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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Quem ta pôs assim pendente?

Dize, rosa namorada.

E a cor de púrpura viva

Como assim te desmaiou?

E essa palidez lasciva

Nas folhas quem ta pintou?

Os espinhos que tão duros

Tinhas na rama lustrosa,

Com que magos esconjuros

Tos desarmaram, ó rosa?

E porquê, na hástia sentida

Tremes tanto ao pôr do Sol?

Porque escutas tão rendida

O canto do rouxinol?

Que eu não ouvi um suspiro

Sussurrar-te na folhagem?

Nas águas desse retiro

Não espreitei a tua imagem?

Não a vi aflita, ansiada...

- Era de prazer ou dor? -

Mentiste, rosa, és amada,

E tu também tu amas, flor.

Mas ai!, se não for um nume

O que em teu seio delira,

Há-de matá-lo o perfume

Que nesse aroma respira.

XII

Rosa sem espinhos

Para todos tens carinhos,

A ninguém mostras rigor!

Que rosa és tu sem espinhos?

Ai, que não te entendo, flor!

Se a borboleta vaidosa

A desdém te vai beijar,

O mais que lhe fazes, rosa,

É sorrir e é corar.

E quando a sonsa da abelha,

Tão modesta em seu zumbir,

Te diz: «Ó rosa vermelha,

» Bem me podes acudir:

» Deixa do cálix divino

» Uma gota só libar...

» Deixa, é néctar peregrino,

» Mel que eu não sei fabricar ...»

Tu de lástima rendida,

De maldita compaixão,

Tu à súplica atrevida

Sabes tu dizer que não?

Tanta lástima e carinhos,

Tanto dó, nenhum rigor!

És rosa e não tens espinhos!

Ai !, que não te entendo, flor.

XIII

Rosa pálida

Rosa pálida, em meu seio

Vem, querida, sem receio

Esconder a aflita cor.

Ai!, a minha pobre rosa!

Cuida que é menos formosa

Porque desbotou de amor.

Pois sim... quando livre, ao vento,

Solta de alma e pensamento,

Forte de tua isenção,

Tinhas na folha incendida

O sangue, o calor e a vida

Que ora tens no coração.

Mas não eras, não, mais bela,

Coitada, coitada dela,

A minha rosa gentil!

Coravam-na então desejos,

Desmaiam-na agora os beijos...

Vales mais mil vezes, mil.

Inveja das outras flores!

Inveja de quê, amores?

Tu, que vieste dos Céus,

Comparar tua beleza

Às filhas da natureza!

Rosa, não tentes a Deus.

E vergonha!... de quê, vida?

Vergonha de ser querida,

Vergonha de ser feliz!

Porquê?... porquê em teu semblante

A pálida cor da amante

A minha ventura diz?

Pois, quando eras tão vermelha

Não vinha zângão e abelha

Em torno de ti zumbir?

Não ouvias entre as flores

Histórias dos mil amores

Que não tinhas, repetir?

Que hão-de eles dizer agora?

Que pendente e de quem chora

É o teu lânguido olhar?

Que a tez fina e delicada

Foi, de ser muito beijada,

Que te veio a desbotar?

Deixa-os: pálida ou corada,

Ou isenta ou namorada,

Que brilhe no prado flor,

Que fulja no céu estrela,

Ainda é ditosa e bela

Se lhe dão só um amor.

Ai!, deixa-os, e no meu seio

Vem, querida, sem receio

Vem a frente reclinar.

Que pálida estás, que linda!

Oh!, quanto mais te amo ainda

Dês que te fiz desbotar.

XIV

Flor de ventura

A flor de ventura

Que amor me entregou,

Tão bela e tão pura

Jamais a criou:

Não brota na selva

De inculto vigor,

Não cresce entre a relva

De virgem frescor;

Jardins de cultura

Não pode habitar

A flor de ventura

Que amor me quis dar.

Semente é divina

Que veio dos Céus;

Só n’alma germina

Ao sopro de Deus.

Tão alva e mimosa

Não há outra flor;

Uns longes de rosa

Lhe avivam a cor;

E o aroma... Ai!, delírio

Suave e sem fim!

É a rosa, é o lírio,

É o nardo, o jasmim;

É um filtro que apura,

Que exalta o viver,

E em doce tortura

Faz de ânsias morrer.

Ai!, morrer... que sorte

Bendita de amor!

Que me leve a morte

Beijando-te, flor.

XV

Bela d’amor

Pois essa luz cintilante

Que brilha no teu semblante

Donde lhe vem o ‘splendor?

Não sentes no peito a chama

Que aos meus suspiros se inflama

E toda reluz de amor?

Pois a celeste fragrância

Que te sentes exalar,

Pois, dize, a ingénua elegância

Com que te vês ondular

Como se baloiça a flor

Na Primavera em verdor,

Dize, dize: a natureza

Pode dar tal gentileza?

Quem ta deu senão amor?

Vê-te a esse espelho, querida,

Ai!, vê-te por tua vida,

E diz se há no céu estrela,

Diz-me se há no prado flor

Que Deus fizesse tão bela

Como te faz meu amor.

XVI

Os cinco sentidos

São belas - bem o sei, essas estrelas,

Mil cores - divinais têm essas flores;

Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:

Em toda a natureza

Não vejo outra beleza

Senão a ti - a ti!

Divina - ai!, sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa,

Será; mas eu do rouxinol que trina

Não oiço a melodia,

Nem sinto outra harmonia

Senão a ti - a ti!

Respira - n’aura que entre as flores gira,

Celeste - incenso de perfume agreste.

Sei... não sinto: minha alma não aspira,

Não percebe, não toma

Senão o doce aroma

Que vem de ti - de ti!

Formosos - são os pomos saborosos,

É um mimo - de néctar o racimo:

E eu tenho fome e sede ...sequiosos,

Famintos meus desejos

Estão... mas é de beijos,

É só de ti - de ti!

Macia - deve a relva luzidia
Do leito - ser por certo em que me deito.

Mas quem, ao pé de ti, quem poderia

Sentir outras carícias,

Tocar noutras delícias

Senão em ti - em ti!

A ti! , ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,

Sentem, ouvem, respiram;

Em ti, por ti deliram.

Em ti a minha sorte,

A minha vida em ti;

E quando venha a morte,

Será morrer por ti.

XVII

Rosa e lírio

A rosa
É formosa;

Bem sei.

Porque lhe chamam - flor

D’amor,

Não sei.

A flor,

Bem de amor

É o lírio;

Tem mel no aroma - dor

Na cor

O lírio.

Se o cheiro

É fagueiro

Na rosa,

Se é de beleza - mor

Primor

A rosa,

No lírio

O martírio

Que é meu

Pintado vejo: cor

E ardor

É o meu.

A rosa

É formosa,

Bem sei ...

E será de outros flor

D’amor...

Não sei.

XVIII

Coquette dos prados

Coquette dos prados,
A rosa é uma flor
Que inspira e não sente

O encanto d’amor.

De púrpura a vestem

Os raios do Sol;

Suspiram por ela

Ais do rouxinol:

E as galas que traja

Não as agradece,

E o amor que acende

Não o reconhece.

Coquette dos prados

Rosa, linda flor,

Porquê, se o não sentes,

Inspiras amor?

XIX

Cascais

Acabava ali a Terra

Nos derradeiros rochedos,

A deserta árida serra

Por entre os negros penedos

Só deixa viver mesquinho

Triste pinheiro maninho.

E os ventos despregados

Sopravam rijos na rama,

E os céus turvos, anuviados,

O mar que incessante brama...

Tudo ali era braveza

De selvagem natureza.

Aí, na quebra do monte,

Entre uns juncos mal medrados,

Seco o rio, seca a fonte,

Ervas e matos queimados,

Aí nessa bruta serra,

Aí foi um Céu na Terra.

Ali sós no mundo, sós,

Santo Deus!, como vivemos!

Como éramos tudo nós

E de nada mais soubemos!

Como nos folgava a vida

De tudo o mais esquecida!

Que longos beijos sem fim,

Que falar dos olhos mudo!

Como ela vivia em mim,

Como eu tinha nela tudo,

Minha alma em sua razão,

Meu sangue em seu coração!

Os anjos aqueles dias

Contaram na eternidade:

Que essas horas fugidias,

Séculos na intensidade,

Por milénios marca Deus

Quando as dá aos que são seus.

Ai!, sim, foi a trapos largos,

Longos, fundos que a bebi

Do prazer a taça - amargos

Depois... depois os senti

Os travos que ela deixou...

Mas como eu ninguém gozou.

Ninguém: que é preciso amar

Como eu amei - ser amado

Como eu fui; dar, e tomar

Do outro ser a quem se há dado,

Toda a razão, toda a vida

Que em nós se anula perdida.

Ai, ai!, que pesados anos

Tardios depois vieram!

Oh!, que fatais desenganos,

Ramo a ramo, a desfizeram

A minha choça na serra,

Lá onde se acaba a Terra!

Se o visse... não quero vê-lo

Aquele sítio encantado.

Certo estou não conhecê-lo,

Tão outro estará mudado,

Mudado como eu, como ela,

Que a vejo sem conhecê-la!

Inda ali acaba a Terra,

Mas já o céu não começa;

Que aquela visão da serra

Sumiu-se na treva espessa,

E deixou nua a bruteza

Dessa agreste natureza.

XX

Estes sítios!

Olha bem estes sítios queridos,

Vê-os bem neste olhar derradeiro...

Ai!, o negro dos montes erguidos,

Ai!, o verde do triste pinheiro!

Que saudades que deles teremos ...

Que saudade!, ai, amor, que saudade!

Pois não sentes, neste ar que bebemos,

No acre cheiro da agreste ramagem,

Estar-se alma a tragar liberdade

E a crescer de inocência e vigor!

Oh!, aqui, aqui só se engrinalda

Da pureza da rosa selvagem,

E contente aqui só vive Amor.

O ar queimado das salas lhe escalda

De suas asas o níveo candor,

E na frente arrugada lhe cresta

A inocência infantil do pudor.

E oh!, deixar tais delícias como esta!

E trocar este céu de ventura

Pelo inferno da escrava cidade!

Vender alma e razão à impostura,

Ir saudar a mentira em sua corte,

Ajoelhar em seu trono à vaidade,

Ter de rir nas angústias da morte,

Chamar vida ao terror da verdade...

Ai!, não, não... nossa vida acabou,

Nossa vida aqui toda ficou.

Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro,

Dize à sombra dos montes erguidos,

Dize-o ao verde do triste pinheiro,

Dize-o a todos os sítios queridos

Desta ruda, feroz soledade,

Paraíso onde livres vivemos...

Oh!, saudades que dele teremos,

Que saudade!, ai, amor, que saudade!

XXI

Não te amo

Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma.

E eu n'alma - tenho a calma,

A calma - do jazigo.

Ai!, não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.

E a vida - nem sentida

A trago eu já comigo.

Ai!, não te amo, não.

Ai!, não te amo, não; e só te quero

De um querer bruto e fero

Que o sangue me devora,

Não chega ao coração.

Não te amo. És bela, e eu não te amo, ó bela.

Quem ama a aziaga estrela

Que lhe luz na má hora

Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,

De mau feitiço azado

Este indigno furor.

Mas oh!, não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto

Que de mim tenho espanto,

De ti medo e terror ...

Mas amar... não te amo, não.

XXII

Não és tu

Era assim, tinha esse olhar,

A mesma graça, o mesmo ar,

Corava da mesma cor,

Aquela visão que eu vi

Quando eu sonhava de amor,

Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo,

O semblante pensativo,

E uma suave tristeza

Que por toda ela descia

Como um véu que lhe envolvia,

Que lhe adoçava a beleza.

Era assim; o seu falar,

Ingénuo e quase vulgar,

Tinha o poder da razão

Que penetra, não seduz;

Não era fogo, era luz

Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,

No seio o mesmo perfume ,

Um cheiro a rosas celestes,

Rosas brancas, puras, finas,

Viçosas como boninas,

Singelas sem ser agrestes.

Mas não és tu... ai!, não és:

Toda a ilusão se desfez.

Não és aquela que eu vi,

Não és a mesma visão,

Que essa tinha coração,

Tinha, que eu bem lho senti.

XXIII

Beleza

Vem do amor a Beleza,

Como a luz vem da chama.

É lei da natureza:

Queres ser bela? - ama.

Formas de encantar,

Na tela o pincel

As pode pintar;

No bronze o buril

As sabe gravar;

E estátua gentil

Fazer o cinzel

Da pedra mais dura...

Mas Beleza é isso? - Não; só formosura.

Sorrindo entre dores

Ao filho que adora

Inda antes de o ver

- Qual sorri a aurora

Chorando nas flores

Que estão por nascer -

A mãe é a mais bela das obras de Deus.

Se ela ama! - O mais puro do fogo dos céus

Lhe ateia essa chama de luz cristalina:

É a luz divina

Que nunca mudou,

É luz... é a Beleza

Em toda a pureza

Que Deus a criou.

XXIV

Anjo és

Anjo és tu, que esse poder

Jamais o teve mulher,

Jamais o há-de ter em mim.

Anjo és, que me domina

Teu ser o meu ser sem fim;

Minha razão insolente

Ao teu capricho se inclina,

E minha alma forte, ardente,

Que nenhum jugo respeita,

Covardemente sujeita

Anda humilde a teu poder.

Anjo és tu, não és mulher.

Anjo és. Mas que anjo és tu?

Em tua frente anuviada

Não vejo a c’roa nevada

Das alvas rosas do céu.

Em teu seio ardente e nu

Não vejo ondear o véu

Com que o sôfrego pudor

Vela os mistérios d’amor.

Teus olhos têm negra a cor,

Cor de noite sem estrela;

A chama é vivaz e é bela,

Mas luz não tem. - Que anjo és tu?

Em nome de quem vieste?

Paz ou guerra me trouxeste

De Jeová ou Belzebu?

Não respondes - e em teus braços

Com frenéticos abraços

Me tens apertado, estreito!...

Isto que me cai no peito

Que foi?... Lágrima? - Escaldou-me

Queima, abrasa, ulcera... Dou-me,

Dou-me a ti, anjo maldito,

Que este ardor que me devora

É já fogo de precito,

Fogo eterno, que em má hora

Trouxeste de lá... De donde?

Em que mistérios se esconde

Teu fatal, estranho ser!

Anjo és tu ou és mulher?

XXV

Víbora

Como a víbora gerado,

No coração se formou

Este amor amaldiçoado

Que à nascença o espedaçou.

Para ele nascer morri;

E em meu cadáver nutrido,

Foi a vida que eu perdi

A vida que tem vivido.

Livro Segundo

I

Barca Bela

Pescador da barca bela,

Onde vás pescar com ela,

Que é tão bela,

Ó pescador?

Não vês que a última estrela

No céu nublado se vela?

Colhe a vela,

Ó pescador!

Deita o lanço com cautela,

Que a sereia canta bela ...

Mas cautela,

Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,

Que perdido é remo e vela

Só de vê-la,

Ó pescador.

Pescador da barca bela,

Inda é tempo, foge dela,

Foge dela,

Ó pescador!

II

A Coroa

Bem sei que é toda de flores

Essa coroa d’amores

Que na frente vais cingir.

Mas é coroa - é reinado;

E a posto mais arriscado

Não se pode hoje subir.

Nesses reinos populosos

Os vassalos revoltosos

Tarde ou cedo dão a lei.

Quem há-de conter, domá-los,

Se são tantos os vassalos

E um só o pobre do rei?

Não vejo, rainha bela,

Para fugir essa estrela

Que os reis persegue sem dó,

Mais que um meio - falo sério:

É pôr limites ao império

E ter um vassalo só.

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