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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Este inferno de amor: ESTA ABERTA A SESSÃO:INTERVENÇÃO:AS TRÊS MULHERES:CONCLUSÃO:

— Ouviste que é meia-noite?

— Ouvi, sim; e então?

— Então, vem ele ou não vem? Se não vem, isto acaba mal. Povo é povo: em o demorando com qualquer pretex­to, em lhe fazendo passar mal uma noite, começa a esfriar-lhe a cólera; e quem fica nos cornos do touro somos nós.

— Mais medo tenho eu que lhe ela ferva demais, e que entrem por ai a fazer desatinos que el-rei desaprove e casti­gue depois, e que nós tenhamos de pagar também. Até ago­ra tudo vai de maravilha; e se o mantemos assim mais uma hora...

— Mas ele, ele? EIe é que não sei...

— Ele!... Ele já cá está.

— Que dizes! É possível!

— Fui eu em pessoa, com o arcediago e com a bruxa de Caia — aquela velha que sabe tudo, e que conhece quantos alçapões, quantas covas e cavernas há no castelo e na cidade — fui eu com eles ambos abrir-lhe o postigo secreto que dá nos subterrâneos do paço, e que também vai à capela da Se­nhora da Silva na Sé. Lá está...

— Só está? Que perigo!

— Só: pois é homem ele que tenha medo? E quem se lhe há de atrever?

— Quem? Qualquer desses rufiães que há nesta maldita casa, e que o não conhecem pela maior parte.

— Não tem dúvida. É homem para mais: deixa-o. E além disso, Paio Guterres lá sabe onde o embrechou nos esconderijos da Sé. Ninguém o verá, e ele verá tudo, e se deixará ver quando for tempo. Sossega: isto vai de vencida, e nós havemos de ser...

— O que, Rui?

— Que sei eu, Garcia? Mais alguma coisa havemos de ser. Depois de tantos trabalhos...

— Não sei, não sei. A gente mete-se nelas, e o lucro. - -

— É para os que vêm depois... Assim tem sido sempre, e creio que assim há de ser sempre. Veremos.

— Homem, mas isso não tira que a gente que tem razão.

— E justiça.

— Pois então adiantei E Deus será conosco.

XXXV

ESTA ABERTA A SESSÃO

Era passante já da meia-noite quando das altas torres da Sé começou a reboar lenta, grave e compassada a tremenda voz de seu grande sino, que só em mui raras ocasiões se tange e sempre anuncia grande festa, grande pranto, ou muito extraordinário acontecimento público.
Quanto na terra havia que não tivesse entrado no alvo­roto, acudiu agora ao chamamento do bronze sagrado que parecia dizer a toda a cidade: “Vinde, vinde todos, e gran­des coisas vereis”.

Com efeito, dentro em pouco tempo revoltosos e pacífi­cos, armados e desarmados, toda a população do Porto se concentrava no largo da Sé, nas ruas, vielas e passagens circunvizinhas. A noite era bela mas sem lua, e as altas jane­las, as estreitas frestas da catedral começavam a mostrar as variegadas cores de seus vidros com as luzes que dentro se acendiam e que ia debuxando, aqui um santo mitrado com o seu báculo na mão, lã a cabeça de um serafim entre duas asas, além uma passagem da Bíblia, acolá uma legenda do Fios Sanctorum. Não tardou a voz do órgão a juntar-se a estes anúncios de grande e não esperada solenidade, prelu­diando nas cordas corais, e correndo por todas as escalas com seus magníficos e impressivos efeitos.

Logo, abrindo-se as portas de par em par, uma torrente de luz rompeu dos sagrados precintos, e inundou todo o largo apinhado de gente. E a multidão rompeu pela igreja den­tro, derramando-se pela imensa capacidade de suas vastas naves, atulhando-a, sem deixar senão a capela-mor e o coro, porque Iho defendiam os altos cancelos que do corpo da igreja os separavam.

Magnífico era o espetáculo; e ele só per si, prescindindo do interesse da grande questão popular que ia debater-se, bastaria para atrair as turbas. Os cônegos com suas murças ocupavam as cadeiras capitulares; o bispo, trocada a arma­dura profana pela púrpura sagrada, a mitra em vez do morião, e no lugar da espada o báculo de ouro, parecia um antigo e homérico “pastor de povos” que deixou no campo os seus atavios de guerra, e reveste no templo as infulas sacra­mentais para ministrar no altar do seu deus.

Mas o seu deus é o Deus da paz e da misericórdia, que as próprias mãos inocentes as manda lavar primeiro, antes que circundem seu altar os que a ele chegam. Como receberá ele das mãos ensanguentadas desse mau pontífice o holo­causto incruento que só é permitido oferecer-lhe com o co­ração mondado de toda a soberba, contrito, humilhado e nu de todo o mau pensamento?

Aí estava de porém, esse bispo em toda a pompa do prin­cipado e da púrpura, sentado cru seu trono, rodeado de seus clérigos e de seus oficiais, de seus ministros eclesiásticos e civis — à direita o arcediago de seu báculo, à esquerda o al­caide-mor de seu castelo — porque ele era senhor e apóstolo, carniceiro e pastor do mesmo rebanho: anomalia repugnante das idades bárbaras que tanto esplendor deu à Igreja, tanta luz tirou à Fé!

Sobre o altar-mor, que decorava um painel bizantino re­presentando a Virgem padroeira da nossa cidade, estava aber­to um grande livro dourado, resplendente de iluminuras, e com suas letras góticas enredadas de brilhantes arabescos. Eram os Evangelhos. E o livro estava encostado a uma al­mofada de brocado de ouro.

No baixo do coro, junto aos cancelos, sentados em tambo­retes rasos, os juizes e vereadores da cidade, os desembarga­dores da mitra, o arcediago de Oliveira como vigário que era; e distinto entre todos o nosso Vasco, sem largar o pen­dão da cidade que nobremente e com dignidade conservava na mão. À esquerda uma banca, sobre ela os implementos de escrever, e junto dela com a pena na mão e o ouvido alerta, o escrivão da cidade, o que hoje diríamos escrivão da câmara.

Todos calavam, todos aguardavam em solene silêncio a abertura daquela grave e pomposa conferência em que se ia decidir se a segunda cidade do reino, a mais livre e indepen­dente pelo caráter e propensões de seus habitantes, tinha de continuar a ser feudo do seu bispo e do seu cabido, ou havia de recobrar os foros de cidade livre e real que a doação de D.Teresa lhe tinha feito perder, e que a dureza do domínio eclesiástico lhe fazia desejar cada vez mais.

O povo, a quem a majestade das cerimônias católicas im­punha respeito e comedimento, ao ver o seu bispo ali rodea­do dos prestígios do culto, sentia acalmar-se-lhe a cólera e despeito com que inda agora investira o castelo de seu se­nhor. Pêro Cão, não estava presente; Vasco o chefe por eles escolhido, Paio Guterres o eclesiástico deles respeitado e querido, ambos ali eram, sentados naquele conclave em que se ia tratar de seus negócios. Sossegavam e esperavam: meto caminho andado para desencruar as mais duras paixões.

O aspecto mesmo do prelado não tinha já aquele ar de so­branceria provocante, não respirava aquele habitual desdém e desapegado desprezo que mais desafiava a malquerença pública. Suas barbas pareciam mais alvas e venerandas, seu rosto mais profundado das rugas, seus olhos com menos lu­me e mais embrandecidos, todo o ademã de sua pessoa me­nos ereto e soberbo, mais descaído, mais simpático enfim, e mais para se ver num homem colocado no fastígio das hon­ras eclesiásticas,

O bispo tinha a cabeça um tanto inclinada sobre o peito, mas os olhos fixos num ponto único de onde os não arre­dava: era no comissário popular, no elegante e jovem tri­buno, que solenemente sentado com o seu pendão na esquerda, e a direita gravemente colocada no peito, semelhava a estátua do santo campeão de Inglaterra que Portugal depois adotou por seu, quando o ódio a Castela fez exonerar a Dom Santiago do antigo cargo de padroeiro deste reino, que ele sempre reunira ao de Castela e depois ao padroado geral das Espanhas, e de que nunca pensou ver-se esbulhado o bom do santo.

Não tirava os olhos dele, e parecia não os ter, olhos nem atenção para mais nada, o bispo, senão para aquele mancebo.

Durou o silêncio, durou a expectação bastante tempo; e começava a sentir-se urna ondulação de impaciência correr pelo auditório, quando Paio Guterres, atento ao que passava, e temeroso de que alguma imprudência não viesse quebrar aquelas esperanças tão bem agouradas de paz, levantou-se, chegou ao meio do coro, ajoelhou e curvou-se profunda­mente ao retábulo da Virgem, depois tornou-se a erguer, e inclinando-se ao prelado, fazendo vênia a um lado e outro dos capitulares, volveu-se direito ao trono episcopal e disse:

_ Com permissão vossa, meu senhor e meu prelado, pro­porei diante desta respeitável assembléia a grave questão que aqui nos reúne, e cujas dificuldades ninguém mais que eu deseja ver resolvidas; pois, dando, como dou, justo valor aos agravos de que o povo se queixa, quisera vê-los reparar sem quebra na dignidade da Santa Igreja, sem mais perdi­ção de vidas, de honras, de fazendas, e ainda... se possível fosse... sem recorrer à suprema autoridade da Coroa a quem todos devemos respeito e vassalagem: mas... nem pa­ra com a Igreja nem para com o povo, não costuma — seja­-me licito dizê-lo, porque sou franco e leal — não costuma exercer-se jamais a sua tutela sem que o tenham de pagar caro os tutelados.

Houve um quase murmúrio de meia aprovação para um lado da assembléia, e um meio rumor de improbação para o outro. Paio Guterres prosseguiu, levantando mais a voz e parecendo acentuá-la com certo propósito:

— Digo-o, sim, porque sou leal, e como se estivera na pre­sença del-rei, o digo. Que atente bem o povo nisto e se não deixe embair de esperanças demasiado lisonjeiras e qua­se sempre vãs — não sempre por falta de fé, e de vontade de as realizar quem as deu, quem as prometeu: mas porque muitas vezes na prática dos melhores alvitres surgem difi­culdades e oposições insuperáveis.

— Que diacho nos prega lá o arcediago? — disse um do auditório para o seu vizinho.

_ Ele ou é trova, ou latim muito enrevezado, que eu não no entendo.

— Oh! e vós, — prosseguiu o orador — que tendes na mão o cajado para nos pastorear e reger, oh não apeleis tanto para a espada. Refleti quanto importa à saúde de vossa alma, e à prosperidade mesma de vossa vida e estado temporal, o atender ás súplicas e reclamações de um povo que, se neste momento levanta a voz desesperada, anos e anos sofreu com paciência os vexames de maus governado­res, de ministros cruéis e sem piedade, que vos mentem de continuo, caluniando o povo, e para com o povo vos calu­niam a vós, pondo em vosso nome e à vossa conta as tiranias de que eles são autores — e muitas das quais, confio em Deus que até de vós são ignoradas.

— Hipócrita, — disse o bispo estremecendo de cólera e vol­tando-se para o alcaide-mor que tinha à esquerda. — A mim me detesta, e a mim me quer perder o malvado, aparentan­do querer salvar-me. Tu mo pagarás, mau clérigo... a seu tempo que não tarda.

E o pobre inocente doutrinário, espécie de ordeiro fóssil que sonhava meter razão e justiça entre duas facções apai­xonadas e violentas, o pobre homem, com as mãos erguidas para o bispo, continuava:

— Senhor, senhor, esta hora é suprema e não tereis talvez outra em vossa vida: lembrai-vos de que sois grande e pode­roso senhor para castigar, pobre e humilde pastor para per­doar. Oh! que por um só não padeçam todos!...

— Palavras de Barrabás! — disse o bispo ao ouvido do al­caide. — Não posso mais com ele. Dai o sinal.

O alcaide-mor, que não cessara um momento de percorrer o templo com os olhos, e que provavelmente viu tudo dis­posto segundo lhe convinha, levantou sobre a cabeça e vol­teou no ar a espada que tinha na mão como condestável,

Imediatamente, muitos homens de armas, besteiros, ala­bardeiros e outros dependentes do bispo que, ao entrar do povo pela porta principal, tinham ido, pelas portas do claus­tro, colocar-se em vários pontos assinalados da igreja e aí pareciam confundir-se com os populares, imediatamente, di­go, se deitaram à uma sobre eles desprevenidos: e desarman­do-os de suas más armas, feriram uns, seguraram outros e se assenhorearam de todos. Quatro robustos alabardeiros se apossaram, sem lhe fazer mal, do jovem chefe da rebelião. Todas as portas se fecharam de repente: surgiu gente arma­da e bem adestrada de todas as capelas laterais, dos criptos: e até parecia que das sepulturas se levantavam os mortos...

O povo espantado, aterrado sucumbiu, e nem ousava re­sistir. Tudo isto foi num abrir e fechar de olhos.

A revolta estava ferida mortalmente no coração e na cabe­ça: tudo o que nela havia de mais decidido e eficaz era den­tro do templo; fora havia uma cauda imensa, mas inerte e incapaz de vida per si só.

— A mim esse mancebo! — clamou o bispo erguendo-se em pé no trono. — Trazei-mo aqui. Não toqueis num ca­belo de sua cabeça; mas atai-o se for preciso, que está louco: endoideceram-no os desvarios dessa gente. Bem! Assim. Trazei-mo cá.

Desta sorte clamava o bispo, sem atender a mais nada, porque mais nada via em toda aquela multidão, nada mais o interessava já no meio daqueles agitados conflitos de tan­tos interesses, senão o seu estudante Vasco, o mancebo que ele criara no seu seio, e que esses malvados lhe queriam con­verter em serpente que lhe devorasse.

XXXVI

INTERVENÇÃO

A gente assoldadada do bispo, como toda a gente de igual profissão, tinha os instintos ferinos do dogue. Açulai-os, eles investem; depois mordem e dilaceram — sem outro mo­tivo nem causa, senão que para morder e dilacerar lhes apu­rou a educação o que no homem há de mau e brutal, como em todos há.
Os do bispo começaram por segurar a sua presa... Vi­nha-lhes já crescendo a vontade de a espedaçar — e o pavi­mento do templo ia ser lavado no sangue das vítimas, se no meio da geral confusão, um pobre homem dentre os popu­lares envolto numa ruim capa, e de tão mesquinha e fraca figura que nem os soldados fizeram caso dele, repentinamente não causasse a mais inesperada diversão que ali podia sobrevir.

Estava o homem muito encolhido e quase agachado junto aos cancelos e em frente do porta-maça do cabido que os guardava... Senão quando, alevantando-se alto e sobran­ceiro, arrojou de si com desusada força os alabardeiros que pretenderam contê-lo, e pronunciando não sei que palavras, que deviam de ser mágicas pelo efeito que fizeram, todos em derredor se lhe prostraram aos pés, os cancelos abriram-se de par em par, o homem da ruim capa entrou para dentro dos precintos capitulares, e levantando do chão a bandeira da cidade, que Vasco tinha sido obrigado a largar na luta:

— Sou eu que o levanto agora, este pendão, — bradou ele com grande voz: — eu que defendo a cidade da Virgem e a tomo na minha proteção.

Tudo calou, tudo tremeu, tudo caiu de joelhos em terra.

O homem era el-rei D. Pedro — el-rei D. Pedro, o cru, o justiceiro.

Os episcopais arrojaram as armas ao chão, os populares deram grandes vivas: Vasco, solto das mãos de seus guardas, foi ajoelhar diante dele e beijar-lhe a mão. Só o bispo fi­cou imóvel. Aterrado, não subjugado, pela inesperada pre­sença do soberano, afirmou mais a mão no báculo, segurou mais a esquerda no pomo da cadeira pontifícia, e tomando a atitude serena de um homem que se não julga obrigado a dar contas nem explicações de seu procedimento a ninguém — sentado estava, sentado ficou, observando impassível as extraordinárias mutações daquela cena.

D. Pedro, olhando a um lado e outro, e recebendo com visível enfado as homenagens de clérigos e seculares que lhe ajoelhavam, subiu, acompanhado somente de Vasco, os de­graus da capela-mor. Tomou para a direita, e sentando-se, em frente do bispo, num tamborete raso que ali achou, ficou algum tempo meditando em silêncio. Vasco estava ao pé dele e o contemplava com submisso entusiasmo.

El-rei levantou alto a voz, que distintamente se ouviu por toda a igreja, tão profundo era o silêncio que reinava:

— Tomai a bandeira da vossa cidade, Vasco: dignamente a hasteastes, e como homem de prol que sois.

— Senhor, eu...

— Tomai: sou eu que vo-la entrego.

E pôs-lhe o pendão nas mãos. Vasco ia a falar; D. Pedro o interrompeu:

— Não me digais nada. Eu sei tudo, porque tudo vi: não preciso informações de ninguém. O prêmio e o castigo hão de cair direitos de minha mão sobre quem os mereceu.

Depois, tornando a meditar um pouco, e pela primeira vez, deitando ao bispo seus olhos de açor:

— Senhor bispo, eu estou aqui — e ainda não tenho em minhas mãos as chaves do vosso castelo...

— Chaves e castelo, feudo e senhorio não são meus, senão da Virgem. Alcaide, ponde no altar de Nossa Senhora as chaves que são suas. Dali as tome el-rei, se quiser, não de minhas nem de vossas mãos­

O alcaide foi ao meio do altar, ajoelhou, e colocou sobre ele as chaves da cidade.

Suspensos ficaram todos a ver o que fazia el-rei. Tirar a investidura de um feudo a qualquer mau vassalo, eclesiástico ou secular, não era nada para el-rei D. Pedro. Mas tomar do altar da Virgem as chaves de sua cidade, era audácia que nem dele se esperava. Nunca tal fizera um rei de Portugal: se o faria este?

O alcaide, virando-se para o povo, pronunciou em ar de fórmula:

— A façanha é feita, de meu preito me absolvo; as chaves do castelo estão em poder da Virgem, senhora sua e nossa.

— E a Virgem as guardará, que bem pode — disse el-rei levantando-se e cravando os olhos ardentes no bispo. — Não vós, que de tudo sois indigno; desses hábitos que vestis, do báculo que empunhais, da mitra que tendes na cabeça. De-ponde-me tudo isso também sobre aquele altar. A Virgem, que guarda as chaves da sua cidade, guardará essas insígnias para quem seja digno de as trazer. Mandai tocar a Sé vaga, senhores do cabido. E enquanto não provemos de outro que mereça ocupar aquela cadeira, despi-me já esse cadáver de bispo que ai está corrompendo o ar desta igreja com a podridão que exala. Vamos! Sou eu que mando.

Os cônegos, aterrados e cabisbaixos, olhavam uns para os outros, olhavam para o bispo, olhavam para el-rei, e não ou­savam nem obedecer, nem desobedecer. Desautorar o seu prelado, eles simples presbíteros! E sem mais formalidades que a ordem do soberano!... Mas o soberano chamava-se Pedro Cru, e não havia decretais que valessem contra seus decretos sempre instantâneos e peremptórios­

— Eu disse — tornou el-rei para os cônegos; fui eu que disse. Não ouvistes?

Os capitulares desceram lentos de suas cadeiras, enfiaram para o altar-mor, e foram, foram, com passo tardio e relutan­te, mas chegaram enfim ao pé do bispo. Ele, como se qui­sesse fazer boa a palavra del-rei, fechou os olhos, não pro­nunciou uma palavra, e sem oferecer a menor resistência, se deixou despojar, uma por uma, de todas as insígnias pontifí­cias. Tiraram-lhe a mitra, o báculo, a cruz, despiram-lhe as vestes do sacerdócio; e só lhe sentiram um estremecimento nervoso na mão quando lhe sacaram do dedo o anel, símbo­lo da investidura e do poder­.

D. Pedro observava miúdamente o ritual com que o iam fazendo, e respondia aos versetos e antífonas com que os padres acompanhavam a tremenda cerimônia da desau­toração episcopal.

— Agora — disse el-rei quando tudo foi concluído, — ago­ra bispo, senhor e cavaleiro, tudo se foi. O que aí está é um vilão como os outros. Que o levem dois desses homens pa­ra onde ele encarcerava a gente de bem, e punha a ferros as mulheres dos seus burgueses que lhe não cediam às torpes requestas.

Vieram dois homens para o levar... Vasco partia-se-lhe o coração; as lágrimas, que há muito lhe estavam represas nos olhos, rebentaram sem mais poder: afogado em soluços, eis-lo que se prostra aos pés do rei, clamando:

— Senhor, senhor, piedade, misericórdia! Tende compai­xão de mim, senhor, que fui o instrumento da ruína de meu benfeitor, desse homem que me criou, que eu não posso detestar, que, mau grado meu, apesar de quanto me pese, sinto que sou forçado a amar. As suas culpas são gran­dês... seja maior a vossa piedade, que sois rei e sois pai. Oh! meu Deus, quem me diria!... Nunca pensei que che­gasse a isto. Oh! nunca. Eu também tenho espantosos agravos dele: dizem... Não sei. Mas isto!... Vê-lo as­sim eu... com aquelas cãs desonradas, aqueles olhos baixos de vergonha... Senhor, senhor, piedade! Assim Deus a tenha de vossa alma.

El-rei pasmado, interdito de ver a ânsia e afogo do man­cebo que lhe abraçava os pés, que lhos beijava, que parecia louco, perdido de aflição e de angústia, el-rei não sabia que pensar desta violenta explosão de um afeto que tão inespe­radamente o surpreendia.
Mas o exautorado pontífice, que a tudo o mais ficou in­sensível, agora via, agora ouvia... e oh! esse compreendeu bem as lágrimas, as súplicas do aflito Vasco. Nem a crua severidade del-rei, nem a triunfadora insolência da plebe, nem o ver-se renegado e cuspido de amigos e inimigos, nada disso lhe dera o golpe de morte que o prostrara e reduzira ao insensível cadáver que ali estava, que tudo sofrera e na­ da sentira. De outro lado viera o golpe, e mais certeiro lhe fora ao coração. Vasco, Vasco! o seu Vasco à frente deles! Esse que únicamente amara! esse, instrumento de sua igno­mínia, esse feito homem dei-rei e conspirando com el-rei para a sua perda! Merecia-o, Deus era justo; mas essa tre­menda, essa horrível e sobrenatural justiça o abismava. Mor­to da alma, seu coração se endureceu para tudo, e a adver­sidade o encontrou forte na indiferença. Agora porém, oh! agora com esta prova de afeto, com estas lágrimas do seu Vasco a caírem-lhe no peito, com aqueles soluços a revolver-lhe as entranhas, ai! todo o endurecimento da alma se con­fundiu. Gemeu profundamente do peito; ao ímpeto dos suspiros que rebentavam, descerraram-se-lhe os dentes cra­vados; e dos olhos saltavam, como granizo de trovoada, gros­sas gotas espessas, meio coalhadas ainda no gelo de morte que todo o tomara por dentro. O sangue acordou à voz do sangue, e a sua vida despertou em Deus. Os joelhos dobram-se-lhe, caiu de bruços diante daquele altar a que dantes subia — não na humildade, mas na soberba de seu coração empedernido — e ferindo no peito com ambas as mãos exclamou:

— Pesa-me, meu Deus, pesa-me do que tanto vos tenho ofendido! E aceitai, ó Senhor, as lágrimas e aflição da­quele inocente em remissão de meus grandes pecados.

Depois virando-se para o pobre estudante que chorava ainda:

— Vasco, meu filho, meu querido Vasco, sossega: o meu castigo é merecido. Deus é justo, e el-rei o é por EIe. Mas, oh meu filho! Deus te pagará esta última consolação que recebo de tua piedade, esta derradeira lição em meu infortú­nio. Oh! se destas mãos malditas pudessem sair bênçãos...se o crisma santo que as ungiu se não tivesse convertido aqui em peçonha corruta, oh como te abençoaria eu!

Alçou as mãos ao céu, estendeu-as depois ao jovem; mas não ousou bendizê-lo, porque o remorso lhe bradava dentro da alma: Amaldiçoado és tu, e amaldiçoados quantos tu benzeres!

Tornou a cair de bruços, e a regar de suas lágrimas silen­ciosas e envergonhadas o pavimento sagrado do templo.

CAPITULO XXXVII

AS TRÊS MULHERES

El-rei estava atônito, confuso: olhava para uns, olhava pa­ra outros, como pedindo a todos a explicação de tão indecifráveis enigmas. E o seu coração duro — cru, como era — já parecia dar assomos de querer mover-se com o espetá­culo desta dor, deste arrependimento. E Vasco não o dei­xava, não cessava de bradar:

— Piedade, misericórdia, senhor!

Talvez ia amercear-se, talvez ia perdoar D. Pedro. D. Pedro perdoar! Pois ia; ia decerto. Nem sempre fora cru o amante de Inês. Se a poder de injustiças o tinham feito justiceiro e duro, se à força de crueldades tinham obliterado naquele coração o caminho da piedade; não fora tanto que lho não achasse ainda a penetrante impressão de tamanho padecer.

Todo aquele imenso concurso, inda agora tão clamoroso e agitado, estava suspenso pela ansiedade palpitante do mo­mento. Inimigos e amigos — e amigos... oh! quão poucos, se alguns eram — todos contemplavam sem ódio já, compas­sivos já quase, a suplicante figura do proscrito pontífice rojando-se quase nu, e só bem coberto de sua infâmia, diante do altar em que há pouco era supremo sacerdote — ali ago­ra miserável e torpe, revolvendo-se na imundície dos opróbrios. Oh, que espetáculo! Ninguém já podia com ele. El-rei não pôde, quebrou-lhe o ânimo. Tomou a mão do mancebo, fê-lo erguer de seus pés, e:

— Vasco! — disse — Vasco!... eu quisera...

Neste momento se abriram de par em par os altos can­celos de uma capela obscura e lateral; três belas figuras de mulher assomaram aos olhos da multidão admirada, e con­verteram para novo interesse a absorta atenção da assembléia.

Eram três, e todas três belas figuras; porém tão diversas uma da outra, que bem se caracterizavam nelas os três dis­tintos tipos das raças portuguêsas que então eram. — Eram três então; sangue de cafre nem de malaio ou de tapuia não tinha adulterado o nosso sangue, nem desenvolvido no sexo, belo por excelência, esse variado luxo de fealdade desgraciosa que, nas cidades marítimas especialmente, é de uma opulência desperdiçada.

Era, digo, cada uma daquelas mulheres era um tipo. Ro­mano-celta a mais baixa, a mais viva. Sua fisionomia for­temente acusada salta de energia; em seus olhos negros sorri a luz da alegria ou resplandece o fogo do entusiasmo; suas formas ágeis, flexíveis, rápidas de movimentos são o sonho do homem de espírito; é a Vênus mística, é a Psichis do amor ideal que se reflete da alma nos sentidos, que os su­blima, que os põe em êxtase e lhes dá na terra o gozar dos céus.

Mais suave e mais doce a outra, mais alta e menos direita, mais débil, mais feminina toda, denuncia o puro sangue da raça germânica que ou se não misturara com outros, ou por singular capricho da natureza se estremou ao formar desse ente no seio materno.

Mas puro, puríssimo sangue da Arábia é a terceira, que, através de um véu que lhe cobre o rosto, respira o queimor ardente do deserto, e nas sós formas de seu corpo, no seu jeito, no seu ar, revela todo o Oriente e faz perguntar: Será esta Débora, será Judite, será a mãe dos Macabeus?

Não houve porém tempo de as comparar, as três mulhe­res: o grupo que formavam ao abrir dos cancelos, desfez-se imediatamente, porque a do véu que estava entre as outras duas, e que elas buscavam reter em vão, facilmente se soltou de seus braços débeis, rompeu pelo corpo da igreja, abriu caminho por entre as turbas admiradas, e chegando onde estava el-rei:

— Senhor, senhor — clamou, — esse jovem inocente não sabe o que vos pede; e esse velho criminoso, nem vós sabeis tudo o que ele merece. A morte lenta, a infâmia perpé­tua, todos os tormentos da alma e do corpo são poucos. Que me veja ele, o perverso, que me reconheça... e princi­pie aqui o seu castigo.

Dizendo isto, levantou o véu, patenteando as feições inda belas, mas fortemente acentuadas de sua raça claramente he­bréia, voltou-se para o prostrado sacerdote e cravou nele os olhos que faiscavam... dois olhos como dois punhais ar­dentes.

O miserável levantou as mãos para ela e clamou:

· — Ester, Ester!... Oh! venha, venha a morte agora, que os meus pecados já não podem ter perdão na terra.

— Quem és tu, mulher? — disse el-rei surpreendido —quem és, e o que és tu?

— Judia sou, — respondeu ela. Sou uma judia, eu... E esse mancebo é meu filho. Meu filho, e filho desse homem que me violentou. Manda acender a fogueira, rei dos cris­tãos, porque eIe e eu, nós ambos, por tuas leis, devemos ser queimados.

— Que novos espantos são estes! E como te hei de eu crer, mulher?

— Que responda o malvado. Que o negue ele, se pode.

Suplicante diante dela, os olhos ora na mãe ora no filho, para si não, mas para ele só parecia pedir misericórdia o desgraçado. E a judia cega, embriagada com os primeiros deliciosos tragos daquela vingança há tantos anos cobiçada, que tantos anos tardou, a judia não tinha olhos nem alma para mais nada.

D. Pedro, o próprio Pedro Cru, se aterrou daquele espetáculo, e volvendo-se ao mancebo:

— Que dizes tu, Vasco?... Esta mulher...

— É minha mãe, senhor.

— Tua mãe... Pobre Vasco!... E este mau homem?...

— Oh! esse... há muito me suspeitava o coração... Pie­dade, senhor! tende piedade de mim e dele. Foi só esta manhã, à volta de Grijó, que ela me disse... Mas não me disse tudo. Oh! não, crede-me: aliás nunca fora eu que le­vantara minha mão para... Não, senhor, não disse: antes pelo contrário me negou, negou. E ou mente agora, ou...

— Menti então. Porque a tua existência é filha do ne­gro crime desse homem; tua vida foi a minha desonra e o meu opróbrio; e era forçoso que fosses tu, não outro, o instrumento do meu desagravo, e do castigo infamante desse monstro, que é... oh! é teu pai. Se te eu dissera a verdade toda, não eras tu, filho, meu filho... tu bom, tu generoso, tu inocente que jamais cometerias o que a teus olhos havia de parecer...

— Um crime atroz. Jamais! E Deus te perdoe, mu­lher... o parricidio que fizeste cometer a teu filho... se tal sou eu, se...

_ Meu filho, meu filho, lembra-te que é a redenção de tua mãe!

Vasco abaixou os olhos e chorou amargamente.

El-rei chegou-se ao pé do prostrado bispo e lhe perguntou baixo:

— A verdade de tudo isto?

— É esta; e eu mereço mil mortes.

— Viverás.

— Senhor!...

— Será o teu castigo. Viverás.

Depois levantando-se alto e digno, como juiz que vai sen­tenciar um grande pleito:

— Mulher, como te chamas?

— Ester.

— Teu pai?

— Abraão Zacuto.

— Abraão Zacuto. Vai em paz, mulher. O teu crime foi involuntário, e o nome de teu pai é uma aclamação de vir­tude. Vai-te em paz. Ah! mas agora te reconheço eu: tu eras aquela bruxa de Gaia que...

— Que ele mandou queimar — respondeu Ester apontando para o bispo.

— Sabendo quem eras?

— Porque o sabia, e para que o não soubessem outros..

— Santo Deus, que homem!... E quem te livrou?

— Paio Guterres.

— Ah!... Vai-te em paz, mulher. Cristã ou israelita,. Ester ou Guiomar, vai-te em paz. Teus agravos são muitos, as tuas injúrias atrozes: eu te vingarei. Mas vai-te daqui tu, e leva contigo esse mancebo. Que te sirvas em bem das imensas riquezas de tua família....

— Eu não tenho nada, e nada quero porque nada sou... Na miséria a que me condenei, hei de morrer. Tudo é de meu filho.

— Bem fizeste... Oh! E... é verdade, que me esquecia.. Antes de castigar, premiar. Eu sou o Justiceiro; e justiça que não sabe senão punir, é sé meia justiça. Martim Rodrigues!

— Senhor!

— Onde está vossa filha?

— Acolá está, senhor, à entrada dessa capela, com a sua amiga Aninhas.

— A Aninhas do Arco?

— A do Arco, meu senhor.

— Que venham ambas.

O honesto magistrado, com as duas lindas raparigas uma de cada mão, atravessou a igreja no meio do sussurro da aclamação e admiração geral. Era o dia e a noite, era o sol

e a lua, era a rosa e o jasmim, eram quantos nomes há que dizem formosura, e que emparelhados faziam melhor antítese; tudo lhes chamava o povo, cobrindo-as de bênçãos, porque dava gosto e alegria vê-las tão gentis ambas, tão di­versas e tão amigas.

El-rei fez como o povo; e fez melhor, porque as beijou a ambas. Boa coisa é ser rei... Mas a crônica diz que os beijos não podiam ser mais paternais; e fiquemos nisso.

— Aninhas — disse D. Pedro, tomando-a pela mão e apresentando-a ao povo: — não cores, bela Aninhas, mostra-te sem pejo, mulher honesta e virtuosa. Que te admirem e co­nheçam todos! E que o teu nome fique de perpétua memória nesta terra, venerado e respeitado para sempre como o bendito Arco da tua Santa.

O povo deu muitos vivas.

— E agora, — continuou el-rei — a outra, a minha bela en­tusiasta. Tu a dos olhos negros, que me fazes guerreiros de estudantes, e amotinaste toda uma cidade por...

— Por pouco seria? — disse Gertrudes, sorrindo.

— Não, cachopa; desta vez!... Mas agora basta... Ela aqui está, senhor capitão; Vasco, toma a tua Gertrudes e descansa. Mestre Martim dá todas as bênçãos e aprovações necessárias. Não dais, homem?

— Meu senhor, vós mandais; mas...

— Mas o quê? Rachada tendes a caldeira do miolo. Pois não sabes, homem, que todos os arames e latões de tua lójia, ainda não pesam ametade do ouro que tem o rapaz?

— Senhor, vós mandais e eu obedeço. Mas diz meu com­padre Gil Eanes que a afronta de lhe não deixarem acabar o seu discurso que foi tal... e como ele é padrinho de Ger­trudes...

— Gil Eanes é um asno. E o padrinho de Gertrudes ago­ra sou eu, que o hei de ser do seu casamento, e dançar na boda. Estás satisfeito?

— Senhor!

— Adiante! e estas mulheres daqui para fora. Vós também, sim, vós, dona Guiomar ou dona bruxa, dona perra judia, ou o que quer que sois. Tudo fora daqui, Ide com elas, Martim Rodrigues; e tu, Vasco, também.

— Matai-me, senhor; mas não vou.

El-rei olhou para o mancebo, torvo do cenho, e espantado de palavras que não era usado a ouvir. Mas calou-se; e fazendo sinal a mestre Martim, o bom do juiz saiu levando consigo as três mulheres.

CAPITULO XXXVIII

CONCLUSÃO

Saíram as três mulheres; a judia com tardo pé e descontente, porque lhe ficavam os olhos na sua vingança. Mas as paixões más são covardes: Ester cedeu ao temor deI-rei. O filho, dominavam-no bem diferentes sentimentos; daque­les com que não pode o medo: Vasco ficou. O inexorável juiz tornou a pôr nele os olhos, já tanto mais brandos, po­rém... que de outro que não fora D. Pedro, se podiam di­zer compassivos.
Quase... quase que a própria voz lhe fraquejava da natu­ral severidade, quando, voltando-se para o prostrado crimi­noso, lhe disse:

— A ti por fim, homem perdido! Mau bispo e mau ho­mem... A ti, para quem é pouca ainda toda a crueza da justiça humana. Às mãos do algoz devia entregar-te para que te atasse vivo aos postes da fogueira e te queimasse nessas carnes a lascívia endemoninhada que te devora, o orgulho de Satanás que em teu danado sangue se ateou. Mas... por teu filho viver-ás. Por ele te perdôo: por ele viverás. Para expiação de teus crimes, e para a penitência dos teus enormes pecados, te deixo esse resto de vida. Que o aproveites no cilício e nas lágrimas, na vergonha e no remorso, penitente diante desse altar que profanaste, que...

O bispo soluçava e gemia como se lhe estivessem dando os mais excruciantes tratos de tortura, Seus gemidos enchiam a vasta igreja; e o silêncio e a compunção reinavam no imenso auditório. Vasco foi de bruços ao chão, e pros­trado com as faces nas lajes do pavimento, bebia até às fezes os longos tragos daquele cálice de amargura: tomara ele, vi­tima inocente e piedosa, poder expiar ali, remir até ao derradeiro, os pecados desse criminoso, que o era, oh! sim era — mas também era seu pai!

— A morte e a fogueira te perdõo — disse el-rei; — a igno­mínia não posso, nem devo.

Tirou do cinto o fatal azorrague de que sempre andava munido, e três vezes lhe tocou nas costas com o vil instrumento do castigo. Depois, dando-lhe do pé:

— Com este sinal de reprovação te despeço de meus olhos para sempre. E que ninguém mais te veja era terras de Portugal: ou, por alma de Dona Inês, que nem papa nem Im­perador te sacarão vivo de minhas mãos.

O infeliz, precipitado como Nabucodonosor, do alto da sua soberba, como ele ficou submergido e se embruteceu no opróbrio; como ele se sentiu vil alimária da terra, e não teve mais face que levantar para o céu. Assim se arrastou por detrás daquele altar de donde o fulminava a justiça de Deus, sem ousar, nem ao menos, volver os olhos àquele fi­lho, que era o seu único amor neste mundo, a derradeira luz que lhe ficara nesse abismo de trevas em que está se­pultado.

Mas o filho é que não quis obedecer a ninguém, a mais que ao seu coração. Seguiu-o, amparou-o, foi com ele, e cobrindo-o com sua capa, atravessou os desertos claustros, e pelos secretos passadiços do castelo, o levou até à margem do rio, a uma nau flamenga que aí estava prestes a seguir viagem para Bruges. Aí se ficou com ele toda aquela noite, consolando-o, animando-o, falando-lhe de Deus e de suas misericórdias.

Os anjos... os anjos sorriam; e a cada oração do mancebo se iam atenuando e descontando, um a um, no livro da vida que diante do Eterno está aberto, os crimes enormes do velho pecador.

No entanto el-rei fez repicar os sinos da Sé como em grande festividade: os cônegos cantaram o Te-Deum: e o povo saiu contente da igreja, dando vivas e vivas a el-rei. Tudo sossegou, a bernarda acabou-se, e, por alguns anos ao menos, a nossa terra viveu em paz, porque os seus foros foram guar­dados, e ninguém teve mais razão nem pretexto para se amotinar.

Donde veio dizer-se que a grande receita para acabar com as revoluções era fazer justiça direita a todos, grandes e pequenos, como fazia el-rei D. Pedro. Deus lhe fale na alma!

O bispo foi para Flandres. Quisera segui-lo Vasco; mas não lhe consentiu ele por nenhum modo. — A minha peni­tência era nula; seria prêmio, não castigo o meu destêrro —dizia o arrependido velho — se me acompanhasses tu, meu filho. Deixa-me: É a vontade de Deus. E que te abençoe Ele, já que eu não posso.

Assim se despediram, e assim se foi só o desterrado: dizem que lá se fizera monge e acabara em santa vida.

O governo do bispado deram-no a Paio Guterres, que de joelhos e com muitas lágrimas pediu ser escusado. ? Mas eI­-rei foi inexorável; e bispo desde logo o quisera ver feito e sagrado, se tanto pudesse.

Ester abjurou o judaísmo, e com ele seus implacáveis e vingativos ódios. E foi Paio Guterres, o homem que em sua juventude a amara com toda a pureza do mais requintado amor platônico, foi o pobre velho, não velho de anos, mas velho de penas e desgostos — foi ele quem a lavou agora de toda a mancha nas regeneradoras águas do batismo.

Rui Vaz e Garcia Vaz obtiveram bons empregos; um no sal, outro na portagem. Ralharam os amigos; mas não pas­sou dai.

E Pêro Cão?... Pêro Cão, esquecido quase, no meio de tantos e tão vividos interesses — foram-no achar pendurado de uma figueira alvar que nascera ao canto de um revelim do castelo, e que nunca dera outro fruto... senão este. Jus­tiça se fez por suas mãos o Judas, imitando na morte, assim como na vida, o Iscariotes seu padroeiro.

Assim o observou a piedosa e douta Briolanja Gomes, da qual só me resta dizer que continuou a falar como sempre e sem intermitência. É fama que a história de Aninhas e do

bispo, contada por ela, era de nunca acabar. A ponto que passando assim em tradição, lhe tomaram medo os cronis­tas, e por inevitável reação a escreveram tão sucintamente que mal se entende, e nem os nomes das pessoas nos conser­varam. Se não fosse descobrir eu o precioso Ms. dos Grilos, nem o menor particular saberíamos dela.

Gil Eanes custou-lhe a fazer as pazes com Vasco. Foi pre­ciso interceder Gertrudinhas, intervir formalmente el-rei, e lavrar-se e assinar-se protocolo em que ficou estipulado que

na primeira sessão da câmara, toda a família iria ouvir e aplaudir com entusiasmo um discurso monumental que ele andava preparando para encovar os seus destratores, e em que a obra superava por tal modo a matéria, que ninguém era capaz de lhe adivinhar o assunto.

Fr. João da Arrifana, apesar dos sustos e cuidados que te­ve, continuou a engordar; e veio a morrer, pouco depois, de um fleimão ardente que lhe nasceu, salvo seja! entre os qua­dris, e que abafado na massa enorme das substâncias adi­posas, lhe ateou um febrão que o levou.

El-rei quis ser padrinho do casamento de Vasco e da bela Gertrudinhas. Celebrou-se a cerimônia na capela do Arco. Armou-se o palanque, vieram muitos panos de ouro e de prata, de seda e de arrás, da guarda-roupa del-rei; com que se fez a mais brilhante festa que até então se vira, e de donde ficou na nossa terra o gentil costume de entrapar as igrejas de alto a baixo quando há função de arromba.

A festa durou todo o dia e toda a noite, com muitas ilu­minações, muitas danças e representações, barcas, loas e chacotas que enchiam toda a rua. Por ela andou el-rei, que era grande bailarino, bailando toda a noite à luz das tochas e ao som de suas favoritas chirimias de prata.

Aninhas, chegou-lhe o marido no dia seguinte: e foi pre­ciso tudo isto para que não chegasse tarde... Conheceu o seu erro, e promete não viajar mais. Que tome sentido! Nem sempre há reis que nos acudam — e nem sempre são bispos velhos os que nos perseguem.

FIM

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