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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

FOLHAS CAIDAS.

Advertência

Antes que venha o Inverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que por aí caíram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar, ainda que não seja senão para memória.
A outros versos chamei eu já as últimas recordações da minha vida poética. Enganei o público, mas de boa-fé, porque me enganei primeiro a mim. Protestos de poetas que sempre estão a dizer adeus ao mundo, e morrem abraçados com o louro - às vezes imaginário, porque ninguém os coroa.

Eu pouco mais tinha de vinte anos quando publiquei certo poema, e jurei que eram os últimos versos que fazia. Que juramentos!

Se dos meus se rirem, têm razão; mas saibam que eu também primeiro me ri deles. Poeta na primavera, no estio e no outono da vida, hei-de sê-lo no inverno, se lá chegar, e hei-de sê-lo em tudo. Mas dantes cuidava que não, e nisso ia o erro.

Os cantos que formam esta pequena colecção pertencem todos a uma época de vida íntima e recolhida que nada tem com as minhas outras colecções.

Essas mais ou menos mostram o poeta que canta diante do público. Das Folhas Caídas ninguém tal dirá, ou bem pouco entende de estilos e modos de cantar.

Não sei se são bons ou maus estes versos; sei que gosto mais deles do que de nenhuns outros que fizesse. Porquê? É impossível dizê-lo, mas é verdade. E, como nada são por ele nem para ele, é provável que o público sinta bem diversamente do autor. Que importa?

Apesar de sempre se dizer e escrever há cem mil anos o contrário, parece-me que o melhor e mais recto juiz que pode ter um escritor é ele próprio, quando o não cega o amor-próprio. Eu sei que tenho os olhos abertos, ao menos agora.

Custa-lhe a uma pessoa, como custava ao Tasso, e ainda sem ser Tasso, a queimar os seus versos, que são seus filhos; mas o sentimento paterno não impede de ver os defeitos das crianças.

Enfim, eu não queimo estes. Consagrei-os ignoto deo. E o deus que os inspirou que os aniquile, se quiser: não me julgo com direito de o fazer eu.

Ainda assim, no ignoto deo não imaginem alguma divindade meia velada com cendal transparente, que o devoto está morrendo que lhe caia para que todos a vejam bem clara. O meu deus desconhecido é realmente aquele misterioso, oculto e não definido sentimento de alma que a leva às aspirações de uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta.

Imaginação que porventura se não realiza nunca. E daí, quem sabe? A culpa é talvez da palavra, que é abstracta de mais. Saúde, riqueza, miséria, pobreza e ainda coisas mais materiais, como o frio e o calor, não são senão estados comparativos, aproximativos. Ao infinito não se chega, porque deixava de o ser em se chegando a ele.

Logo o poeta é louco, porque aspira sempre ao impossível. Não sei. Essa é uma disputação mais

longa. ,

Mas sei que as presentes Folhas Caídas representam o estado de alma do poeta nas variadas, incertas e vacilantes oscilações do espírito, que, tendendo ao seu fim único, a posse do Ideal, ora pensa tê-lo alcançado, ora estar a ponto de chegar a ele, ora ri amargamente porque reconhece o seu engano, ora se desespera de raiva impotente por sua credulidade vã.

Deixai-o passar, gente do mundo, devotos do poder, da riqueza, do mando, ou da glória. Ele não entende bem disso, e vós não entendeis nada dele.

Deixai-o passar, porque ele vai onde vós não ides; vai, ainda que zombeis dele, que o calunieis, que o assassineis. Vai, porque é espírito, e vós sois matéria.

E vós morrereis, ele não. Ou só morrerá dele aquilo em que se pareceu e se uniu convosco. E essa falta, que é a mesma de Adão, também será punida com a morte.

Mas não triunfeis, porque a morte não passa do corpo, que é tudo em vós, e nada ou quase nada no poeta.

Janeiro, 1853.

Livro Primeiro

I

Ignoto Deo

D.D.D.

Creio em ti, Deus: a fé viva

De minha alma a ti se eleva.

És - o que és não sei. Deriva

Meu ser do teu: luz... e treva,

Em que - indistintas! - se envolve

Este espírito agitado,

De ti vem, a ti devolve.

O Nada, a que foi roubado

Pelo sopro criador

Tudo o mais, o há-de tragar.

Só vive de eterno ardor

O que está sempre a aspirar

Ao infinito donde veio.

Beleza és tu, luz és tu,

Verdade és tu só. Não creio

Senão em ti; o olho nu.

Do homem não vê na terra

Mais que a dúvida, a incerteza,

A forma que engana e erra.

Essência!, a real beleza,

O puro amor - o prazer

Que não fatiga e não gasta...

Só por ti os pode ver

O que inspirado se afasta,

Ignoto Deus, das ronceiras,

Vulgares turbas: despidos

Das coisas vãs e grosseiras

Sua alma, razão, sentidos,

A ti se dão, em ti vida,

E por ti vida têm. Eu, consagrado

A teu altar, me prosto e a combatida

Existência aqui ponho, aqui votado

Fica este livro - confissão sincera

Da alma que a ti voou e em ti só ‘spera.

II

Adeus!

Adeus!, para sempre adeus!,

Vai-te, oh!, vai-te, que nesta hora

Sinto a justiça dos Céus

Esmagar-me a alma que chora.

Choro porque não te amei,

Choro o amor que me tiveste;

O que eu perco, bem no sei,

Mas tu... tu nada perdeste:

Que este mau coração meu

Nos secretos escaninhos

Tem venenos tão daninhos

Que o seu poder só sei eu.

Oh!, vai... para sempre adeus!

Vai, que há justiça nos Céus.

Sinto gerar na peçonha

Do ulcerado coração

Essa víbora medonha

Que por seu fatal condão

Há-de rasgá-lo ao nascer:

Há-de, sim, serás vingada,

E o meu castigo há-de ser

Ciúme de ver-te amada,

Remorso de te perder.

Vai-te, oh!, vai-te, longe, embora,

Que sou eu capaz agora

De te amar - Ai!, se eu te amasse!

Vê se no árido pragal

Deste peito se ateasse

De amor o incêndio fatal!

Mais negro e feio no Inferno
Não chameja o fogo eterno.

Que sim? Que antes isso? - Ai, triste!

Não sabes o que pediste.

Não te bastou suportar

o cepo-rei; impaciente

Tu ousas a deus tentar

Pedindo-lhe o rei-serpente!

E cuidas amar-me ainda?

Enganas-te: é morta, é finda,

Dissipada é a ilusão.

Do meigo azul de teus olhos

Tanta lágrima verteste,

Tanto esse orvalho celeste

Derramado o viste em vão

Nesta seara de abrolhos,

Que a fonte secou. Agora

Amarás... sim, hás-de amar,

Amar deves... Muito embora...

Oh!, mas noutro hás-de sonhar

Os sonhos de oiro encantados

Que o mundo chamou amores.

E eu réprobo... eu se o verei?

Se em meus olhos encovados

Der a luz de teus ardores...

Se com ela cegarei?

Se o nada dessas mentiras

Me entrar pelo vão da vida...

Se, ao ver que feliz deliras,

Também eu sonhar ...Perdida,

Perdida serás - perdida.

Oh!, vai-te, vai, longe, embora!

Que te lembre sempre e agora

Que não te amei nunca... ai!, não:

E que pude a sangue-frio,

Covarde, infame, vilão,

Gozar-te - mentir sem brio,

Sem alma, sem dó, sem pejo,

Cometendo em cada beijo

Um crime... Ai!, triste, não chores,

Não chores, anjo do Céu,

Que o desonrado sou eu.

Perdoar-me, tu?... Não mereço.

A imundo cerdo voraz

Essas pérolas de preço

Não as deites: é capaz

De as desprezar na torpeza

De sua bruta natureza.

Irada, te há-de admirar,

Despeitosa, respeitar,

Mas indulgente... Oh!, o perdão

É perdido no vilão,

Que de ti há-de zombar.

Vai, vai... para sempre adeus!

Para sempre aos olhos meus

Sumido seja o clarão

De tua divina estrela.

Faltam-me olhos e razão

Para a ver, para entendê-la:

Alta está no firmamento

De mais, e de mais é bela

Para o baixo pensamento

Com que em má hora a fitei;

Falso e vil o encantamento

Com que a luz lhe fascinei.

Que volte a sua beleza

Do azul do céu à pureza,

E que a mim me deixe aqui

Nas trevas em que nasci,

Trevas negras, densas, feias,

Como é negro este aleijão

Donde me vem sangue às veias,

Este que foi coração,

Este que amar-te não sabe

Porque é só terra - e não cabe

Nele uma ideia dos Céus ...

Oh!, vai, vai; deixa-me adeus!

III

Quando eu sonhava

Quando eu sonhava, era assim

Que nos meus sonhos a via;

E era assim que me fugia,

Apenas eu despertava,

Essa imagem fugidia

Que nunca pude alcançar.

Agora, que estou desperto,

Agora a vejo fixar...

Para quê? - Quando era vaga,

Uma ideia, um pensamento,

Um raio de estrela incerto

No imenso firmamento,

Uma quimera, um vão sonho,

Eu sonhava - mas vivia:

Prazer não sabia o que era,

Mas dor, não na conhecia ...

IV

Aquela noite!

Era a noite da loucura,

Da sedução, do prazer,

Que em sua mantilha escura

Costuma tanta ventura,

Tantas glórias esconder.

Os felizes... e ai!, são tantos...

Eu, por tantos os contava!

Eu, que o sinal de meus prantos

Do aflito rosto lavava -

Os felizes presunçosos

Iam nos coches ruidosos

Correndo aos salões doirados

De mil fogos alumiados,

Donde em torrentes saía

A clamorosa harmonia

Que à festa, ao prazer tangia.

Eu sentia esse ruído

Como o confuso bramar

De um mar ao longe movido

Que à praia vem rebentar:

E disse comigo: «Vamos,

Os lutos d’alma dispamos,

À festa hei-de ir também eu!»

E fui: e a noite era bela,

Mas não vi a minha estrela

Que eu sempre via no céu:

Cobriu-a de espesso véu

Alguma nuvem a ela,

Ou era que já vendado

Me levava o negro fado

Onde a vida me perdeu?

Fui; meu rosto macerado,

A funda melancolia

Que todo o meu ser revia,

Qual o ataúde levado

A egípcio festim, dizia:

«Como vós fui eu também;

Folgai, que a morte aí vem!»

Dizia-o, sim, meu semblante,

Que, onde eu chegava, o prazer

Cessava no mesmo instante;

E o lábio, que ia a dizer

Doçuras de amor, gelava;

E o riso, que ia a nascer

Na face linda, expirava.

Era eu - e a morte em mim,

Que só ela espanta assim!

Quantas mulheres tão belas

Ébrias de amor e desejos,

Quantas vi saltar-lhe os beijos

Da boca ardente e lasciva!

E eu, que ia chegar-me a elas...

Para logo a fronte esquiva

De recatos se envolvia

E, toda pudor, tremia.

Quantas o seio anelante,

Nu, ardente e palpitante

Andavam como entregando

À cobiça mal desperta,

Gasta já e desdenhosa,

Dos que as estavam mirando

Com vaga luneta incerta

Que diz: «Aquela é formosa,

Não se me dava de a ter.

E esta? É só baronesa,

Vale menos que a duquesa:

Não sei a qual atender.»

E a isto chamam prazer!

A grande ventura é esta?

Vale a pena vir à festa

E vale a pena viver.

Como então quis à tristura

Do meu viver isolado!

Fique-se embora a ventura,

Que eu quero ser desgraçado.

Levantei alto a cabeça,

Senti-me crescer - e a frente

Desanuviar-se contente

Do feio negrume espesso

Que assustava aquela gente.

Logo os sorrisos caíram

Para o meu lado também;

Já como um dos seus me viam,

Que em mim não viam ninguém.

Eu, de olhos desencantados,

A elas, como as eu via!

Meus entusiasmos passados,

Oh!, como deles me ria!

Frio o sarcasmo saía

De meus lábios descorados,

E sem dó e sem pudor

A todas falei de amor...

Do amor bruto, degradante,

Que no seio palpitante,

Na espádua nua se acende...

Amor lascivo que ofende,

Que faz corar... elas riam

E oh, que não, não se ofendiam!

Mas o orquestra bradou alta:

«Festa, festa!, e salta, salta!»

os seus guizos delirantes

Sacode louca a Folia...

Adeus, requebros de amantes!

Suspiros, quem nos ouvia?

As palavras meias ditas,

Meias nos olhos escritas,

Voavam todas perdidas

Dispersas, rotas no ar;

Que se foram almas, vidas,

Tudo se foi a valsar.

Quem é esta que mais voltas

Gira, gira sem cessar?

Como as roupas leves, soltas,

Aéreas leva a ondular

Em torno à forma graciosa,

Tão flexível, tão airosa,

Tão fina! - Agora parou,

E tranquila se assentou.

Que rosto! Em linhas severas

Se lhe desenha o profil;

E a cabeça, tão gentil,

Como se fora deveras

A rainha dessa gente,

Como a levanta insolente!

Vive Deus!, que é ela... aquela,

A que eu vi na tal janela,

E que triste me sorria

Quando passando me via

Tão pasmado a olhar para ela.

A mesma melancolia

Nos olhos tristes - de luz

Oblíqua, viva mas fria;

A mesma alta inteligência

Que da face lhe transluz;

E a mesma altiva impaciência

Que de tudo, tudo cansa,

De tudo o que foi, que é,

E na erma vida só vê

O raio da vaga esp’rança.

«Pois isto sim, que é mulher»,

Disse eu - «e aqui há que ver».

Já vinha a pálida aurora

Anunciando a manhã fria,

E eu falava e eu ouvia

O que até àquela hora

Nunca disse, nunca ouvi...

Toda a memória perdi

Das palavras proferidas...

Não eram destas sabidas,

Nem quais eram não no sei ...

Sei que a vida era outra em mim,

Que era outro ser o meu ser,

Que uma alma nova me achei

Que eu bem sabia não ter.

E daí? - Daí, a história

Não deixou outra memória

Dessa noite de loucura,

De sedução, de prazer...

Que os segredos da ventura

Não são para se dizer.

v

O Anjo caído

Era um anjo de Deus

Que se perdera dos Céus

E terra a terra voava.

A seta que lhe acertava

Partira de arco traidor,

Porque as penas que levava

Não eram penas de amor.

O anjo caiu ferido,

E se viu aos pés rendido

Do tirano caçador.

De asa morta e sem ‘splendor

O triste, peregrinando

Por estes vales de dor,

Andou gemendo e chorando.

Vi-o eu, o anjo dos Céus,

O abandonado de Deus,

Vi-o, nessa tropelia

Que o mundo chama alegria,

Vi-o a taça do prazer

Pôr ao lábio que tremia...

E só lágrimas beber.

Ninguém mais na Terra o via,

Era eu só que o conhecia...

Eu que já não posso amar!

Quem no havia de salvar?

Eu, que numa sepultura

Me fora vivo enterrar?

Loucura! ai, cega loucura!

Mas entre os anjos dos Céus

Faltava um anjo ao seu Deus;

E remi-lo e resgatá-lo

Daquela infâmia salvá-lo

Só força de amor podia.

Quem desse amor há-de amá-lo,

Se ninguém o conhecia?

Eu só. - E eu morto, eu descrido,

Eu tive o arrojo atrevido

De amar um anjo sem luz.

Cravei-a eu nessa cruz

Minha alma que renascia,

Que toda em sua alma pus.

E o meu ser se dividia,

Porque ela outra alma não tinha,

Outra alma senão a minha...

Tarde, ai!, tarde o conheci,

Porque eu o meu ser perdi,

E ele à vida não volveu...

Mas da morte que eu morri

Também o infeliz morreu.

Vi

O Álbum

Minha Júlia, um conselho de amigo;

Deixa em branco este livro gentil:

Uma só das memórias da vida

Vale a pena guardar, entre mil.

E essa n’alma em silêncio gravada

Pelas mãos do mistério há-de ser;

Que não tem língua humana palavras,

Não tem letra que a possa escrever.

Por mais belo e variado que seja
De uma vida o tecido matiz ,

Um só fio da tela bordada,

Um só fio há-de ser o feliz.

Tudo o mais é ilusão, é mentira,

Brilho falso que um tempo seduz,

Que se apaga, que morre, que é nada

Quando o sol verdadeiro reluz.

De que serve guardar monumentos

Dos enganos que a esp’rança forjou?

Vãos reflexos de um sol que tardava

Ou vãs sombras de um sol que passou!

Crê-me, Júlia: mil vezes na vida

Eu coa minha ventura sonhei;

E uma só, dentre tantas, o juro,

Uma só com verdade a encontrei.

Essa entrou-me pela alma tão firme,

Tão segura por dentro a fechou,

Que o passado fugiu da memória,

Do porvir nem desejo ficou.

Toma pois, Júlia bela, o conselho:

Deixa em branco este livro gentil,

Que as memórias da vida são nada,

E uma só se conserva entre mil.

VII

Saudades

Leva este ramo, Pepita,
De saudades portuguesas;

É flor nossa; e tão bonita

Não na há noutras devesas.

Seu perfume não seduz,

Não tem variado matiz,

Vive à sombra, foge à luz,

As glórias d’amor não diz;

Mas na modesta beleza

De sua melancolia

É tão suave a tristeza,

Inspira tal simpatia!...

E tem um dote esta flor

Que de outra igual se não diz:

Não perde viço ou frescor

Quando a tiram da raiz.

Antes mais e mais floresce

Com tudo o que as outras mata;

Até às vezes mais cresce

Na terra que é mais ingrata.

Só tem um cruel senão,

Que te não devo esconder:

Plantada no coração,

Toda outra flor faz morrer.

E, se o quebra e despedaça

Com as raízes mofinas,

Mais ela tem brilho e graça,

É como a flor das ruínas.

Não, Pepita, não ta dou...

Fiz mal em dar-te essa flor,

Que eu sei o que me custou

Tratá-la com tanto amor.

VIII

Este inferno de amar

Este inferno de amar - como eu amo! -

Quem mo pôs aqui n’alma ... quem foi?

Esta chama que alenta e consome,

Que é a vida - e que a vida destrói -

Como é que se veio a atear,

Quando - ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,

A outra vida que dantes vivi

Era um sonho talvez... - foi um sonho-

Em que paz tão serena a dormi!

Oh!, que doce era aquele sonhar ...

Quem me veio, ai de mim!, despertar?

Só me lembra que um dia formoso

Eu passei... dava o Sol tanta luz!

E os meus olhos, que vagos giravam,

Em seus olhos ardentes os pus.

Que fez ela?, eu que fiz? - Não no sei;

Mas nessa hora a viver comecei ...

IX

Destino

Quem disse à estrela o caminho

Que ela há-de seguir no céu?

A fabricar o seu ninho

Como é que a ave aprendeu?

Quem diz à planta «Florece!»

E ao mudo verme que tece

Sua mortalha de seda

Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha

Que no prado anda a zumbir

Se à flor branca ou à vermelha

O seu mel há-de ir pedir?

Que eras tu meu ser, querida,

Teus olhos a minha vida,

Teu amor todo o meu bem...

Ai!, não mo disse ninguém.

Como a abelha corre ao prado,

Como no céu gira a estrela,

Como a todo o ente o seu fado

Por instinto se revela,

Eu no teu seio divino .

Vim cumprir o meu destino...

Vim, que em ti só sei viver,

Só por ti posso morrer.

x

Gozo e dor

Se estou contente, querida,

Com esta imensa ternura

De que me enche o teu amor?

- Não. Ai!, não; falta-me a vida,

Sucumbe-me a alma à ventura:

O excesso de gozo é dor.

Dói-me alma, sim; e a tristeza

Vaga, inerte e sem motivo,

No coração me poisou,

Absorto em tua beleza,

Não sei se morro ou se vivo,

Porque a vida me parou.

É que não há ser bastante

Para este gozar sem fim

Que me inunda o coração.

Tremo dele, e delirante

Sinto que se exaure em mim

Ou a vida - ou a razão.

XI

Perfume da rosa

Quem bebe, rosa, o perfume

Que de teu seio respira?

Um anjo, um silfo? Ou que nume

Com esse aroma delira?

Qual é o deus que, namorado,

De seu trono te ajoelha,

E esse néctar encantado

Bebe oculto, humilde abelha?

- Ninguém? - Mentiste: essa frente

Em languidez inclinada,

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