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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

MAIS PECADOS: POBBE ANINHAS: O DITO POR NÃO DITO:

Em poucas horas se declarou uma febre tremenda, e o ve­lho desanimou. Assustou-se, digo. não desanimou; mas as­sustou-se muito. Junto ao leito do infeliz que, de olhos fe­chados, prostrados exânime, apenas soltava uns gemidos sur­dos e abafados — ele com a mão no pulso do enfermo, e os olhos ora no rosto que lhe afilava, ora no livro que folheava inquieto, parecia disputar com a morte que lho queria rou­bar, e afugentá-la com o poder sobrenatural da ciência, com a fé ardente da religião.

E venceu o velho; venceu ao cabo de horas e horas, de dias e de noites de susto e de incessante desvelo, em que um só instante não deixou o doente, ministrando ele por sua mão os vários remédios que ia aplicando; e ora a mulher, ora a filha o ajudavam. que de seu lado não saíram. De­clarou-se uma crise subitamente, a febre cedeu, e o mori­bundo escapou à morte.

Abraão Zacuto, que este era o nome do velhos prostrou a sua face por terra; Sara e Ester se prostraram ao pé dele, e juntos clamaram:

— Bendito seja o senhor nosso Deus, porque salvou o ho­mem estrangeiro, e deu glória e honra à casa de seus servos!

Passam dias, semanas, as feridas vão-se fechando, as dores acalmando-se; e quase não havia já no enfermo outro mal senão uma debilidade extrema. E Abraão disse a Ester:

— Filha, o nosso hóspede está curado. Eu tenho de ir a Granada, porque os nossos irmãos precisam de mim ali. Tu velarás nele, e dirigirás sua convalescença, que há de ser longa e difícil. Tua mãe precisa descanso, porque os seus dias são muitos e o seu corpo está débil e enfraquecido. Adeus, e que o Senhor te abençoe!

O velho partiu, e Ester ficou à cabeceira do enfermo.

XXVIII

MAIS PECADOS

As horas do dia são longas para quem jaz prostrado num leito de dores. Mais longas as da noite que ali se velam. Que seria do cavaleiro se não fosse a companhia de Ester?

E ela era bela, de uma beleza toda judaica, toda árabe. A figura alta e esbelta, as formas severas, sem moleza nenhuma nos contornos, o rosto oval, a tez morena, os olhos negros, faiscantes, a testa breve, mas perfeitamente desenhada, os sobrolhos um tanto juntos, o cabelo, preto, fino — fino de uma fartura e formosura surpreendente. Uma túnica alvís­sima de linho orlada e cingida de cramesim era o seu trajo habitual e único.

Imaginem esta visão arrebatadora entrando a cada instan­te no quarto do convalescente, volteando nele para mil coi­sas, dando-lhe os remédios, os alimentos, trazendo-lhe ora flores para lhe refrescar o olfato, lendo-lhe ora para o dis­trair, outras vezes cantando-lhe daquelas cantigas simples e magoadas, quais lhas ensinara sua mãe, e a sua mãe a dela, e assim, de geração em geração, tinham vindo desde séculos remotíssimos; ecos perdidos das velhas memórias daquela pátria para sempre perdida, daquela Sion santa de que o Is­raelita foi expulso, e que terá de chorar em perpétuo exílio até à consumação dos tempos.

O cavaleiro bebia a longos tragos neste filtro que o em­briagava, e lhe tinha em contínua excitação os sentidos que ia recobrando com a saúde. Ester não o percebia, nem lho dizia ele. Seus olhos fuzilavam de desejos; e os dela fica­vam tranquilos e inocentes como se aquele homem que ali estava fosse seu irmão. Algumas noites, que lhe ele parecia mais agitado, não queria descansar ela, nem deixá-lo entregue à vigilância, todavia bem cuidadosa, dos servos; mandava pôr no chão uma camilha, e ali se recostava vestida para lhe acudir, a suas horas bem certas, com as bebidas cal­mantes que o pai deixara prescritas.

Foi numa dessas noites que ele pareceu mais agitado do que nunca, e que ela mais quis velá-lo. A noite era de calma, o dia tinha sido afadigado, pesava no ar uma eletrici­dade opressora... Ester caiu em profundo sono.

E sonhou, sonhou — era uma opressão, um pesadelo!... Depois uma dor agudíssima... misturada de inexplicáveis deleites...

Ester despertou fatigada, moída, meia morta. Veio a razão, veio a reflexão, o instinto, veio a recordação confusa do que lera e mal entendera nos livros de seu pai... Pouco a pouco rompeu e se fez em seu espírito um clarão medonho, alumiou todas as misteriosas sensações dessa noite. Santo Deus!

Era dia claro. A desgraçada não disse uma palavra, não deitou um volver de olhos para o cavaleiro, que dormia tran­quilamente em seu leito. Concentrou em si aquela dor in­finita, aquele opróbrio sem nome.

Saiu do quarto, e foi dizer a Sara:

— Minha mãe, eu estou doente, e o estrangeiro não tem já nada. Deixai-me ir deitar; e despedi-o, se vos praz.

Naquele dia saiu o futuro sacerdote de Cristo da desonra­da casa do médico israelita. E desde aquele dia Ester nunca mais riu nem folgou nem viveu como dantes. Enferma do corpo, a razão fugindo-lhe a espaços, não sabia a mãe que lhe fizesse; e Abraão tardava em voltar de Granada, tardava e não acabava de chegar.

Passaram muitos meses. Ester ia a pior; Sara escreveu ao marido que voltasse, que viesse salvar sua filha que lhes morria. EIe cortou por tudo, partiu logo e veio, trazido por aquele amor que não tem igual na natureza. Mas, à véspera de sua chegada, Ester desapareceu de casa, e nunca mais puderam saber dela.

Dias depois Abraão Zacuto dormia com seus pais, e Sara junto a seu marido para sempre.

Um parente arredado, mas único que aí havia, tomou con­ta dos imensos bens e riquezas da família, como curador da ausente. Era esse um honrado judeu que administrou a he­rança com fidelidade e consciência, que não queria acredi­tar na morte de Ester, e que protestou que havia de esperar por ela enquanto não tivesse plena certeza de que era fa­lecida.

A morte de Zacuto foi sentida por toda a parte, e até sin­ceramente chorada na corte de Afonso IV. Queria-lhe el-rei de simpatia e de obrigação; e poucos ali havia que lhe não devessem muito: a saúde que lhes ele recobrara, os di­nheiros que lhes emprestara. Mas a morte de que morrera, ninguém na sabia.

Ao chegar à corte aquela nova, um fidalgo dos que aí andavam pareceu mais impressionado com ela do que nenhum; e mais que nenhum perguntava, queria saber a causa de tão inesperada e sentida morte. A corte estava em Coimbra, ele montou uma noite a cavalo e tomou o caminho de Lei­ria, só, sem escudeiro nem homens de armas, e ia triste, pen­sativo, carregado de profunda melancolia. E contudo esse era o mais leviano e descuidado de quantos calçavam esporas de ouro e cingiam cinto de cavaleiro naquela corte.

Sete dias andou por lá; mas a Leiria não chegou. E di­zem que, pouco além de Condeixa, pernoitando em casa de um lavrador abastado, por nome Gil Guterres, que ai tinha suas granjearias — dera com uma mulher meia morta num palheiro, onde por caridade lhe haviam dado pousada; que se doera de seu desamparo e a tratara com desvelo, mas que fechado com ela estivera toda a noite e todo o dia seguinte, sem consentir que ninguém mais lá entrasse. Ao cabo do outro dia houve longa e animada conversação entre o cava­leiro e o filho da casa, Paio Guterres, moço de prol e grande escolar, isto é, grande estudante, a quem todos queriam mui­to por ali. E dessa conversação veio a sair que a mulher do palheiro foi transportada para uma casinha mui linda que ficava na encosta do outeiro, muito para lá da igreja, ao pé dos sicômoros e quase à beira do regato. A casa era do filho, que lha tinha dado o pai, para ele ali fazer sua estu­daria, e ter seus livros, por onde lhe chamavam a "estudaria da Granja”.

O cavaleiro voltou para a corte; e a pobre mulher ficou na Estudaria, só ela, com uma criancinha linda como um anjo, que em pouco tempo cresceu em força e em graças, e era o amor e o encanto de toda a gente. Quando digo “a pobre mulher”, é de lástima e dó que tenho de a ver tão só, tão triste e desconsolada sempre; que pobreza era o úni­co mal que ela não tinha. O seu trajar era singelo e de pe­sado luto; mas não havia galas nem riquezas que se não es­perdiçassem no berço e no vestir de seu filho. Filho de rei nunca teve tais mantilhas. E demais, ela dava — dava tudo e a todos quantos necessitavam e lhe pediam, dava com mãos largas, perdidas, como quem não deitava conta ao dinheiro ou lhe não sabia o valor.

Parentes, amigos, nem visitas nenhumas parecia não nas ter. Em dois anos que ali morou, só duas vezes lá foi um judeu velho que vinha das bandas de Leiria; e esse ia e vi­nha, não parava. Também uma ou duas vezes por semana ia passar meia hora com ela o dono da casinha, o estudante Paio Guterres, que lhe tomara grande afeição — outros di­ziam que a conhecia de há muito. Fosse como fosse, ele ia vê-la de quando em quando, como digo, levava-lhe brincos e gulosices para o pequeno, chorava com ela de seus males que parecia conhecer, folgava com a criança que ambos amavam ternamente, e ele quase tanto como a mãe. E assim se pas­sava aquela vida isolada, e como apagada do mundo, senão só que acesa à animadora luz do amor maternal por cuja virtude únicamente existia.

Passaram, como digo, dois anos assim; mas ao cabo deles, sendo já falecido Gil Guterres, e seu filho ausente por negó­cio a que fora a Lisboa, uma noite feia e negra de dezembro. que chovia, fuzilava, e o vento gemia e bradava nos pinhais que metia susto, apareceu à porta da Estudaria o mesmo ca­valeiro da outra vez. Não lhe queriam abrir, ele arrombou a porta e entrou. E no outro dia foram achar a boa mulher desmaiada no chão; a criança faltava; e durante um mês de febre e delírio, ninguém pensou que a mãe escapasse.

Trataram-na com muito amor e caridade as criadas da granja que para lá foram, e que sabiam quanto seu amo lhe queria. E a doente recobrou a saúde do corpo: a do espíri­to não lhe voltou nunca mais de todo. E tanto que, apesar da maior vigilância, um dia desapareceu; e por mais que a buscaram, não tornou a haver novas dela.

Disseram, daí a tempos, que para as bandas do Porto fora vista em trajos de mendiga. E até não faltou quem jurasse que se tinha feito bruxa, e que por tal a mandara queimar o senhor bispo do Porto; mas que lhe perdoaram por fim, e se contentaram de a açoitar no pelourinho. Também ou­tros disseram que ela sempre fora judia ou moura ou coisa assim, e mulher má e de ruins artes, e que por isso lhe tira­ram o filho, em donde se volvera louca, de mau olhado e feiticeira. Tudo diziam da pobre mulher desde que ela desa­pareceu dali. Mas Paio Guterres, quando soube de tais mur­murações, fez uma fala ao povo e lhe protestou que a mu­lher da Estudaria era uma santa, e mártir de piores tiranos que o miramulim de Marrocos. E daí, ninguém mais falou dela, porque Paio Guterres, esse é que era um santo verda­deiro, de bom, de sábio, de temente a Deus; tanto que, dai a pouco se ordenou e se fez grande pregador, e que o fize­ram arcediago de Oliveira, no Porto, em mal que pesasse ao bispo que por então veio a ser; o qual bispo lhe tinha muito má sanha e pior vontade; mas, não se sabe por que, também lhe tinha medo.

Ora o tal senhor bispo, quem havia de ele ser? O mesmo dito cavaleiro que aquela noite descobriu a mulher meia morta no palheiro da granja, que tão caridosamente a so­correra e salvara de morrer, a ela e ao filho que trazia em seu ventre, e que dois anos depois — caso estranho e inex­plicável! — lhe roubara esse mesmo filho, e fora causa de que a pobre mulher perdesse a razão, ou se perdesse na má vida que ora diziam que tinha.

Fosse ele como fosse, o que era certo e sabido é que esse cavaleiro nunca mais foi o que dantes era. Pesado, triste, melancólico e como possesso de um negro pensamento que o avexava, nem as festas nem as batalhas o viram mais. Ti­nha estudado em criança os rudimentos das ciências daquele

tempo com os monges de Alcobaça; deu-se agora de novo aos livros e abandonou todo o trato e exercícios de cavaleiro.

Seria vocação divina? Seria remorso de algum mau feito que o pungia para melhor vida? — Mas ele não era nem mais austero em seus costumes, nem mais temperado em seus apetites. Desgostoso da vida parecia, — disposto a emendá­-la, não.

Sem embargo disso, pensaram seus parentes que ali esta­va um bom bispo para a santa Sé portucalense, porque ele tinha deixado as armas, afetava querer seguir as letras, era seu parente, e enfim porque o bispado do Porto, pingue, de muita dignidade e poder, era mais próprio para um senhor que condescendia em se fazer clérigo, do que para algum fra­de vilão que pretendesse ser bispo por suas doutorices e san­tidades — de pouco preço em vilões a quem nada custam.

Assim o entenderam os do conselho de el-rei; e ou o en­tendessem ou não, assim o aconselharam a el-rei. E o fidal­go, até ali pobre cavaleiro de poucas lanças, foi feito grande senhor, poderoso e rico, bispo do Porto — que é dizer tudo nadou na opulência e se fartou de mandar, de satisfazer suas vontades e apetites.

Era feliz então? Não era. No âmago daquele coração ti­nha-se cravado um espinho agudo, que lho mordia inces­sante, que por acessos o desesperava e o fazia mais mau, mais sobranceiro, mais déspota e cruel do que ele por natureza era.

Na solidão sobretudo, quando o não via ninguém senão a sua consciência, aquele espinho era farpão envenenado que lhe dilacerava as entranhas com uma dor que oh!... Deve ser a pior dor da vida e mil vezes mais acerba que a da morte.

Demos graças ao anjo protetor da nossa existência os que temos a fortuna de não conhecer essa dor.

XXIX

POBBE ANINHAS

Num dos seus mais horríveis, mais tenebrosos momentos estava agora o poderoso bispo do Porto, esperando que o al­goz de Pêro Cão lhe trouxesse a infeliz vítima de seus em­botados apetites.

Lançaria sobre ele do céu, neste feio momento, um derra­deiro olhar de compaixão, o fugido anjo de sua guarda? Veria na mão do Eterno cheia a medida das maldades desse homem, e lhe doeria não clamar um último brado à sua consciência? Devia de ser assim, porque o remorso, o re­morso hoje mais salutar, menos acerbo, porém mais pun­gente que nunca, lhe estava recortando na memória as feições daquele homem velho de alvas barbas que o salvara da morte, que o levara às costas moribundo para sua casa, que o velara noite e dia, que o entregara a sua filha. Sua filha tão bela!... De uma beleza estranha... Mas tão subli­me, tão espiritual, tão pouco para ter excitado nele o bruto apetite da sensualidade! Apetite infame, e com que infa me vilania satisfeito!

Oh! e aquela mulher que embalava uma criança tão linda num berço dourado!... E a quem ele tirou o filho, e o criou, e logo lhe tomou tanto amor, que era o único ser, o único objeto nesta vida que ele soubera e pudera amar!.

Arrasaram-se-lhe os olhos com este pensamento, levantou-se inquieto, abriu a porta que dava para as salas exteriores, chamou por seus fâmulos, um depois do outro, e a todos e a cada qual perguntou sobressaltado:

— Vasco, Vasco? Não o viram voltar ainda? Tornem-me a chamar Fr. João, perguntem-lhe se sabe dele. Vão-me à ribeira saber se há novas de Vasco. Que monte um estribeiro a cavalo, que siga para os altos de além Douro, e que se informe de uns caçadores. Oh! e o alazão!... Que desacerto deixá-lo ir naquele potro... Quem

montou já aí o alazão? Ninguém, estou vendo. É que ninguém mais se atreve com ele. E o alazão conhece-o: é um nobre animal!... E Vasco é cavaleiro para ele.

E mais sossegado com esta reflexão, veio-lhe o arrependi­mento de ter dito tanto, de ter mostrado tanto interêsse. E despediu os fâmulos, e tornou a encerrar-se em seu gabinete.

Aparentemente estava tranquilo agora, mas o ânimo re­volvia-se-lhe de sobressalto em sobressalto.

— Se lhe sucede alguma ao rapaz? Se me tomam vingan­ça nele os excomungados burgueses? Oh! mas não se atre­vem. Malditas mulheres! E que me importa a mim com a tal Aninhas? Uma sensaborona, uma D. Lagrimosa sem sal nem graça! Mas os tontos fizeram tanto, excitaram-me por tal modo os ditos soezes desse vulgacho de tendeiros, tanto me irritou hoje essa canalha com suas altanarias, e tanto farão ainda, estou vendo, que me hão de parecer divinos os olhos pretos da tal Aninhas do Arco... Mas a pobre rapa­riga que culpa tem?... Pois não! Dó dela agora! Era o que faltava. A honesta dama que me diz a mim que não, sem dúvida porque esta farta de dizer que sim a algum aprendiz do marido... algum desses que ai andaram na as suada desta manhã. Pois voto a Satanás.

Nisto bateram com tento à porta secreta detrás da tapeçaria; e o bispo respondeu com impaciência:

— Entre!

Pêro Cão entrou sorrindo de seu infernal sorriso, e pondo­-se a um lado, afastou com muito acatamento o pano-de-ras, e se inclinou — que nem sumilher de cortina a príncipe — a uma pálida e desgrenhada figura de mulher que vinha de­trás dele.

Era Aninhas.

Quanto se pode imaginar de gracioso, de molemente fe­minino e suave, tudo isso era Aninhas. As feições pouco pronunciadas de seu rosto, as formas arredondadas mas débeis de seu corpo alto, fino, e dobradiço como uma vergôn­tea de primavera, tudo nela caracterizava aquela debilidade quase infantina, aquela dependência, aquela fraqueza, que são a maior força de um sexo nascido para obedecer e ser guiado, mas que é ele quem manda e governa — quando quer, quando sabe.., quando a mulher é verdadeira mu­lher, e de seu próprio desvalimento tira o valor imenso que tem.

Naquele estado agora, no desalinho do seu trajo, no susto que a descora, na aflição que a perturba, Aninhas está mais bela ainda. O gênero de sua beleza é dos que se não trans­tornam com estas ânsias mortais: antes nelas se apura, se afina a suave, e por assim dizer, lenta fascinação de seus en­cantos. O cabelo castanho ondeado caia-lhe desentrançado e longo pelas espáduas mal cobertas de uma túnica de bran­co e de roxo vivo, que era o seu único vestido. Os olhos pardos, grandes, lustrosos, mas sem muita vivacidade, pare­ciam mais os de uma virgem consagrada ao altar. Ninguém pediria paixão àqueles olhos, eles não tinham senão pieda­de, indulgência, uma expressão de bondade que vinha da al­ma. Branca era, mas como é branca a prata fosca: um branco puro sem brilho.

Beleza para a cobiçar a grave, a pesada, a calculada sen­sualidade de um turco. A quem lhe nascem os desejos na alma, a quem não sabe gozar, sentir, senão porque se lhe resolve, se lhe reflete nos órgãos da vida o que lhe vem lá do intimo do pensamento — a esses não creio que os pudesse inflamar muito.

— Senhor, — disse Aninhas, cruzando quase devotamente os braços sobre o seio branco e sereno: — Senhor, vim a vosso mandado; e venho mais tranquila agora, porque as últimas palavras que esta manhã vos ouvi foram quase de paz e de esperança. Que vos mantenha Deus assim, e me deixeis ir para o meu filhinho, que bem sei que está seguro e a bom recado... Mas falto-lhe eu, senhor! Vós não sa­beis o que é faltar a mãe a seu filho. A pobre criança é capaz de morrer de saudades.

— Retira-te, Pêro Cão.

Foi-se a besta feroz, deitando de esguelha, à saída, uns olhos de riso incrédulo à pobre suplicante, uns olhos de grosseira obscenidade que diziam: — Ora basta de pieguices!

O bispo, sentado, com a testa nas mãos, e os cotovelos sobre uma banca diante de si, não parecia ouvir, e decerto não podia ver Aninhas. Estiveram assim algum tempo, sem mais fazer nem dizer.

— Não me respondeis, senhor? — insistiu a desgraçada.

— Calai-vos, mulher: eu não creio uma sílaba de quanto dizeis. Para que é tanta palavra? O que quereis de mim? Ouro, jóias, riquezas, galanices? Tereis tudo isso. E que mais? Ah! sim: vosso marido... Afonso de?... Afonso de Campanhã creio que se chama — dar-lhe-ei um bom em­prego. Fá-lo-emos nosso almudeiro, se tanto é preciso. Pê­ro Cão é um bruto, compromete a minha autoridade, e...

— Senhor, eu não quero nada, senão que me solteis, que me deixeis ir livre para meu filho, cuidar da minha casa. E rezarei por vós à bendita santa, minha padroeira...

Com um gesto de soberano enfado e fastio, o prelado le­vantou o rosto das mãos, e pondo na súplice Aninhas uns olhos ainda mal-assombrados dos dolorosos pensamentos que o tinham estado consumindo:

— Ah!... — disse: — És bonita com efeito. És, és bonita deveras. Não se fez para burgueses râncios tão fina flor de formosura. É que te não vi bem esta manhã. . - és bo­nita.

— Senhor!

— Eu gosto de ti, e te farei quanto quiseres. Sabes? Mas assenta o coração numa coisa: que hás de ser minha, e que sem isso, não sais daqui. Toda a burguesia e populares do Porto que se armem para te vir buscar, el-rei D. Pedro que venha em pessoa pôr-me cerco a meu castelo... Jurei-o, ju­rei-o a este demônio negro que trago em meu peito... Por­que o trago, Aninhas; um demônio negro, implacável, que me destrói as entranhas.. ­

— Misericórdia, meu Deus! — bradou a desgraçada arro­jando-se de joelhos diante do indigno pontífice: — Miseri­córdia, piedade, meu senhor. Oh! deixai-me ir, deixai-me ir, e Deus vos perdoará, e vos livrará desse mau demônio que dizeis. Fazei esta boa ação e vereis. Alguma coisa bem mal feita faríeis, que deu poder ao inimigo para vos ator­mentar. Ponde-o fora de vós assim.

— Cala-te, mulher, que não sabes o que dizes; cala-te, que me exasperas ainda mais recordando-me... ah!

Aninhas chorava, a as suas lágrimas aflitas, mas serenas como a inocência de sua alma, calam aos pés do bispo e lhos regavam abundantemente. EIe parecia amolgar-se-lhe o coração: levantou-lhe a cara, e se pôs a contemplar aque­las feições tão suaves, banhadas naquele pranto tão sentido, e tão mais lindas, tanto mais interessantes assim.

— Que bela és! Que bela estás! Não posso renunciar a ti; bem o vês, Aninhas. É impossível. E para quê? Para que venha outro...

— Outro, senhor, outro! Em que vos mereço que me afronteis assim? O meu pobre Afonso mais justiça me faz: bem sabe ele...

— Sabe, sabe, o que todos os maridos sabem, Mas que seja ele esse portento de nunca vista felicidade conjugal... e que até hoje... vamos! que até hoje mais ninguém tocas­se num tesouro tão difícil de guardar, achas tu que ele, por ser marido, deixa de ser outro para mim? E eu hei de ser tão parvo? Ora vamos, Aninhas, juízo!

— Senhor, — disse a atribulada inocente, pondo as mãos como se fora fazer alguma devota oração a um santo: — eu vos prometo e dou solene palavra que, se me deixais ir livre e sem mancha... Oh! sim, deixai-me, senhor, e eu vos pro­meto — ainda que não sei se é pecado o que vos prometo — mas prometo que me votarei a Deus e à bem-aventurada Sant’Ana do meu Arco, e viverei até o último dia de minha vida, não como mulher casada — pobre de meu Afonso coi­tado! mas enfim — não como mulher casada, senão como se me emparedara viva, e tão só para servir a Deus, e nada mais haver com o mundo!

— Estás louca, mulher!

— Não estou, senhor. Juro...

— Não jures sandices. Vamos, levanta-te.

— Não me levanto enquanto me não prometerdes. ..

— Pois levanta-te daí dos meus pés... Não te quero aí, mulher, anjo ou demônio ou o que quer que tu sejas, le­vanta-te: não te quero aí... não é aí o teu lugar... Levanta-te, ou nada prometo.

Aninhas levantou-se. O seu ar composto e virginal... Por que não virginal? Não chamou Virgilio infelix virgo à outra que disso não tinha nem?... E a minha Aninhas, quanto é na alma e no coração — o mais raro e difícil de achar — pura e inteiramente estava como baixara do céu a este mundo trazida pela mão do seu anjo da guarda. Di­go e redigo, o seu ar composto e virginal impunha ao bispo, acanhava-o. Aquela promessa de se votar a Deus, coisa co­mum nesses tempos; aquela idéia de se emparedar uma ra­pariga tão bonita, tão inocente, como se fora uma velha feia e pecadora — o que todos os dias se via — rompeu-lhe a crus­ta viciosa e endurecida em que trazia envolto o coração, e entrou-lhe pela febra sã, viva e sensível que ficara lá dentro, e que, tanto mais desafeita de sentir, mais profundamente sentia agora.

Olhou para ela com os olhos quase enternecidos, quase paternais, e por momentos lhe esteve a escapar da boca: —Vai-te, anjo, vai-te em paz; e que por amor teu, por tua in­tercessão me perdoe Deus a mim!

Mas o demônio — o tal demônio negro de que era possessa a sua alma, que lha destorcia e arredava de todo bom pen­samento, o demônio vencido aqui, foi chamar a batalha para terreno mais de sua vantagem. Tocou-lhe no orgulho, no amor-próprio e o feriu com uma recordação que Ihos pungia no mais vivo.

— Mas é verdade, — disse o bispo, ferido subitamente da idéia diabólica: — Tu, esta manhã, não me falavas assim. Eram violências, eram brados, eram desconcertos que me ir­ritavam, me exasperavam, e me fizeram jurar que nem an­jos nem demônios te haviam de tirar de meu poder. Como é que tu soubeste, como adivinhaste que esse artifício agora era mais poderoso comigo?

— Artifícios eu, senhor!

— Pois não seja artifício. Mas tu mudaste de tom, de modos; e alguém to insinuou... Oh, oh! já caio em quem foi. Aqui anda São Paio Guterres, o meu bem-aventurado,. o meu beatificado penitenciário.

— É verdade, senhor, que é um santo, um homem de Deus, e que as suas devotas práticas me consolaram e ani­maram naqueles cárceres tão medonhos.

— Ah, sim?... O hipócrita, o impostor é que te ensi­nou essa cantilena? Pois voto ao diabo, cujo sou já agora,. Que...

E remetendo à indefesa vítima, a tomou de repelão nos vigorosos braços, e ia levá-la...

De repente o pano-de-rás estremeceu, e se arredou com o empuxar violento da porta secreta que se abriu de par em par; um clérigo velho, curvado e macilento entrou no ga­binete do bispo, e deitando-lhe as mãos às mãos, conseguiu, pelo inesperado do ataque, vencer a força com que as aper­tava, e desprender Aninhas, que desatinada, confusa, espa­vorida, deitou a fugir para o fundo do aposento, e se foi esconder, como uma criança, detrás de umas cortinas onde havia um grande Crucifixo, com o qual se abraçou choran­do de alegria a pobre — e dizendo: — Milagre, meu Deus!

E por que não seria milagre aquele? Não é grande sacri­fício para a razão humana acreditar na interferência divina, quando a Providência aparece tanto a tempo a proteger o desvalido e a salvá-lo da brutalidade do poder.

Toda a Torre do Tombo fica desafiada em peso para me disputar a autenticidade deste milagre da minha crônica.

O bispo tremulo de cólera e despeito, apenas pôde bal­buciar:

— Vós aqui... vós aqui!... Que atrevimento é este?

— O do vigário e penitenciário desta diocese, senhor bis­po, que entrou no aljube quando acabavam de lhe roubar um preso seu, que suspeitou, que adivinhou quem Iho rou­bava, e veio por esses obscuros subterrâneos...

— Vós! vós só! Impossível. Alguém vos encaminhou por esse labirinto em que eu mesmo talvez me perderia.. . Quem foi o traidor? dizei-mo.

— Bem sabeis que eu não sou homem de traições, que me não sei servir de traidores.

— Não há senão Pêro Cão que saiba... ou a bruxa... Foi a bruxa? Dizei.

— Bruxas, eu!

— Aquela mulher que... Ah, morte de minha vida! Vós e ela, Paio Guterres, jurastes perder-me: bem o sei. Mas eu juro que hoje daqui não haveis de sair, e que...

— Podeis acabar hoje o que há alguns anos começastes. Eu não tenho senão quarenta e bem vedes que me pesa o dobro nesta cabeça. Que mãos me quebraram, me curva­ram, me trouxeram à decrepitude tão cedo, vós o sabeis. E pouco vos custará agora extinguir um resto de vida que está por tão pouco. Mas enquanto o não fizerdes, eu hei de...

— Que fareis vós?

— Lutar com o meu prelado para lhe tirar das mãos esta vítima, para o salvar.

— A mim me quereis vós salvar! E de quê?

— De maiores perigos do que pensais.

— Deixai-me com os meus perigos.

— E de novos remorsos... Também quereis que vos dei­xem com eles? Não tendes já bastante nos que tendes?

— Paio Guterres, — disse o bispo, começando a abater-lhe e espuma da cólera: — vós sabeis toda a fatal história da minha vida, tivestes não pequena parte nela; e permite Deus que eu seja obrigado a aturar a vossa presença na minha ca­tedral, no meu palácio, como a de um remorso vivo e ex­cruciante que me persegue sem cessar. Mas que não abuseis da permissão divina, ou juro a Anás e a Caifás...

— Não jureis tanto, senhor bispo: lembrai-vos que juras­tes, pelos mais tremendos juramentos e imprecações, na mi­nha pobre Estudaria da granja, a uma infeliz mulher que se finava, jurastes de lhe restituir o seu filho...

— Arcediago, essa mulher era uma judia; e eu sou maldito de Deus porque a conheci.

— Era judia, sim, como foram muitos santos patriarcas que nós cristãos veneramos e invocamos. Era judia ela, e seu santo pai que vos salvou da morte, e sua boa mãe que velou á vossa cabeceira, e que ambos morreram de pura má­goa de a perderem... Era judia, oh sim! mas um anjo, uma criatura celeste e sublime. Eu, que a conheci, que a admirei, que a amei e adorei nela a mais perfeita criatura que ainda me apareceu na terra, eu cuidei de morrer quan­do a vi perdida, arrastada por vós na infâmia e na vileza. Não morri de pesar porque me acudiu Deus. Não morri às vossas mãos quando vo-lo exprobrei com tanta veemência, naquela fatal noite da granja, porque... porque também Deus vos acudiu a vós e vos livrou de mais esse crime... E eu voltei-me a Ele, e para o santo ministério de seus altares a que me consagrei. Mas vós, senhor, para que seguistes vós a mesma vereda com tão outros fins e com tão outro pro­pósito? Oh! vós sois meu senhor, meu superior e meu pre­lado: mas perdoai-me que vos fale assim; relevai-me, que é por vós, é por honra deste altar em que ambos ministramos, eu humilde presbítero, vós príncipe da igreja e sucessor dos apóstolos, mas ambos servimos o mesmo Deus, ambos no mesmo altar tomamos em nossas mãos o seu corpo e o seu sangue... Oh, senhor, senhor, acudi, que ainda é tempo, acudi por vós, salvai-vos, e salvai-nos a todos de um grande escândalo, de uma perdição horrível. Entregai-me esta po­bre mulher, deixai-me que a vá restituir ao povo e cumprir a promessa que esta manhã lhe fiz na vossa catedral, no tem­plo do Senhor, na presença de Deus, onde tomei o seu santo nome em vão, e menti... menti por vós, por vos salvar de um desacato e acudir por vossa honra, pela do episcopado e da igreja... menti... oh! fazei que não seja inútil o meu pecado, que me eu glorie nele. Oh! que em memória da­quela infeliz que não podeis ter esquecido... Impossível... que em sua memória façais este sacrifício de vossa vaidade — que outro não pode ser. Deixai-me ir reparar o mal feito; que eu possa ir dizer a essa gente inquieta: O vosso bispo é incapaz das infâmias que lhe atribuem. Ani­nhas ai está livre e pura. Eu velei e eu velarei por ela e por sua honra.

O bispo vacilou, seus melhores instintos tomavam-no de cima. Razão, sentimento, o próprio interesse, tudo peleja­va pelo bom arcediago. Sua eloquência, toda de alma e coração, dobrou o orgulho do altivo prelado — que outras paixões não as havia a debelar ali.

— Paio Guterres, — disse ele — vós sois um virtuoso clérigo, e um honrado homem. Abracemo-nos, arcediago, e... perdoai-me.

O cônego ajoelhou sufocado em lágrimas:

— É a vossos pés, senhor, que me eu hei de prostrar; vós que tendes de perdoar-me, porque sois meu senhor e meu prelado.

XXX

O DITO POR NÃO DITO

O bispo estava com os braços abertos para o seu vigário; uma lágrima, esquecida há tantos anos naqueles olhos que desaprenderam de chorar, tremia-lhe entre as pálpebras se­cas e desacostumadas.

E o bom do arcediago, sem se levantar dos pés do seu su­perior, pelos joelhos o abraçava, regando-lhos do copioso pranto de sua alegria, na satisfação jubilosa de sua santa alma.

É quadro para enternecer anjos e converter demônios ver a humildade da virtude prostrada aos pés do orgulhoso criminoso, que por fim não pode mais senão deixar-se vencer e dominar por ela.

— Abraçai-me e perdoai-mel — clamava o bispo: — Oh perdoai-me! E que Deus se compadeça de mim, e por vossa intercessão me perdoe também, homem santo e virtuoso!

— Ele sim, Ele sim, — respondia o arcediago: — nós somos pecadores ambos; mas Ele vos bendirá, senhor, porque vos vencestes a vós mesmo e triunfastes de vosso maior inimigo.

Neste momento, neste próprio momento um clamor furio­so e destemperado rebentou do lado dos paços do conselho e dentre o confuso estampido das vozes se discriminaram lo­go os gritos de:

— Morra Pêro Cão!... Pêro Cão, e o cão do bispo!

— Viva el-rei D. Pedro! Viva o nosso capitão!

— Venha o nosso pendão!... O pendão da Virgem!

— Liberdade, liberdade!... Abaixo com todos estes cães?

Os braços abertos do bispo estacaram; seu corpo, que se inclinava na deferência e na compunção, ressurgiu alto e se retesou duro e firme. Esses brados refizeram de repente ne­le o “homem velho” e lhe retemperaram o coração na primi­tiva dureza de seu mau natural.

Paio Guterres caiu de bruços no chão e soluçou amarga­mente:

— Meu Deus, meu Deus! é tarde, Senhor... e a vossa ho­ra não espera por ninguém.

— Ouvis? — clamou o bispo, roxo e pálido de despeito, mas a voz segura e mordente de amarga ironia: — ouvis, se­nhor arcediago de Oliveira? São os vossos amigos. Ide pa­ra eles, bom clérigo. Tirai a máscara da santidade, arrojai a garnacha e ide tomar o chuço dos amotinados, cujo sois. Mas dirigi melhor essa canalha desatentada, porque, se os tendes mandado vir dez minutos depois, a vossa obra de traição estava feita, e essa mulher... Que a venham buscar agora, vós ou eles ... vós com vossas hipocrisias, eles com suas insolências: que eu voto a São Judas Iscariote... hão de levá-la feita em postas.

Uma gargalhada diabólica, seca, fria, uma verdadeira gar­galhada de bruxas retiniu (de entre os panos-de-rás, pare­cia) por todo o aposento.

— Ah! — disse o bispo, e correu a casa toda com os olhos turbados. E não viu ninguém.

— Onde está ela, essa maldita?

Paio Guterres levantou-se, e, os braços cruzados sobre o peito, os olhos tristemente postos no céu, não ouvia, senão em rumor vago, as desatinadas palavras do bispo- Mas quando o sentiu, depois de recobrado da primeira surpresa, ir direito onde Aninhas ainda há pouco se escondera como uma criança, toda a energia de sua alma acordou, e segu­rando-o pelas vestes pontificias, com um brado que não pa­recia ser o de sua débil voz:

— Que fazeis, homem perdido? Tremei!

O bispo tremeu com efeito, porque a voz de Paio Guterres parecia a trombeta de um anjo repetindo as cóleras do Se­nhor que o mandou à terra. O arcediago, deitando a mão às cortinas, correu-as, e patenteou aos olhos do indigno pre­lado o que era para fazer ajoelhar impios e bater nos peitos à própria incredulidade.

Cravada numa alta cruz negra e sem mais ornatos, estava a imagem do Cristo, de grandeza natural, não perfeita se­gundo a arte, mas devota e impressiva imagem que tinha não sei quê de divino e de augusto, e refletia a imensa pie­dade do Deus de misericórdias que vem morrer pelos ho­mens. Aos pés da cruz, não a Madalena arrependida que se debulha no pranto de seus remorsos, mas uma pobre criatu­ra, bela, simples, e sem pecados para os chorar, mas que transida de medo se abraça com o santo sinal da Redenção e põe sua última esperança no amparo do Salvador.

Era Aninhas que ali se acoitara, que ali acabava de dar graças a Deus por ver apiedado o seu perseguidor, que ali se encastelara agora de novo como em cidadela inexpugná­vel, quando outra vez o ouviu jurar a sua ruína:

_ Pontífice de Jesus Cristo! — bradou o arcediago: — ou­sareis arrancá-la dali?

O bispo devia de ter dentro de si naquela hora o demônio negro que ele dizia, porque tremeu como o demônio treme da cruz. Mas depressa se recobrou, e sacudindo de si a dé­bil compulsão do arcediago, assim como de sua alma todo o temor salutar de Deus:

— Basta — disse — de hipocrisias e de jogos de crianças. Esta mulher não sai daqui; e vós saí quanto antes, senhor arcediago. Assim vo-lo ordeno, eu vosso bispo e senhor vosso. Parti.

E chegando à porta que dava para as salas de fora, cha­mou alto:

— Olá, Pêro Cão!

O dogue apareceu. Mas não ria agora. Tão lívido e ver­de-negro como esta manhã, trêmulo de raiva e de susto pe­los brados que ouvia, vinha como rafeiro apedrejado che­gando-se para o dono que o chamava.

— Tirai-me daí essa mulher, e levai-a aos cárceres reserva­dos do subterrâneo. Não ao aljube: entendeis?

Pêro Cão deu um ronquido surdo de inteligência.

— Para igual sítio vos devia mandar a vós, senhor arce­diago; mas...

O clérigo inclinou-se e não respondeu mais. O bispo sem olhar para ele nem para ninguém, saiu do aposento, e to­mou para a sala de armas onde estavam muitos dos seus ho­mens e oficiais de sua casa e Estado. E Aninhas, depois de uma última fervorosa oração àquela bendita imagem que, dizia ela, a salvara, tomando a bênção de Paio Guterres, que lhe recomendou de ter bom ânimo e confiança em Deus, se-
guiu resignadamente o seu carcereiro para a profundez das masmorras episcopais.

O pobre arcediago, desanimado, aterrado, meditando sobre as calamidades que de tão perto via já cair sobre aquela casa de maldição, sacudiu suas sandálias do pó infecto que ali se calcava — desse lixo de torpezas em que tão inútilmente fora enxovalhar-se.
E levantou o pano-de-rás, e foi pela mesma escada dos sub­terrâneos... fie só, como? Quem lhe dá o fio desse la­birinto?

Alguém ali havia escondido, que o tornou pela mão e lhe disse baixo:
— Sou eu vinde.

Quem era? Seria a bruxa da seca gargalhada de inda agora? Quem era ela, que fazia ali, que lhe importava?...

A história não diz senão que a dita bruxa, ou não bruxa, levou muito diretamente o arcediago até ao seu aljube; seu porque ele era, como já disse, o penitenciário e o viagário do bispado. Dali sairam logo os dois: mas para onde foram não se sabe... por agora ao menos.

Deixá-los ir; e vamos nós ver o que fazia no entanto a revolta.

XXXI

“SENATUS POPULUSQUE PORTUCALLENSIS”

Não longe das feudais torres da Sé e de seus paços, esta­vam, como tantas vezes temos indicado, os do conselho: aí desde manhã a vereação se tinha reunido no que hoje diría­mos “sessão permanente”. O estado agitado da população, o receio de a ver romper de novo em aberta revolta, conser­vava ali reunidos, vigilantes e consultando da salvação da pátria, os veneráveis membros do senado portucalense.

Ao reverso, porém, do senado de Roma, este é que tinha abandonado a plebe e feito o seu Aventino no monte da Sé. E por mais penas, nem lhe apareceu um Valério Publícola que soubesse salvar a pátria com um conto da carochinha, restabelecer com um apólogo a harmonia entre os poderes do Estado. E quando aparecesse, tinha de lhe suar o topete ao Publícola tripeiro para arranjar uma história que fosse bem o reverso daqueloutra; pois não eram agora os braços e as pernas que recusavam trabalhar para o ventre; senão que trabalhar e muito trabalhar queriam, mas por sua con­ta e risco, e sem lhes importar, em coisa alguma, com a sua municipal e senatória barriga, porquanto era ela barriga quem os tinha abandonado, deixando a bernarda à solta nas ruas, e indo-se fechar e barricadar eles senadores nos pa­ços do conselho.

Estavam porém ali; e consultando e deliberando estavam. Mas o resultado de todas as suas consultações e deliberações tinha sido aquele tão legítimo, tão clássico e proverbial por­tuguês de: AMANHÃ VEREMOS.

Assente e aceite este grande ultimatum da política portu­guesa, que mais há que fazer? Os ministros adormecem nos seus gabinetes dourados, os senadores nas suas curuis de marfim, e os próprio tribunos — quando os há — roncam nos seus escanos de pinho, porque tudo está dito e tudo está feito. Boas noites, amada pátria, e até amanhã.

Muitas vezes chega a dita manhã, o ministro almoça, me­te-se na sege de aluguel, vai para a sua secretaria mui tran­quilamente, seguido do seu lictor posterior, que choita mi­nisterialmente no rocim oficial detrás do currículo excelen­tíssimo, — chega ao Terreiro do Paço e acha a bernarda acampada ali com outros ministros já feitos, que lhe tiram a pasta de baixo do braço, e lhe dão dois pontapés no tra­seiro — sem lhe acudir nem o lictor do chimplim, porque imediatamente o abandonou e se foi postar detrás da outra sege de aluguel do outro ministro.

O senador, como ordinariamente vai a pé, sempre encon­tra no caminho alguma alma benfazeja que lhe diga: “Es­conda-se, olhe que o prendem”. E ele some-se na trapeira, e apela para o seu fiel amanhã, que lhe é muitas vezes in­fidelíssimo, e não chega tão cedo.

Quanto ao tribuno, esse resta-lhe acusar os outros de traidores e de patetas, e ir tramar outra revolução para a tornar a perder.

Amanhã, santo amanhã de Portugal, que bons sonos dei­xas dormir à gente! Que nos importa a nós que as outras nações andem porque aproveitam o dia de hoje, se nós, por ti, dormimos e somos felizes como uns lazarones sem cuidados!

O senado portuense estava pois firme nestes bons prin­cípios. E demais, como durante a procissão das ladainhas. e muitas horas depois ainda, a revolução cochichava somen­te pelas esquinas, pelas tendas e pelas tabernas, não gritava nem fazia ressoar os anárquicos arames dos terríveis caldei­reiros, naturalmente se tinha ido aquietando a solicitude dos padres conscritos, e adormecendo a sua vigilância.

Referem até alguns cronistas, porém somente como boato a que se não pode dar crédito implícito, que sentindo-se exaus­tos de deliberar — e o deliberar é verdade que exaure —quando foi ali pela tarde, tinham mandado vir da próxima bodega um alentado prato de saborosas tripas, e que em honra da invicta cidade o tinham alojado todo em seus capacíssimos abdômens, diluindo a espessa e glutinosa decocção em sendos pichéis de vinho maduro. O que de tal modo acabou de serenar em seus ânimos os cuidados da re­pública, que, inclinando as veneráveis frentes sobre a banca da vereação, ou recostando para trás as respeitáveis nucas ao espaldar das curuis, unanimemente e sem discrepância de um só voto....adormeceram.

Reinava a santa paz — e se afinavam em deliciosa harmo­nia os compassados roncos dos nossos padres conscritos. Des­de o assoviado falsete de Rubini, até ao baixo azabumba­do da Lablache, todos os sons ali se ouviam e se harmoni­zavam em melodia e consonância.

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