cidade do Porto, de donde, há pouco, saíra pastor de povos e apostólico prelado. Passou o rio na sua grande barca, dita a “barca da Sé”, subiu até o paço, deu ordem ao alcaide-mor para que tivesse tudo em armas e em som de guerra, mas caladamente e que o não suspeitassem na cidade; e ele tornou para o seu gabinete.

— Que me chamem Fr. João, que me avisem em voltando Vasco, e por agora que me deixem só. Ficai vós, Pêro Cão.

Assim disse o bispo, entrando para o seu gabinete: e as­sim fizeram todos como ele disse.

Só está o príncipe da igreja. Só com o seu primeiro mi­nistro, e esperando o seu principal conselheiro, O prelado parece alegre e de bom ânimo, Pêro Cão menos triste que esta manhã. Talvez ainda na face patibular do ministro, se possa divisar uma tentativa de sorriso; amarelo sempre, é verdade, e torcido de ruim torcer... Mas não entravam de outros sorrisos naquela cara.

— Com que, — disse o amo, reclinando-se a gosto no alto espaldar de sua cadeira confortável. . . tão confortável quan­to cadeira o podia ser no décimo quarto século. — Com que, estás melhor, Pêro Cão, com menos medo?

— Agora vamos andando: a arraia-miúda sossegou. Mas esteve danada!

— Se lhe tinhas mordido tu!

— Morderia, morderia: mas se fui eu que os danei, al­guém me danou a mim primeiro.

— Não desatines, Pêro. Estás por saber ainda que há ali­márias ferozes e cervais, de tão ruim sangue e tão perversos humores, que, sem que a baba de outro nenhum animal as toque, com sua própria maldade enraivecem e se danam?

__ Hum!

— Hum! Isso mesmo: rosnas como dogue velho e comi­do de tua má rabuge peçonhenta. Eu, é verdade, que te di­go: “Fila!” e tu filas: cão és, para isso te comprei. Mas não te digo: “Rasga, fere, despedaça!” como tu fazes. Por tua conta e risco o fazes, à lei da tua má e perversa natureza que nunca pude domar nem ensinar. E olha que disse:

“por tua conta e risco’. Risco disse, Pêro Cão; e desejo que saibas que eu te não torno a livrar das garras do povo, como hoje fiz. Para outra vez lá te avirás com eles. Que te en­forquem à sua guisa e que me deixem.

— Enforcar!

— Enforcar. Pois que pensas tu, homem? Entre esse pescoço e a corda de esparto há uma atração tão visível e poderosa, que, mais dia menos dia, Pêro, não te vejo outro remédio senão ires bailar onde tens feito bailar a tantos.

— Tendes um modo de gracejar!... E quando estais de bom humor, dizeis coisas que de verdade fazem rir a gente!

E riu... Pêro Cão riu. Mas que riso! Se a boca do in­ferno rir, como eu espero e creio, quando por ela entrarem certos maganões que nós sabemos, há de ser assim que ela há de rir.

— Não gracejo — tornou o bispo, — falo sério e de muitas veras. Faze por ter amigos no povo, porque se eles me vem outra vez pedir essa feia cabeça. ela é tão feia, Pêro, que te juro...

— Para me eu fazer amigos no povo... é a coisa mais fá­cil que há.

— Como assim?

— É fazer-me eu inimigo de.

— De quem?

— Inimigo vosso.

— Ah!

— Como fez Rui Vaz e seu irmão Garcia Vaz, que fugiram do paço, como sabeis, e se desquitaram de homens vossos; e não queria senão que vísseis as palminhas em que os traz o povo por essa cidade.

— Os traidores! — exclamou o bispo, levantando-se e pas­eando a grandes passos a cólera que o fazia saltar. — Os traidores!... Olho neles, meu Pêro Cão. E em sendo tem­po, e que eu te diga: “Fila”

— Não filarei.

— Como? não filarás!

— Hum!

— Ah! também tu?...

— Eu não quero ser enforcado.

— Não? Pois o teu querer faz pouco ao caso: porque se­ja o povo que te pendure, como Judas, no cano de algu­ma figueira; ou eu que te mande balouçar em certa árvore seca de três paus — a coisa não faz muita diferença para ti, creio eu. E de um modo ou de outro, a doença de que hás de morrer, já a sabes tu. Assenta a tua alma nisso, deixa-a nas mãos do demo, cuja é desde que nasceste; e vamos a outro conto.

Pêro Cão tornou a sorrir de seu verdadeiro sorriso de en­forcado: por modo que lhe quadrou o dilema do bispo, e o deixou tranquilo, O prelado fixou nele seu olho perscru­tador, e sentando-se outra vez mais sossegado, disse:

— Toma esta chave, abre aquela porta, e vai, pela pas­sagem oculta que sabes, às enxovias do aljube.

— E a quem quereis que?... — tornou o monstro, esbu­galhando-se-lhe os olhos de hiena, e completando a reticên­cia com um acionado horrível que significava estrangular; o sonho constante, o ideal sempre desejado de sua negra vida.

— A ninguém, magarefe — respondeu o bispo assustado:

— A ninguém! E sobre tua cabeça, que te não atrevas a tocar um só cabelo da sua.

— Ah! já entendo, — tornou o canibal, adoçando — que adoçar! — numa expressão de malicia crapulosa os enrija­dos músculos daquela cara de leopardo: — Já entendo. — E piscou obscenamente um olho injetado de sangue que fazia mal ver assim. Oh! antes vê-lo arder com a sanha da car­nificina, do que amolgar e derreter-se asquerosamente na torpe e brutal lascívia que aí chameja agora... — Já enten­do: quereis que a traga com boas palavras, que lhe diga...

— Não quero que lhe digas nada, senão que mando eu que venha à minha presença.

— E se não quiser por bem, já se sabe...

— Nada de violências, dogue! Nem são precisas. Virá logo: sei que o deseja.

— Ah! ah! se tendes um jeito, uma lábia para as levar...

— Silêncio, bufão, e andar.

A má besta descaiu o focinho e a orelha com esta rebuta­da do dono; e levantando o pano-de-rás no sítio que ele bem conhecia, abriu a porta secreta e desapareceu nas trevas da obscura escada de caracol que levava aos subterrâneos do pa­ço, às enxovias do aljube e aos outros criptos episcopais, só dele sabidos e de seu amo, que a ninguém mais confiava aquela chave nem revelava os negros mistérios que ela fe­chava.

XXVII

PECADOS VELHOS

Só ficou o bispo, só com seus maus — e por que não tam­bém com algum de seus bons pensamentos? Rara é a alma perdida que, na solidão e longe do olho do mundo, não sen­te, quando menos, picar-lhe o remorso numa asa do cora­ção, e dizer-lhe: Que fazes!... — ou: Que fizeste!... O remorso é o bom pensamento dos maus; é o último dom que à despedida nos deixa, quando se vê obrigado a desamparar-nos, o anjo que desde o berço tomou conta de nossa vida. E jamais o instinto, o desejo do bem se chega a apagar de todo no homem: é o fogo santo que até o derradeiro ins­tante o alimenta. Se amortiça com a cinza das maldades, se não vemos a sua luz com o negrume dos vícios, ele lá está contudo sempre vivo no fundo do coração. Um sopro que de longe lhe dê o anjo que de nós fugiu, e que do céu nos contempla com lágrimas de dó e de entranhável piedade. um sopro só basta para o reanimar e avivar.

Oh! e na solidão é que mais sentimos o sopro celeste avi­var a santa luz de nossa alma. Pena do mal feito, temor do mal que se intenta fazer, saudades da perdida inocência, fastio dos tristes gozos do vício, travor amargo dos crimino­sas deleites, suaves recordações da infância, lembranças dos conselhos paternos... E vós, mais que tudo, queridas memórias da mãe que nos teve nos braços, o que sois vós todos, pensamentos que acudis nas horas da solidão? Oh! que sois senão o lampejar que se anima, o luzir que se revive da ce­leste luz do Bem que Deus pôs inextinguível em nossa alma?

Este homem, que desonra o augusto caráter de sacerdote e de prelado, que enxovalha a mitra do apostolado evangé­lico nas torpezas de Babilônia, e com a mesma mão com que toma, no cálice, o sangue de Cristo para o beber no altar, empunha a taça das prostituições do Egito, para a sorver nas temulentas orgias dos lupanares — este homem sagrado ao pé da cruz no alto do Calvário, e que desceu aos vales de Sodoma e Gomorra, a banhar-se no lago de betume arden­te, queimando em suas mãos excomungadas o óleo santo com que o ungiram em pontífice do Crucificado, este gran­de criminal, este pecador escandaloso não era contudo um monstro: era una homem perdido do vício, cego do poder, corruto pela riqueza, gafo da má lepra que, naqueles tem­pos de soltura e prepotências lavrava tão geral pelos pode­rosos da terra, seculares e eclesiásticos, a lepra era a mesma. Piores foram depois os Bórgias, e sentaram-se na cadeira de São Pedro: a Sé portucalense não chegou a ver, como a ro­mana, Nero e Heliogabalo com a cruz ao peito, a mitra —ou a tiara — na cabeça, e os fiéis prostrados aos seus pés.

Não. E desta mesma devassidão que tanto nos escanda­liza, e ainda hoje faz execrar a memória deste mau bispo, raros, raríssimos exemplos houve na nossa terra. O que se­rá daqui em diante não sei, desde que o episcopado se tornou eletivo — dizem as revelações do mano Licurgo — o conclave noturno, e que os cardeais dele são o irmão terrível, e os irmãos mais ou menos vigilantes que têm o exclusivo de velar pela salvação e salvatério da Igreja e do Estado. Não sei, não sei; e não sou eu que o digo, são eles. Mas se esta­mos condenados a ter bispos feitos assim, que vão Suas Ex­celências Reverendíssimas pregar aos peixinhos do mano Afonso de Albuquerque, porque as homílias deles acho que será pecado mortal ouvi-las a gente.

Pois, nem mau homem sequer era aquele mau bispo; per­doem-me dizê-lo, mas com o próprio demo se deve ser justo.

Sua mocidade leviana e solta tinha-se passado nos campos tumultuosos e indisciplinados da guerra civil, palestra a mais desmoralizadora de quantas há. A opressão, a violên­cia, o latrocínio e o homicídio são virtudes às vêzes, no cre­do faccioso, são ações indiferentes, quando menos, se pratica­das contra os do partido contrário. Vizinhos, amigos, pa­rentes que sejam, quanto mais perto de nosso coração está a vitima, tanto mais se exalta por virtude o crime, porque mais desnatural é.

Vem depois o descanso da paz — que não é descanso, mas o cansaço da guerra — e são os homens criados nessa escola os que têm de ir exercer os cargos todos da república, sentar-se nas cadeiras curuis do senado, julgar nos tribunais, mi­nistrar nos altares... Santo Deus!

Tal fora feito este bispo, só porque da facção dominante, filho de uma família poderosa, e ele menos ignorante que o resto de sua ilustre família. Elevaram-no ao episcopado as intrigas dos nobres, tão onipotentes então como as dos merceeiros hoje. A cruz que trazia ao peito, não a tinha porém no coração. O Evangelho, que lhe puseram às cos­tas, não lhe pesava porque o não entendia nem o sentia. Acreditava piedosamente que nascera para mandar e gastar, os povos para servir e pagar. A el-rei, seu senhor susera­no, estava pronto a servir com tantas lanças e bestas, quantas lhe eram devidas: em nada mais se julgava teúdo de obedecer-lhe, ele, príncipe da Igreja, e só dependente do papa. De suas devassidões e orgias brutais, tinha um pe­queno, um tal qual remorso, porque enfim era eclesiásti­co, era prelado: mas bestialmente pensava que uma absol­vição de Fr. João da Arrifana, ou de outro frade seu cúm­plice nas mesmas torpezas, bastava para o remir desses pecadilhos, porque enfim, enfim, não eram condessas nem ricas-donas as que ele tinha roubado — seduzido ou compra­do pela maior parte... Violência não a fizera a nenhuma.

Oh! sim fizera... E com vil traição, com pérfida aleivo­sia!... Uma vez, há muito, e não era bispo ainda, mas sim­ples cavaleiro, soldado, comandando uma partida de faci­norosos, com o título de aventureiros, ou de voluntários, ou do que quer que então se chamava a essa peste. Eram uns bons patriotas (estilo de todos os tempos) que pelos verdes campos de entre Lis e Lena, faziam a guerra, em nome de el-rei, e contra o infante, mas por sua própria conta deles, contra os porcos, as galinhas, as vacas e as searas dos lavradores.

Uma noite escura, que não havia lua nem estrelas no céu, iam soltos e em grande algazarra pela campina e perto já dos antigos pinhais que por ali entestam. Senão quando, ao chegar-se mais a eles, foram cair numa emboscada de homens do infante — outros que tais facinorosos como eles — que os destroçaram e retalharam sem dó nem piedade, e que, tendo feito o seu feito, fugiram. Quase toda a alca­téia ou guerrilha, do que hoje é bispo, ficou estendida de­baixo dos pinheiros; os poucos escapos deitaram a bom cor­rer para bem longe; e entre os mortos e moribundos ficou o próprio capitão. Estava ele ainda com vidas mas já quase sem alento, e derramando de muitas e largas feridas o últi­mo sangue das veias golpeadas. Vinha alvorecendo a ma­nhã que ele já não via, e despontando detrás das colinas o sol que não tornaria a alumiá-lo, se àquele tempo ali não passasse um homem ancião de longas barbas e longas ves­tes, calva a fronte, mas coberta de uma touca alva e alaran­jada que bem denunciava sua origem oriental. Abordoava­-se num bordão branco, trazia pendentes ao peito uns rolos de pergaminho, e à cinta uma larga bolsa de couro em que tiniam redomas, utensílios de vidro e de metal, ao que pa­recia.

Voltava o velho de uma aldeia perto, onde fora acudir a um seu parente que se morria de febres malignas, e recolhia agora aos subúrbios de Leiria, sua ordinária residência. Pa­rou ao ver aqueles homens mortos à beira do pinhal; e se parecia um levita venerável no trajo e ademã, um velho dou­tor da lei — o seu coração era o do samaritano caritativo; porque não pensou, não hesitou, nem se pôs a rezar, senão que, um por um, se foi percorrendo aqueles mutilados cadá­veres, ou que tais pareciam, a ver se algum podia salvar ain­da, administrando-lhe o vinho e o óleo da parábola do Evan­gelho — em que ele não cria porque era israelita o velho,sincero e estrênuo professor da lei antiga.

Tudo achou morto; só vivia ainda o cavaleiro, mas pró­ximo a finar-se de exausto e abandonado. Conheceu po­rém o velho que havia esperança e remédio possível, tirou da sua bolsa fios e bálsamos com que lhe pensou as feridas:depois um elixir milagroso de que lhe deu algumas gotas a beber; e reanimado assim, o levou consigo, meio de rastos, meio às costas, porque mais não podia o velho.

E felizmente que não morava longe: era à outra beira do pinhal, perto dos muros de Leiria, nuns barracões baixos, sem aparência alguma exterior, mas que por dentro tinham mais cômodo e conforto, mais luxo, mais elegância e rique­za, respiravam mais civilização e mais gosto do que nenhum palácio de rei cristão em toda a península das Espanhas.

Saíram a recebê-lo seus criados e família que o estavam es­perando e que de longe o viram vir. Veio a velha Sara, sua esposa, e Ester a sua querida, a sua única e adorada filha. Quando o viram assim curvado sob o enorme peso daquele homem meio morto, vestido de ferro, e ambos escorrendo em sangue:

_ Bendito seja o Deus de Abraão! — exclamou Sara: —porque tu não vens assim, amado de aninha alma, senão por­que algum bom anjo te deparou a ocasião de fazeres bem a teus irmãos. Salvaste esse homem da morte?

— Ainda não; mas espero.

— Já nisto lho tinham tomado os criados em braços, e o le­vavam para o melhor quarto da casa senão esperar ordens do amo: era sabido e costumado aquilo. O velho acompanhou o moribundo, e o viu deitar na cama, e ajudou a colocá-lo na posição mais conveniente, e de novo e com mais tento lhe visitou e pensou melhor as feridas, duas das quais pare­ciam mortais.

Mas a Caridade é uma virtude que não desacompanham jamais suas duas irmãs, a Fé que dá o ânimo, e a Esperan­ça que alenta o coração.

— Veremos, veremos ao levantar do aparelho. Deus nos acudirá.

E o ancião e a sua velha esposa e a sua jovem filha entre si repartiram logo as horas da vigia em que haviam de reve­zar-se junto ao leito do homem... E nenhum sabia, e ne­nhum perguntou que homem era.

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